ricardo ferreira

Conjunturas sinápticas resumidas ortográficamente sobre Ciência e Fotografia

Ricardo Ferreira

Físico, fotógrafo, cinéfilo e louco, sempre me apoio em ombros de gigantes para tentar enxergar mais a frente. Interesso-me pelo original, odeio mediocridade e adoro tornar belo, paisagens esquecidas pela poeira do tempo.

Como nos localizamos no espaço e percebemos o tempo.

A percepção dos objetos que compõem o mundo — partindo-se do pressuposto de que há realmente um mundo “fora” do homem —, é realizada em momentos diferentes, não simultâneos, em decorrência da finita velocidade de propagação dos impulsos, bem como dos diferentes tempos de processamento neural.


imagem 3d.jpg

Com efeito, imagens e sons alcançam nosso cérebro em díspares momentos, ainda que tenham partido do mesmo objeto, ao mesmo tempo. Tal relatividade é, no entanto, compensada pelo cérebro, o qual é capaz de tornar síncronos estímulos que, no seu percurso neural, tornam-se não-simultâneos. Deste modo, o movimento mecânico das mãos e as notas produzidas por Eric Clapton ao interpretar com sua guitarra "While my guitar gently weeps", em concerto no Japão em 1991, parecem concomitantes para os atentos sentidos dos presentes na platéia. Gera-se, assim, a ilusão de um presente simultâneo — tanto pelo conteúdo temporal da consciência surgir com atraso em relação ao mundo, quanto pela coerência temporal produzida pelo cérebro —, o qual é caracterizado como “presente especioso”.

XI021961_942long.jpg...while my guitar gently weeps i look for the pretty lady who call my name.

Esta simultaneidade “imposta” pelo cérebro pode, no entanto, ser descontruída, desde que se altere o foco da atenção, como discutido por Baldo e colaboradores (2006). Com efeito, dois estímulos concomitantes — auditivos, táteis ou visuais — poderão ser ou não percebidos simultaneamente dependendo do foco de atenção, bem como de outros determinantes psicofísicos (Buhusi & Meck, 2005). Neste caso, por exemplo, quando um sujeito de pesquisa é colocado diante do monitor de um computador e mantém-se olhando fixamente para um ponto demarcado da tela, a apresentação sucessiva de rápidos estímulos visuais simultâneos, separados por certa distância, poderá ser percebida como não-concomitante. Neste caso, julga-se como primeiro estímulo aquele que surge na região para a qual está focada a atenção.

Outro aspecto de interesse diz respeito à relatividade espacial e temporal. De fato, a percepção de que um estímulo sensorial sofre variação na dependência de um incremento (ou declínio) mínimo proporcional à magnitude inicial do estímulo original. Neste contexto, é amplamente reconhecida a relatividade da percepção temporal, na dependência da circunstância: situações de estresse ou ansiedade importantes costumam manifestar-se como um “agônico” arrastar do tempo, ao passo que vivências felizes tendem a parecer como velozes e voláteis. Ademais, trabalhos demonstram que o tempo de visão em crianças — ou seja, o tempo que elas mantêm o olhar em um estímulo — habitua-se, ou seja, quanto mais o determinado evento é apresentado à retina, mais reduzida é a fixação do olhar no mesmo; de modo análogo, crianças tendem a reparar mais detidamente estímulos inesperados do que aqueles esperados (Gazzaniga et al., 2006). Estas observações talvez possam ajudar a compreender por que o tempo parece passar cada vez mais depressa à medida que se envelhece (Baldo et al., 2006).

xadrez.jpg-"Preciso jogar rápido pois estou ficando sem tempo!"

Percebe-se, pois, que a relatividade do tempo e do espaço estabelece-se no dinâmico processo de equilíbrio da estreita relação sujeito-realidade, tal qual o conjeturado por Nobre de Melo:

Alterações na vivência do tempo e do espaço podem ser registradas, certamente, não apenas em estados patológicos definidos. Mas também, de modo geral, toda vez que se perturbe, ainda que fortuitamente, a relação de estreita interdependência entre o eu e o mundo. Assim, um dia venturoso deixa-nos sempre a impressão de haver transcorrido demasiadamente rápido. [...] O mesmo acontece com relação à vivência do espaço. [...] É que a espacialidade não se define simplesmente pela relação material de proximidade ou de longitude físicas, entre duas ou mais realidades humanas. [Nobre de Melo, 1979]

Estas breves considerações permitem estabelecer um paralelo entre as relações espaço-temporais na física contemporânea e na atividade de circuitos neurais responsáveis pela codificação do espaço, do tempo e do movimento, seja pela modulação exercida pela atenção, seja pela intervenção de lesões do sistema nervoso central.

coelho pato wittgenstein.jpg

Referências: *BALDO MVC, CRAVO AM, HADDAD Jr H. Máscaras do tempo. Scientific American Brasil

*BUHUSI CV, MECK WH. What makes us tick? Functional and neural mechanisms of interval timing. Nature Reviews Neuroscience, vol. 6, p. 755-765, 2005.

*DEHAENE S. The neural basis of the Weber-Fechner law: a logarithmic mental number line.

*HELAYËL-NETO, J. A. ; SIQUEIRA-BATISTA, R. ; ALVES FERREIRA, R. ; DE JESUS, V. L. B. . Neurociências e física contemporânea: a vida no espaço-tempo.. In: Vanderson Esperidião Antônio. (Org.). NEUROCIÊNCIAS: DIÁLOGOS E INTERSEÇÕES. 1ed.: EDITORA RUBIO LTDA, 2013, v. 1, p. 505-527.


Ricardo Ferreira

Físico, fotógrafo, cinéfilo e louco, sempre me apoio em ombros de gigantes para tentar enxergar mais a frente. Interesso-me pelo original, odeio mediocridade e adoro tornar belo, paisagens esquecidas pela poeira do tempo..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Ricardo Ferreira