risco

"Prefiro a poesia. Um risco, um rabisco. E, depois disso, a eternidade."

Mariana Martins

Flanêur, escritora, observadora, mochileira, arquiteta-urbanista pela FAU USP. Paulista e Paulistana - com muito orgulho -, com um pezinho na cidade do Porto, Portugal de onde tem muitas saudades. Twitta no le_papillon_m.

Quando a arquitetura vira ambiente

O que é a arquitetura do lugar? Três exemplos para você compreender como ambiente e arquitetura podem ser a mesma coisa.


Queria falar de uma arquitetura que se mistura tão cuidadosamente à paisagem que de certa forma faz acreditarmos que ela sempre esteve ali. Uma arquitetura que percebemos se encaixar nas linhas do horizonte, feita de material tão correto que os passarinhos arquitetam seu ninho do mesmo material nas suas paredes, abrigados pela sua cobertura. Onde os cachorros acham uma sombra para apreciar a paisagem, enquanto os gatos acham o Sol. Quero falar de uma arquitetura que dá continuidade e não que rompe com o que já existe. De uma edificação que de tão respeitosa se curva, para depois ver a natureza emoldurá-la com perfeição.

DSC_0988.jpg Imagem de Mariana Martins

Para falar disso dou aqui alguns casos exemplares que levo para a vida. Experiências arquitetônicas que mudaram minha maneira de enxergar o projeto.

A primeira delas e provavelmente a que mais me impressiona: o Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa, do arquiteto Camilo Rebelo. Assentando-se perfeitamente às curvas do terreno, o edifício constrói uma fenda, por onde adentramos. Seu mezanino e sua varanda dão para a paisagem deslumbrante do encontro do Rio Côa com o Douro, onde os cachorros dormem tranqüilos, apreciando o movimento do Sol nas montanhas fazer sombras. Na sala de reuniões, a janela é desenhada para emoldurar essa paisagem, fazendo dela uma obra de Arte. Pelos cantos, ninhos de passarinho penduram-se. Feitos do mesmo material usado para a as paredes do edifício, presente em abundância na região, ninho e casca arquitetônica se fundem, casas da mesma cor, abrigo das mesmas coisas. O Museu foi criado para exibir o acervo arqueológico reunido das descobertas no Vale do Côa, situado em Vila Nova de Foz do Côa. É uma maneira de educar a população sobre a importância daquele sítio e de ensinar sobre preservação e história. Um projeto primoroso. Mais informações sobre o projeto podem ser encontradas em http://www.camilorebelo.com .

DSC04357.jpg Imagem de Mariana Martins

Obra do arquiteto Oscar Niemayer, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói é meu segundo exemplo. A começar pelo sítio em que foi localizado, passando pela sua forma e terminando na maneira como toca o chão, o edifício é todo uma obra-prima da Arquitetura Moderna brasileira. De 1907, o projeto ainda parece perfeito. Particularmente, olho para ele como se nunca ali tivesse existido um vazio.

rodrigo_solton.jpg Imagem de Rodrigo Solton

Ao falar sobre o projeto, perceba o cuidado que o arquiteto tem sobre onde nasce a linha do perfil do edifício e de como se encaixa na paisagem: "O terreno era estreito, cercado pelo mar e a solução aconteceu naturalmente, tendo como ponto de partida o apoio central inevitável. Dele, a arquitetura ocorreu espontânea como uma flor. A vista para o mar era belíssima e cabia aproveitá-la. E suspendi o edifício e sob ele o panorama se estendeu mais rico ainda. Defini então o perfil do museu. Uma linha que nasce do chão e sem interrupção cresce e se desdobra, sensual, até a cobertura. A forma do prédio, que sempre imaginei circular, se fixou e, no seu interior me detive apaixonado. À volta do museu criei uma galeria aberta para o mar, repetindo-a no segundo pavimento, como um mezanino debruçado sobre o grande salão de exposições".

Meu terceiro e último exemplo: o templo de Jupiter, em Pompéia. Não se pode saber exatamente como era originalmente, porém é certo que o templo, ainda hoje, no que restou de suas ruínas, e o Fórum, constituíam um conjunto arquitetônico extraordinário para quem adentrasse pela Rua Marina. Ainda hoje, as suas imponentes ruínas enquadram o temeroso Vesúvio ao fundo. Ouso dizer que talvez em ruínas, a arquitetura tenha adquirido um significado ainda maior emoldurando a figura de seu destruidor.

DSC_0083.jpg Imagem de Mariana Martins

Deve a arquitetura temer a Natureza? Certamente. Essa é a lição do terceiro exemplo. Ao mesmo tempo, acredito que a lição que permeia os três edifícios aqui citados é de que a composição do edifício é antes a composição da forma do ambiente construído, seja ele pela Natureza ou pelo homem. E que os dois devem parecer um só. A arquitetura deve ser o ambiente e não somente estar rodeado por ele.


Mariana Martins

Flanêur, escritora, observadora, mochileira, arquiteta-urbanista pela FAU USP. Paulista e Paulistana - com muito orgulho -, com um pezinho na cidade do Porto, Portugal de onde tem muitas saudades. Twitta no le_papillon_m..
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