ricardo ferreira

Conjunturas sinápticas resumidas ortográficamente sobre Ciência e Fotografia

Ricardo Ferreira

Físico, fotógrafo, cinéfilo e louco, sempre me apoio em ombros de gigantes para tentar enxergar mais a frente. Interesso-me pelo original, odeio mediocridade e adoro tornar belo, paisagens esquecidas pela poeira do tempo.

Os filmes também ensinam ciência...

Quem nunca viu uma cena de filme de ficção, na qual o diretor dedicou alguns minutos explicando a "ciência" do que aconteceu ou do que ia acontecer, para que a história pudesse evoluir?. "Então, você nunca viu um filme de ficção!". Críticas dos "nerds" de plantão estão fazendo com que os roteiristas aproveitem cada vez mais em suas cenas o que chamo de "Ciência Explícita".


Explicação do Dr. SelvigDr. Selvig explicando o multiverso no filme Thor.

Diante de bilheterias cada vez mais favoráveis aos filmes de ficção, Hollywood, distrito da cidade de Los Angeles que possui a maior concentração de empresas do ramo cinematográfico dos EUA, com cada filme que produz, vem deixando claro – para quem quiser saber – que o som não se propaga no espaço mas o dinheiro sim. Críticas feitas por espectadores, "nerds" fanáticos, ao filme GUERRA NAS ESTRELAS (Star Wars) sobre o comportamento da física no espaço, após vários anos de sua primeira apresentação, fez com que os roteiristas dedicassem cada vez mais em seus textos, rápidas explicações científicas que levam o público a comprar a idéia do filme. Pode parecer que não mas isso tem gerado para o mercado arrecadações estelares, dignas de uma jornada nas estrelas. O que dizer dos filmes JORNADA NAS ESTRELAS (Star Trek), tanto os antigos quanto os novos? Ou do filme GRAVIDADE Gravity)? Ou do filme OS VINGADORES (The Avengers)? Ou do filme THOR? Até o filme dos X-MEN ( Days of future past - o último) tem batido na mesma tecla. Só para citar as referências mais recentes. Em qualquer filme desses você verá um ator explicando probabilidades, estatísticas e consequências físicas, químicas ou biológicas da ação que se seguirá. Com exceção do filme Gravidade que já logo de cara, antes das primeiras cenas, dispõe curtas instruções acerca do ambiente espacial. Os roteiristas apresentam as idéias teóricas reais extrapolando seus limites para que se tornem possíveis. É Claro que, apenas o seu bom senso irá determinar o que de fato esta correto e faz todo o sentido científico.

Os filmes possuem uma estrutura que permite “que o mesmo seja lido” e analisado como texto, fracionando-se suas diferentes estruturas de significação e reorganizando-as novamente segundo critérios previamente estabelecidos, de acordo com os objetivos que se quer atingir. Com efeito, há a possibilidade das narrativas em imagem-som comporem o currículo cultural do indivíduo, na medida em que produtos audiovisuais são capazes de influenciar a forma de ver de aprender e de pensar.

Gravity.jpgPor que eu estou me afastaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa......ndo?

Há um aluno meu do ensino médio que discute com fervor a possibilidade da viagem no tempo, só porque assistiu ao filme DE VOLTA PARA O FUTURO (Back to the Future). Ele criticou um filme atual chamado NO LIMITE DO AMANHA (Edge of tomorrow) utilizando-se de argumentos científicos. Claro que, assim como em alguns filmes, se ouvia mais besteira do que informação, mas ver um moleque de classe média baixa, com 15 anos de idade, se interessando por conta própria pela teoria da relatividade de Einstein nos dias de hoje aqui no Brasil, é quase um milagre. A popularidade nos dias atuais da ficção científica é tão grande no Brasil e no mundo que até fizeram um seriado cômico dedicado a classe dos cientistas responsáveis pela viabilidade de algumas histórias, para você saber que os profissionais existem, como eles são, o que fazem, quanto ganham, onde trabalham e se tem senso de humor. O título é bem sugestivo: THE BIG BANG THEORY.

caricature_jim_parsons_sheldon_cooper_leonard_hofstadter_1600x900_35385.jpg...-"A popularidade nos dias atuais da ficção científica é tão grande no Brasil!".....-"aham, sei!"

