ricardo ferreira

Conjunturas sinápticas resumidas ortográficamente sobre Ciência e Fotografia

Ricardo Ferreira

Físico, fotógrafo, cinéfilo e louco, sempre me apoio em ombros de gigantes para tentar enxergar mais a frente. Interesso-me pelo original, odeio mediocridade e adoro tornar belo, paisagens esquecidas pela poeira do tempo.

Astrologia ou Astronomia, Ciência ou Mito?

Críticos da astrologia consideram-na uma forma de pseudociência ou superstição, devido à sua incapacidade de demonstrar o que afirma. Por sua vez, astrólogos contestam testes propostos pela ciência para validar a astrologia nesse sentido. E, quando não se recusam a participar deles, rejeitam seus resultados, apesar destes serem baseados em testes estatísticos e em leis da natureza amplamente validadas.


constelations.jpgJogo antigo infantil: ligue os ponto das estrelas

QUAL A DIFERENÇA? Astronomia e astrologia são palavras derivadas do grego. Nessa língua, astron significa ‘estrela’ e o sufixo nomos (escrito, em português, como ‘nomia’), ‘regra’ ou ‘lei’. A astronomia é a ciência que trata da constituição, posição relativa, movimento e, mais recentemente, dos processos físicos que ocorrem nos astros (neste último caso, sendo denominada astrofísica, cujo nascimento se deu no século 19). Por sua vez, a astrologia aglutina astron e logos (em português, ‘logia’), que significa ‘palavra’ e que pode ser entendido como ‘estudo’ ou ‘disciplina’. De forma geral, a astrologia trata do estudo da influência dos astros, especialmente dos signos do zodíaco, no destino e no comportamento humano. Os fundamentos da astrologia foram estabelecidos pelos babilônios, por volta de 1500 a.C. A origem comum da astronomia e da astrologia remonta a essa época e, apesar de ambas se basearem no estudo dos astros, suas versões modernas são inteiramente distintas.

chaldeans.jpgOlha lá, ela ta tirando tudo!

A astrologia baseia suas previsões no movimento relativo dos planetas do sistema solar, não fazendo uso da informação trazida pela radiação eletromagnética (ondas de rádio, infravermelho, luz visível, raios X etc.) emitida por eles. Praticantes e estudiosos da astrologia consideram-na uma linguagem simbólica, forma de arte, adivinhação ou até ciência, com capacidade de prever o futuro ou aspectos ocultos da personalidade. Já a astronomia, é baseada em leis conhecidas da física, sendo que os resultados obtidos com base nessas leis deverão ser os mesmos para qualquer pessoa que conheça os métodos empregados no experimento, bem como as leis em questão. O estudo de astros distantes também é feito com base na radiação eletromagnética emitida por esses corpos celestes, incluindo ondas de rádio, microondas, ultravioleta, raios X e raios gama. Isso permite não só a reconstrução dos processos físicos que produzem essa radiação, mas também o estudo da estrutura e do estado evolutivo do astro.

É POSSÍVEL FAZER TESTES COMPROBATÓRIOS? O psicólogo Bernard Silverman, da Universidade Estadual de Michigan (Estados Unidos), estudou o casamento de 2.978 casais e o divórcio de 478 deles, comparando com as previsões de compatibilidade (ou não) dos horóscopos. Conclusão: pessoas ‘incompatíveis’ casam-se e divorciam-se com a mesma frequência que as ‘compatíveis’. Os astrônomos Roger Culver, da Universidade do Estado do Colorado (Estados Unidos), e Philip Ianna, da Universidade da Virgínia (também nos Estados Unidos), registraram, por cinco anos, mais de 3 mil previsões específicas publicadas por astrólogos e organizações astrológicas bem conhecidas. Constataram somente 10% de acerto nelas. Outro estudo, com cerca de 15 mil ‘gêmeos astrológicos’, foi conduzido por Peter Hartmann, Martin Reuter e Helmut Nyborg e publicado em 2006 no periódico Personality and Individual Differences (v. 40, p. 1.349). Essa equipe de psicólogos da Dinamarca e da Alemanha examinou a relação entre data de nascimento e diversas características pessoais. Ao final do estudo, não encontraram evidências entre o signo zodiacal e essas características nos avaliados. Geoffrey Dean, pesquisador australiano que realizou testes extensivos sobre astrologia, inverteu as leituras astrológicas de 22 pessoas, substituindo as frases originais dos horóscopos por outras que diziam o oposto. Ainda assim, as pessoas nesse estudo disseram que as leituras se aplicavam a elas tão freqüentemente (95% das vezes) quanto as pessoas a quem foram dadas as leituras corretas. Aparentemente, aqueles que procuram astrólogos desejam apenas uma orientação, qualquer que seja ela.

