risco

"Prefiro a poesia. Um risco, um rabisco. E, depois disso, a eternidade."

Mariana Martins

Flanêur, escritora, observadora, mochileira, arquiteta-urbanista pela FAU USP. Paulista e Paulistana - com muito orgulho -, com um pezinho na cidade do Porto, Portugal de onde tem muitas saudades. Twitta no le_papillon_m.

Displace

Bairrismo ou não, acho que a arquitetura feita longe de quem a projeta tende a ter sérios problemas. Dos culturais aos tecnológicos, todos chegam ao mesmo ponto: Não é o desenho, o único fator definidor da qualidade de um projeto.


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O que acontece quando um escritório de arquitetura realiza um projeto fora de suas fronteiras?

A resposta me parece um pouco obvia. Ocorre um conflito. Isso porque os valores culturais, os pressupostos teóricos e históricos de um arquiteto, por mais que sejam abrangentes, não são os mesmos no seu próprio país de origem e num eventual país onde sua obra possa ser realizada. Para o exercício da Arquitetura - para projetar -, esses valores são essenciais.

Não que isso tudo seja novidade.

O projeto de Niemeyer para a sede do partido comunista na França é um bom exemplo de que não é de hoje que arquitetos produzem para fora. Com o crescente número de competições e concursos abertos, a tendência é que esse número aumente cada vez mais.

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A pergunta é: esses conflitos gerados serão positivos ou negativos?

O primeiro que encontramos é o da disparidade de técnica construtiva e tecnologia no canteiro de obras entre localidades.

Vemos isso no projeto do escritório Claus En Kaan para a embaixada da Holanda em Maputo. O arquiteto, habituado à excelência da construção na Holanda: rápida, com sistemas pré-fabricados de boa qualidade e com excelente acabamento, desenhou um projeto acreditando nesses valores. Mas a realidade da construção civil em Maputo é completamente diferente. O efeito escovado que você vê na imagem abaixo não era parte do projeto. Porém, como a qualidade do pré-fabricado em concreto era muito baixa, as paredes de todo o edifício foram lixadas para remover as gritantes imperfeições, que acabaram deixando ainda, depois de tudo lixado, esse efeito.

maputo_claus_en_kaan.jpg

O que acontece é que a arquitetura acaba tornando-se um cenário. A verdade construtiva, que é um conceito que está no discurso por trás desses projetos, é completamente esquecida nessas condições.

Outra situação é a falsa apreensão de valores locais.

O projeto do escritório suíço Herzog & De Meuron para o centro de Arte e Dança, apresentado essa semana, em São Paulo pode ser um exemplo. Nem vou entrar no mérito da questão política envolvida na escolha do escritório suíço para a realização do projeto. Nem da consultoria com o TPC - Theatre Projects Consultants, da Inglaterra para o detalhamento do programa de necessidades do edifício.

Vou me ater à estranheza que me causou aquela arquitetura com cara de Rio de Janeiro que parece ter caído de para-quedas no meio do Bairro da Luz. Pilotis, pé direito alto, mosaico português no chão, azulejos... Me senti assistindo a uma releitura dos elementos do Ministério da Educação e Cultura no Rio de Janeiro. E até as escadas me lembraram alguma coisa muito parecida com o que teria feito o Niemeyer.

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Mas se era para fazer alguma coisa com cara de Niemeyer, era melhor ter contratado diretamente ele. Porque a impressão que fica é que o edifício é uma fantasia de carnaval que vestiram por cima do edifício real, que, no partido, era um conjunto de planos horizontais que se interceptavam. 70 mil m² de área construída. Um investimento de 500 milhões. O resultado está aí embaixo no vídeo.

Outros conflitos poderiam ser levantados, mas acredito que a questão essencial já foi compreendida: estaria essa arquitetura exatamente no seu devido lugar, apesar de todos os seus desencontros, porque essa problematização é justamente o que fará uma arquitetura melhor? Ou estará essa arquitetura completamente fora de lugar?


Mariana Martins

Flanêur, escritora, observadora, mochileira, arquiteta-urbanista pela FAU USP. Paulista e Paulistana - com muito orgulho -, com um pezinho na cidade do Porto, Portugal de onde tem muitas saudades. Twitta no le_papillon_m..
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