risco

"Prefiro a poesia. Um risco, um rabisco. E, depois disso, a eternidade."

Mariana Martins

Flanêur, escritora, observadora, mochileira, arquiteta-urbanista pela FAU USP. Paulista e Paulistana - com muito orgulho -, com um pezinho na cidade do Porto, Portugal de onde tem muitas saudades. Twitta no le_papillon_m.

O feitiço do tempo

o fetiche da observação dos efeitos do tempo sobre as coisas


Gostaria de falar sobre o fascínio que se tem pelo passar do tempo. Não digo pelas mudanças causadas por ele, mas exatamente por ele; pela maneira como atua sobre todas as coisas, pelo material que se produz a partir dessa percepção de que tudo muda com o decorrer do tempo.

É grande o interesse do homem sobre esse assunto. Ora com olhos presos à força voraz com que age sobre a matéria, ora resignado e assustado com os efeitos que causa sobre o próprio homem e sobre o espaço que o circunda.

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Os meus primeiros cabelos brancos - não vou me esquecer - me deixaram irritada e nervosa. Julguei aquilo uma grande injustiça considerando-se a minha pouca idade e achei, como todo ser humano, uma afronta que o tempo estivesse também sobre mim. Exatamente. O tempo está sobre todos nós. E essa percepção é assustadora. É o entender que nos aproximamos de um fim; mais que isso, que existirá um fim, que antes talvez nos parecesse longínquo e improvável. Percebemos finalmente que somos da mesma matéria que a flor que murcha no vaso uma semana após ter sido apenas um botão.

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O fascínio pelos efeitos do tempo é, portanto, muito próximo do fascínio por entender a morte - ou por perceber os processos de renovação a que o meio se submete todas as vezes em que é desfeito e se faz em algo novo. Surge desse fascínio pelo morto, o fetiche pelo novo. O fetiche da renovação.

Em arquitetura, chamaria-se isso de tabula rasa: a vontade de criar o vazio para recriar o espaço. A tabula rasa é, portanto, o oposto da preservação. Mas como é possível perceber pelo caminhar do texto até esse momento, o desejo de renovar e o de destruir o antigo caminham paralelos ao desejo de preservar, analisar e até mesmo de fetichizar o antigo. Algo de certa forma irônico, porém verdadeiro. A preservação é, ao fim, uma necessidade intrínseca da renovação completa, porque dentro da lógica da destruição para a construção do novo, é preciso escolher o que preservar, o que não pode ser destruído por possuir um valor agregado histórico, funcional ou mesmo econômico.

É através de uma tentativa constante de entender a vida, ou o passar dela que muitas obras interessantes surgiram no campo das artes, da literatura, do cinema e mesmo da arquitetura. Fonte de inspiração para esse artigo, o texto recém-publicado na Obvious Imóvel intocado por 70 anos é reaberto, fala do apartamento intacto e tomado por pó da Sra. Marthe de Florian. Um testemunho da belle époque, de coisas que mudaram e outras nem tanto. Por que teria sua dona o deixado abandonado as traças, fechado e sem uso, é um mistério. A mim, apenas especulando, parece que ela quisesse deixar o apartamento como se faz um documento, para contar a história a quem o abrisse um dia, ou como quem faz uma foto em relevo.

Recentemente assisti Never Let Me Go. Confesso que não li o livro e nem quero ler. Fiquei tão chocada com o filme que não consegui dormir uma noite toda. E se eu já estava com essas ideias sobre o tempo formigando, não falar sobre o assunto tornou-se insuportável. Não foi a filmagem, a fotografia ou qualquer atuação do filme que me impressionaram. Mesmo a montagem do roteiro, pouco se destacou. O que ainda me deixa paralisada ao pensar no filme - para quem não assistiu, devo avisar que agora haverá spoillers -, não foram as vidas muito curtas dos personagens, ou mesmo a conclusão final da personagem principal, Kathy H, de que o restante das pessoas não tiveram uma vida tão diferente da sua. Não. O que me chocou foi a resignação dos personagens e a aceitação de todos a uma morte iminente, ou pior que isso, a uma vida destinada a acabar para salvar outra. O que as outras vidas tinham de mais importante que a daqueles personagens? E mais, se aqueles personagens tinham realmente alma, porque não se revoltam? Por que não fogem, desaparecem, se rebelam contra seus opressores? Por que aqueles personagens aceitam o fim de seus tempos de forma tão branda?

Nós aceitamos?