Esfera-celeste-XX.jpgCiclo precessional

O QUE ACONTECE DE FATO? Durante o ano, o Sol percorre um determinado caminho no céu, chamado de eclíptica, tendo as constelações como pano de fundo – elas formam o zodíaco. Uma Pessoa será de Sagitário, por exemplo, se o Sol estava percorrendo aquela constelação quando do seu nascimento. Ocorre que os astrônomos descobriram que o Sol passa não por 12, mas por 13 constelações em um ano – das 88 existentes. Na antiguidade já se conhecia Ofiúco, mas ela ficava longe da eclíptica. No período de quase 3.000 anos, o movimento de precessão do eixo de rotação da Terra (tipo um peão cambaleando que leva 25.780 anos para se completar), acabou fazendo com que o Sol passasse rapidamente por Ofiúco. Essa constelação fica entre Escorpião e Sagitário – de 30 de novembro a 17 de dezembro. Sim, é isso mesmo, muitos de nós somos do signo de Ofiúco e, felizmente, isso não tem a menor importância! A divisão do zodíaco em 12 signos é puramente arbitrária e segue apenas a tradição dos povos antigos.

Ofiuco1.jpgRepresentação da constelação de Ofiúco

POSSO PERGUNTAR? Qual é a probabilidade de que 1/12 da população da Terra esteja tendo o mesmo tipo de dia? Mesmo levando em conta todos os detalhes astrológicos (ascendentes, quadraturas, oposições etc.), os horóscopos deveriam apresentar alguma semelhança, pois o signo ‘solar’ é a principal referência. Uma simples divisão mostra que, nesse caso, as mesmas previsões seriam, ainda que superficialmente, adequadas a cerca de 400 milhões de pessoas em todo o mundo, todos os dias! Estavam errados os horóscopos feitos antes das descobertas de Urano, Netuno e Plutão, ocorridas em 1781, 1846 e 1930, respectivamente? Deveríamos refazer esses horóscopos? Além disso, existe uma associação entre nomes de planetas, personalidades mitológicas e características astrológicas, portanto há que se pensar agora como nomear e incluir a influência dos mais de 300 planetas extras solares descobertos desde 1995.

A ASTROLOGIA JÁ FOI CIÊNCIA? Na Idade Média, com sua atmosfera de intensa religiosidade, a possibilidade de fazer e verificar previsões baseadas nos astros era questionada. O padre e filósofo católico Aurélio Agostinho (354-430) – mais conhecido como Santo Agostinho – levantou o famoso problema do “fatalismo astrológico”, um arrazoado no qual argumentava que, “se o futuro já estava previsto por Deus, ou pela influência previsível dos movimentos planetários, para todos, como poderiam ser livres os humanos”?

Nessa época, eram conhecidos três tipos de astrologia, descritos pelo filósofo francês Nicolas Oresme (1320-1382), crítico da astrologia e astrônomo mecanicista da corte de Carlos V: 1) a astrologia matemática (ou astronomia); 2) astrologia natural (relacionada com a física); 3) a astrologia espiritual (ligada à previsão do futuro e à elaboração de horóscopos).

Na Idade Média, portanto, já era feita uma diferenciação entre a astronomia e a astrologia. Até o final do Renascimento, a astrologia foi uma atividade essencialmente acadêmica, exercida inclusive por médicos. Por uma questão de justiça, deve ser sempre mencionado que o dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601), o alemão Johannes Kepler (1571-1630) e o italiano Galileu Galilei (1564-1642), além de cientistas (no sentido moderno do termo), foram também competentes astrólogos nos sentidos ‘1’ e ‘2’ do parágrafo anterior. Kepler, porém, foi um crítico ferrenho da astrologia divinatória. No século 17, o interesse acadêmico pelo prognóstico astrológico transferiu-se para a nova medicina e para a meteorologia, e, nessa época, a astrologia saiu da academia, estimulando novamente o aparecimento do tipo de astrólogo usualmente conhecido na Antiguidade, mais dedicado às práticas divinatórias. Em linhas gerais, esse é o quadro que permanece até os dias de hoje.

REFERÊNCIAS: Braga, J.; WuEnschE,c. a. ‘seu kit de defesa contra a astrologia’, in Boletim da Sociedade Astronômica Brasileira (disponível em http://www.das.inpe.br/~alex/portugues/divulgacao.html);

Culver, r. B.; ianna, p. a. Astrology: true or false? – A scientific evaluation. Nova York, amherst prometheus Books, 1988.

Na internet (em inglês): ‘a exploração científica da astrologia’: http://web.archive.org/web/20050126080220astrology-and-science.com/


Ricardo Ferreira

Físico, fotógrafo, cinéfilo e louco, sempre me apoio em ombros de gigantes para tentar enxergar mais a frente. Interesso-me pelo original, odeio mediocridade e adoro tornar belo, paisagens esquecidas pela poeira do tempo..
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