Uma imagem muito marcante da minha infância, e acho que de todos que tem mais ou menos a minha idade e são brasileiros, é a morte do Senna. O piloto de fórmula 1 era certamente nosso ídolo. E ver tudo se acabar daquela forma foi inacreditável… uma curva, a falta de um freio, o fim sem bandeirada nem linha de chegada. Não sei se estávamos mais perplexos por ele não ganhar uma corrida - porque todas as corridas eram dele quando pilotava - , ou por termos que lidar com a morte; nós, os fãs de carteirinha, éramos muito pequenos - ao menos eu era. Nosso ídolo era invencível, nossos heróis eram imortais. Senna certamente sempre será, na mente de todos aqueles que não saíam da frente da televisão no domingo de manhã, o nosso herói. Domingo era dia de corrida. Se chovia então, já comemorávamos antes mesmo da largada.
Vejo os jornais inconformados com a "incompetência" de nossos atletas hoje; vejo outros defendendo seus feitos, dizendo que a infra-estrutura para o esporte está longe de ser ideal no Brasil e que por isso estamos fadados a essa condição de não termos mais ídolos. Que não haverá mais uma vez um Senna.
domingo era assim
Senna era um obstinado. Fazia o percurso da corrida a pé antes de fazer de carro. Conhecia cada autódromo como se fosse a própria palma da mão. Treinava infinitas vezes e morreu, provavelmente, porque não se conformou em não correr, mesmo sabendo que o carro estava com problemas. Nossos atletas de hoje são assim? Talvez não. Talvez não haja tanta obstinação e sacrifício por parte dos atletas. Porém, talvez também não houvesse tanta pressão sobre os ombros de Senna anos atrás. Se ele perdesse uma corrida, sabíamos que haveria outras. O público o amava independentemente do resultado final. O apoio era incondicional. Queríamos que ele ganhasse. Esperávamos que ele ganhasse. Não o obrigávamos a isso, no entanto.
Esta imposição ridícula de que é preciso ser perfeito sempre é absurda. Não se trata das condições precárias de treinamento de nossos atletas, nem da falta de apoio financeiro. É tudo isso também, porém há mais. Não estamos mais acostumados a torcer e sim a cobrar. Estamos cobrando por algo em que não investimos. E por quê? Apenas porque carecemos enormemente de um novo herói. Penso se não estamos fazendo isso também com os pequenos. Sim, com seus filhos há apoio incondicional e reconhecimento de seu esforço ou uma cobrança e uma obrigação? Você o faz levar absolutamente tudo a sério? Ele tem que ser o melhor em tudo? A vida é feita disso? De levar tudo a sério e de ser o melhor em tudo?
A nossa sociedade é extremamente competitiva. Essa cultura da competição e do "meu cavalo é melhor que o seu" não incentiva, ao contrário do que se possa pensar, o crescimento dos indivíduos. Incentiva, entretanto, duas posturas antagônicas, enquanto igualmente ruins: a dos inseguros, que nunca são os melhores em nada - e não precisam ser… ser bom não é o suficiente? Deveria ser. Esses, mesmo sendo bons, se acham péssimos. A segunda, dos que se acreditam superiores - os que foram tão mimados e incentivados a acreditarem que haviam feito um excelente trabalho sempre que não conseguem aceitar críticas e se julgam melhores que os outros, os que popularmente se acham "a última bolacha do pacote".
Onde entra o Senna e os nossos atletas nisso tudo?
Nunca vi Senna se desculpar por chegar em segundo lugar em uma corrida. Nunca vi a imprensa dizer que ele era um incompetente apenas por não vencer. Entretanto, vi a "derrota" estampada em todos os cadernos de esporte de jornais durante as olimpíadas, a imagem do atleta, contraditoriamente, era de uma medalha de prata ou de bronze no pescoço. Vi atletas pedindo perdão por seu erro. Como se devessem uma desculpa, uma explicação. Como se o Brasil fosse um pai desapontado.
a imagem da derrota? Diego Hypólito comemorando a medalha de ouro do mundial.
Estamos formando pessoas arrogantes ou inseguras. Nenhum desses dois gêneros de pessoa está apto à posição de herói.
Quem são meus heróis hoje?
São meus heróis os obstinados*. Os que lutam por um casamento por mais de dez anos; enfrentam três horas de transporte coletivo ou de trânsito até chegar ao trabalho; conseguem um diploma universitário de uma boa faculdade; lutam para serem os melhores em suas áreas de atuação; os que discordam do que todos concordam; os que não pretendem baixar a cabeça perante decisões impositivas; os que se levantam diante de uma injustiça; esses todos e também aquele pai de família, professor e designer gráfico de Israel que disse não ao seu próprio governo, que teve coragem para contrariar a toda a pressão e dizer "Eu te amo, Irã"; para isso e para muitas outras coisas, é preciso um certo grau de coragem e obstinação. É preciso vontade e amor nas coisas que se deseja, até que elas sejam de fato alcançáveis. É preciso acreditar em algo que, muitas vezes, ninguém acreditará. É preciso estar sozinho diante das dificuldades e, mesmo assim, seguir em frente; se imaginar vários passos adiante de sua atual posição e buscar o caminho que o levará a essa imagem. Se você se identifica com alguma dessas características, desde já, digo: você é meu herói.
chorei que nem criança que ralou o joelho, vendo isso
Todo aquele que inspira esses mesmos sentimentos em nós pode e deve ser chamado de herói. Se me perguntarem para que servem os heróis, ou por que precisamos deles, direi: para nos inspirarem. E quem são meus heróis? Aqueles que me inspiram a cometer atos heróicos.
* obstinado obs-ti-na-do : adj. e s. m.
Que ou aquele que se obstina, que não cede.
Teimoso, cabeçudo, pertinaz.
Que se faz ou executa com obstinação; que não se deixa vencer ou convencer; constante.adj.
Firme; teimoso; pertinaz. Feito com pertinácia, com insistência. Inflexível.
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Comentários
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Thalles
Meus parabéns pelo artigo Mariana, achei tudo que foi escrito muito certo. A verdade é que atualmente as pessoas procuram os hérois nos lugares errados, o ser humano se esquece de olhar pro lado ou para atrás a vezes.
Luz
Incrível mocinha! Muito bem escrito, sentido e transmitido. Parabéns triplamente, e obrigado pela inspiração :)
Lafayete
Meus parabens, Mariana! Adorei esse artigo. Senna sempre foi a minha inspiracao em tudo que faco na minha vida. Luto exatamente ha dez anos por manter o meu matrimonio vivo, por dar o melhor a duas filhas maravilhosas, viajo mundo afora para me manter no topo da minha profissao e muitas vezes, vejo amigos, conhecidos e familiares me questionando porque faco tudo isso sendo que poderia ter uma vida muito mais facil e feliz se abrisse mao de tudo isso. Mal sabem eles que a verdadeira felicidade 'e voce ser fiel aos seus ideais, cumprir os seus objetivos pessoais e profissionais de forma etica e competente e principalmente, ser fiel e apoiar quem realmente depende de voce e te apoia nos momentos mais dificeis e delicados.
ed
excelente análise.
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