Aceitamos. No fim, chegamos à conclusão de que não há remédio. Do pó viemos e ao pó voltaremos. Uma frase tão velha que parece saída da boca do vento. Já a incorporamos. O que tiramos disso, são testemunhos, pistas, objetos que deixamos para trás numa tentativa de nos eternizarmos, de tornarmos o tempo um obstáculo transponível. Tal é a inteligência humana que conseguiu se sobrepor à morte. Não conseguiu evitá-la, mas sobrepôs-se ao esquecimento que seria seu maior pesar.

Outras obras interessantes, criadas sobre esse tema são certamente as réplicas arquitetônicas realizadas pelos românticos, dos quais pode-se citar facilmente a Basílica de Santa Luzia de Viana do Castelo, uma imitação, em escala muito diversa, da Sacre Coeur de Paris, mas com uma situação urbana muito próxima, situada num topo de colina, com uma vista fenomenal para a cidade a seus pés e com elementos arquitetônicos idênticos.

No campo da fotografia, alguns experimentos foram feitos com o envelhecimento humano. Um antigo conhecido é o das irmãs Brown. O fotógrafo, Nicolas Nixon fotografou as quatro irmãs ao longo de suas vidas diversas vezes. Por essas fotos há um relato de ruga a ruga de cada uma. Outros quatro amigos fizeram a mesma coisa. Repetem a mesma fotografia em pose idêntica de cinco em cinco anos. Sharbat Gula, a menina afegã fotografada por Steve Mccurry teria ficado eternizada no subconsciente de todos como a garota de olhos verdes vidrados e beleza rústica através da capa da National Geographic de 1985. Sua imagem mudou, entretanto, quando o fotógrafo resolveu procurá-la e fotografá-la novamente aos 29 anos, já castigada por uma idade que aparenta muito mais avançada; sua beleza, esvaneceu; o símbolo de sua imagem, permaneceu e sobreviveu ao passar do tempo.

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Já o envelhecimento do meio foi tratado com destreza pelos fotógrafos franceses Yves Marchand e Romain Meffre que resolveram retratar a ruína de Detroit. Eles entraram em edifícios abandonados e mostraram como o tempo pode se abater sobre as criações do homem.

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Voltando ao cinema, outro bom exemplo seria o recente longa de Woody Allen, Meia Noite em Paris. Seu personagem principal, um aficionado por tudo que é antigo, acaba transitando entre dois mundos, o de seu próprio tempo e o da década de 20. A Paris de Woody Allen não é exatamente a verdadeira Paris que se vê hoje. É uma abstração muito romântica de uma cidade que somente um filme tão plural como Paris, te amo é capaz de revelar. O filme de Woody Allen acaba por mostrar uma cidade velha da mesma forma que a Basílica de Santa Luzia copia a Sacre Coeur, ou da mesma maneira que os românticos pintavam ruínas, templos, coisas que sequer existiram, porém que continham um aspecto ancestral; talvez Woody tenha copiado um imaginário de Paris que não é verdadeiro, que nunca tenha sido.

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Imagino ainda se Os Sonhadores, de Bertolucci, não é também uma história sobre três jovens que querem negar a passagem do tempo e que, para isso, se prendem uns aos outros pairando num universo paralelo em que só eles existem. Não há mundo além deles.

Estamos em constante negação do tempo. O ressurgimento da popularidade das máquinas Lomo, os velhos discos de vinil que repentinamente resolveu-se ressuscitar junto ao toca-discos dos pais, o gosto pelo vintage, sebos e brechós, pelos livros que se cobriam de poeira na estante e que depois de abertos revelam cartas velhas ou a letra de uma música que ficaram esquecidas, marcando uma página. Tudo isso pode ser uma maneira de negar que o tempo passa, porque a sensação de reavivar as coisas faz delas um pouco menos submetidas ao tempo. Tiramo-las da condição de descartáveis e as tornamos memórias preservadas. Não é irônico? Negamos o tempo, mas nos apossamos de coisas antigas para fetichizá-las. Negamos a possível chegada do fim, mas abraçamos tudo aquilo que o testemunha.

obs.: o conceito de fetichização do patrimônio foi explorado por François Choay em diversos livros. Dentre eles, A Alegoria do Patrimônio.


Mariana Martins

Flanêur, escritora, observadora, mochileira, arquiteta-urbanista pela FAU USP. Paulista e Paulistana - com muito orgulho -, com um pezinho na cidade do Porto, Portugal de onde tem muitas saudades. Twitta no le_papillon_m..
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