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Guilherme Fernandes

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O Operário: a crônica de um funcionário padrão

Chistian Bale chegou aos 55 kg para fazer o perturbado personagem em "O Operário", de Brad Anderson. Sua dieta era composta de uma lata de atum, uma xícara de café e cigarros para frear o apetite – mesmo não sendo fumante. E só.


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Chistian Bale é um sujeito estranho. Consegue ser odiado por atuações insossas e sem brilho, como em "Novo Mundo" (2005), de Terence Malick; é idolatrado e tido como um dos principais responsáveis pelo renascimento e sucesso recente da franquia do homem-morcego, capitaneada pelas mãos do supervalorizado Christopher Nolan.

O que é inegável e incontestável é o quanto este rapaz se entrega para seus papéis. Para viver o Batman, Bale "criou" três vozes diferentes para o personagem, e deixou a cargo de Nolan, para que escolhesse a que melhor encaixava em seus planos. Fora isso, Bale acumula treinamentos de boxe com profissionais e aulas de mágica com famosos ilusionistas, para compor seus papéis com maestria. Às vezes, acerta. Em outras, erra feio. Normal para um ator que se arrisca tanto em personagens tão dispares entre si.

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Suas movimentações pela balança também impressionam. De 66 kg em "O Vencedor" (2010) – onde ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante –, até 90 kg e músculos definidos para encerrar a trilogia do Homem-morcego. No entanto, basta uma rápida pesquisa para saber que Bale chegou aos 55 kg para fazer o perturbado personagem em "O Operário" (2004), de Brad Anderson. Sua dieta era composta de uma lata de atum, uma xícara de café e cigarros para frear o apetite – mesmo não sendo fumante. E só.

Os esforços de Bale na composição de seus personagens motivam os espectadores à assistirem seus filmes. E assim, acabamos sendo surpreendidos por boas histórias, roteiros inteligentes, e, claro, boas interpretações do rapaz.

Em "O Operário", Bale é Trevor Reznik, um rapaz psicótico que não dorme há um ano. Insone e isolado, sua maior expressão de sociabilidade resume-se em encontros casuais com uma prostituta (Jennifer Jason Leigh) e conversas lacônicas com a garçonete (Aitana Sánchez-Gijón) de uma cafeteria localizada dentro de um aeroporto. Trabalha em uma fábrica, na linha de produção. Apesar de seu serviço tétrico, dá indícios de ter mantido um relacionamento mais amigável com seus colegas de trabalho.

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Até que Trevor é responsável direto por um acidente ocorrido em uma das máquinas, que decepa o braço de um dos funcionários (Michael Ironside). A partir daí, a mente já perturbada de Reznik explode, gerando teorias conspiratórias psicóticas, perseguições insólitas e mostrando, pouco a pouco, as razões de sua insônia e de seu isolamento social. O roteiro não entrega o jogo em nenhum momento antes do necessário, costurando todos os acontecimentos de forma brilhante, até o apoteótico final, chocante e incômodo, mas, ao mesmo tempo, brilhante.

É interessante ressaltar a boa construção dos diálogos, que remetem à constantes repetições e jogos de palavras, como nas cenas em que aparecem os bilhetes na geladeira de Reznik, ou nas cenas em que as perguntas são respondidas por outras perguntas, sempre iguais, instigando o expectador a prestar atenção em detalhes mais específicos como as expressões corporais de Bale, que vão conduzindo todos os outros personagens de forma indireta, gerando asco, pena, carinho, admiração e medo, de acordo com suas nuances corporais.

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"O Operário" é uma produção interessante, eficaz e refinada. Sua construção tem muito em comum com os clássicos dos thrillers de suspense, que sabem conduzir a ação necessária para cada cena, desenvolvendo bem os personagens – e escondendo exatamente o que é necessário para juntar as pontas soltas durante o filme – e proporcionando um bom andamento à história, sem "barrigas" enfadonhas ou explosões de informações importantes, o que geralmente tem sido um clichê dos filmes de suspense recentes.

Não irá reinventar os filmes de suspense psicológicos, até porque o filme bebe muito nas mesmas fontes de filmes como "Amnésia" (2000) e "Insônia" (2002) – ambos coincidentemente dirigidos por Christopher Nolan –, mas serão bons 101 minutos gastos em uma história interessante, envolvente e que cumpre o seu dever como entretenimento.

Filme: O Operário

Título Original: The Machinist

Direção: Brad Anderson

Espanha, 2004, 101'

Roteiro: Scott Kosar, Brad Anderson

Elenco: Christian Bale, Jennifer Jason Leigh, Aitana Sánchez-Gijón


Guilherme Fernandes

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