risco

"Prefiro a poesia. Um risco, um rabisco. E, depois disso, a eternidade."

Mariana Martins

Flanêur, escritora, observadora, mochileira, arquiteta-urbanista pela FAU USP. Paulista e Paulistana - com muito orgulho -, com um pezinho na cidade do Porto, Portugal de onde tem muitas saudades. Twitta no le_papillon_m.

foi tudo um engano

ou: como a música popular foi confundida com música ruim e onde foram parar os músicos de verdade


Cultura popular não é tudo aquilo que a mídia empurra.

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Tenho me irritado profundamente com essa papa mal mastigada que supostamente temos que engolir de que a música brasileira estaria enfestada de "eu quero tchu, eu quero tcha" e "ai se eu te pego" porque isso sim seria uma manifestação representativa fiel da cultura popular brasileira.

Trata-se de um profundo desentendimento do termo "popular".

Não tenho nada contra o "ai se eu te pego" mas alguém vai lembrar dele em cinco anos?

Garota de Ipanema é cantada e tocada em todos os cantos do planeta há décadas porque aquilo sim era uma manifestação musical da cultura popular brasileira.

A MPB é e sempre foi reconhecida no mundo pela sua qualidade excepcional. Uma qualidade que não morreu. Tem uma moçada nova fazendo música brasileira excelente, com harmonia e letras incríveis. Ainda assim, pasmem, quase sem espaço nenhum na mídia!

Esse pessoal da nova da MPB tem um som excelente que merece ser divulgado. Estão aqui alguns deles:

5 a seco. Cantores mais famosos têm assassinado músicas desse conjunto. Cantadas por eles as músicas são, entretanto, impecáveis. Arranjos de cordas bem montados, vocais excelentes. A banda se destaca de tantas outras que têm se formado no cenário da mpb principalmente pelas letras.

A queridinha do momento, Maria Gadú, que a mídia não conseguiu segurar. Tentaram disfarçá-la de Cássia Eller. Não deu certo. A musicalidade e o estilo são todos dela. O mérito é todo dela. Não é um corte de cabelo e umas roupas com cara de menino que vão apagar o brilho com que ela canta. Além de tudo, mal estabeleceu seu próprio lugar, Maria Gadú já abriu caminho para vários outros músicos e compositores pouco conhecidos e de qualidade excelente.

Dani Black. Nessa versão maravilhosa de Aurora, Dani canta com Maria Gadu. Ex-integrante da banda 5 a seco, Dani Black está construindo uma carreira solo como compositor. Vale a pena ouvir.

Marcelo Jeneci.

Mariana Aydar.

Pitanga em pé de amora. Impressiona principalmente a qualidade e sofisticação dos arranjos desse grupo.

Mayra Andrade. Morou em Cabo Verde boa parte de sua vida e por isso tem um sotaque e uma influência da música africana inconfundíveis.

Capim Seco. Instigante, com arranjos surpreendentes.

Garotas Suecas. Eles começaram fazendo cover do Rolling Stones nos bares da Augusta. Com um som maduro e bem construído, hoje a banda paulista surpreende pela criatividade tanto na música quanto nos videoclipes.

Orquestra Brasileira de Música Jamaicana. Colocando um certo humor em composições antigas, tem um estilo descompromissado e divertido como as antigas marchinhas de carnaval.

Roberta Sá. Dona de uma voz inacreditavelmente afinada- e do próprio nariz -, já cantou até com Chico Buarque. Acompanhada de músicos fantásticos, tem impressionado e encantado a crítica.

Esse pessoal veio para provar que a cultura brasileira é uma fonte exuberante de inspiração e que dela sai a verdadeira manifestação popular digna desse título.

Música de qualidade está por aí, mas é preciso procurar. A divulgação é feita por outros meios: as redes sociais, sites como o Musicapavê e a Obvious, claro, dentre outros.

Não interessa à mídia divulgar música de qualidade. Embrutecer os ouvidos das pessoas e deseducá-las é melhor. Quanto mais se discute o ai se eu te pego, ou a novela, menos se enxerga o dinheiro mal-gasto nos estádios da Copa do Mundo e a falta de investimento em educação e cultura de verdade. E vejam a perversidade disso tudo: além de empurrar música de má qualidade, a mídia ainda faz com que se acredite que o lixo surgiu espontaneamente da cultura do povo brasileiro. Em tempos como esse em que vivemos, é preciso procurar a inspiração. Ela não vem até nós; nós é que temos que buscá-la.


Mariana Martins

Flanêur, escritora, observadora, mochileira, arquiteta-urbanista pela FAU USP. Paulista e Paulistana - com muito orgulho -, com um pezinho na cidade do Porto, Portugal de onde tem muitas saudades. Twitta no le_papillon_m..
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