A teoria do Big Bang, como ficou conhecida a proposta do físico Georges Lemaître, é uma das mais famosas teorias da física cosmológica. Ela propõe matematicamente a teoria da origem do universo. Forte isso, não é mesmo? Neste seriado, três físicos e um engenheiro convivem juntos nos mesmos ambientes e de vez em quando várias explicações complexas são abordadas em situações comuns do cotidiano. Deu pra visualizar a bagunça? ...É bem engraçado!

De fato, a aprendizagem dos conceitos, das teorias e dos métodos expressos nas histórias dos filmes, precisam ser significativas para que os espectadores dêem sentido ao conhecimento que se está construindo. Neste âmbito, ganha relevância a teoria da aprendizagem significativa, a partir da qual se propõe que o indivíduo aprende mediante a incorporação de uma nova informação, a qual se acopla a uma estrutura cognitiva previamente construída, levando a uma ampliação do conhecimento. Esse modelo permite que o espectador agregue aos seus conhecimentos anteriores novas informações, produzindo assim novos significados para tais saberes. Entretanto, para que a aprendizagem significativa ocorra, são necessárias algumas condições prévias, minimizando o risco de que os espectadores simplesmente “somem” conhecimentos ao repertório cognitivo ao invés de dar significado aos mesmos. Traduzindo em miúdos, se você não prestar a atenção e não conseguir fazer um link da informação nova com conhecimentos prévios, aqueles que você já possui, você irá apenas concordar com tudo o que viu sem nenhum senso crítico e não irá absorver nenhuma informação. spock.jpgIt´s not obvious? No, it´s only logical.

Se nós, pessoas comuns, percebemos que os filmes querem nos transmitir algo a mais além do entretenimento, imagina o que já não perceberam os profissionais da área de ensino. Há muitos anos que estes perceberam que além de entreter, os filmes poderiam se tornar, quando bem utilizado, uma importante estratégia pedagógica. A partir da década de 70 a produção fílmica passou a ser considerada como importante para a construção do conhecimento histórico e do saber escolar. No Brasil, as primeiras propostas de uma escola “nova” sugeriram a utilização de recursos audiovisuais, em especial do cinema, visto que o mesmo havia alcançado grande desenvolvimento nas décadas de 10 e 20, como uma maneira de estimular e tornar o processo de aprendizagem interessante para o educando. As Instruções metodológicas elaboradas para auxiliar a aplicação dos programas de ensino para a escola secundária, impostos a todos os estabelecimentos escolares brasileiros, logo após a Reforma Francisco Campos (Decreto 19.890 de 1931), recomendavam a utilização da iconografia. Alegava-se que os adolescentes tinham uma curiosidade natural pela imagem, e que por este motivo os recursos tecnológicos deveriam ser utilizados no ensino secundário. Seguindo as novas propostas, e também com o intuito de controlar a influência que o cinema exerceria sobre a juventude, a Lei nº 378, de 13/1/1937, criou o Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), que teve como primeiro diretor o médico, professor e pioneiro das comunicações Roquette Pinto. Com a colaboração de cineastas como Humberto Mauro, o INCE realizou em torno de quatrocentos curtas-metragens até sua extinção em 1966, sendo quase um terço deles voltado para temas de educação científica e de divulgação de ciência e tecnologia.

chico-anysio.jpg-"Você já viu algum filme desses na escola?...hum nem eu!"

REFERÊNCIAS

ALVES FERREIRA, R., ANDRADE, T. S., SIQUEIRA-BATISTA, R., RÔÇAS, G., HELAYËL-NETO, J. A. Cinema e Ensino de Física In: XVIII SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE FÍSICA, 2009, Vitória - Espírito Santo. Cinema e Ensino de Física. São Paulo: Sociedade Brasileira de Física, 2009. v.1. p.1 - 8

BUENO FISCHER, R. M. Mídia, máquinas de imagens e práticas pedagógicas. Revista Brasileira de Educação v. 12 n. 35 maio/ago. 2007

LOURO, G. L. O cinema como pedagogia: 50 anos de educação no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.


Ricardo Ferreira

Físico, fotógrafo, cinéfilo e louco, sempre me apoio em ombros de gigantes para tentar enxergar mais a frente. Interesso-me pelo original, odeio mediocridade e adoro tornar belo, paisagens esquecidas pela poeira do tempo..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Ricardo Ferreira