Marco Aurélio

preguiçoso leitor de romances longos

sobre inícios e fins

Como Eduardo Coutinho trilhou o caminho oposto ao sobrenome do seu João Boa-Morte: um triste fim para uma brilhante carreira.


Perdi as contas de quantas vezes apaguei parágrafos deste texto. Como iniciar um blog literário? Blog literário? Essas perguntas são confinadoras de sentido. Se eu falar blog literário, terei de escrever sobre livros somente? Ora, e se eu quiser falar das cores do Almodóvar? Ou, ainda, da última música da Britney Spears? Ou dos acontecimentos dos últimos dois mil anos? Ora, melhor parar de apagar o que escrevo e riscar o sentido unicamente literário daqui.

E não. Hoje não é um bom dia pra se iniciar um blog. Aliás, hoje não é um bom dia para nada. Horas atrás, como se fosse um final de livro irritantemente difícil de compreender, uma notícia me fez desligar o disco da Madonna, retirar meus óculos do rosto e colocá-los entre lábios. Eduardo Coutinho fora assassinado.

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Dias desses, comprei o livro Eduardo Coutinho (Cosac Naify), organizado por Milton Ohata, que esmiúça a magnífica obra do alcunhado de o maior documentarista brasileiro. A série de artigos discutindo as suas infinitas visões sobre a sociedade e o cotidiano é apenas o complemento para a melhor parte do livro: a obra crítica de Coutinho. O seu olhar é apurado, direto, contido.

A coleção de textos escritos para o Jornal do Brasil entre os anos de 1973 e 1974 demonstra sua habilidade de refletir sem a pertubação ideológica do excesso de adjetivos e, ainda, de revelar a essência do objeto de análise: o cotidiano filmado. O cinema como uma necessária ferramenta social.

Com o livro ao lado, depois de observar as páginas do livro repletas de flags coloridos, olho suas fotos, seus dizeres e o que diziam sobre um homem extremamente sensível que soube como ninguém registrar o que o ser universal pensa sobre ser humanamente social.

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Em Edifício Master (2002), há um estudo tão profundo do local e da sua influência para os moradores do prédio carioca que deixa muitos calhamaços clássicos da literatura a ver navios. Em Cabra Marcado Para Morrer (1984), Ferreira Gullar narra a triste história do líder camponês João Pedro Teixeira, assassinado em 1962, enquanto Coutinho estrutura o seu olhar semidocumental para a vida e a importância que o protagonista deste filme teve para aqueles que conviveram com o Boa-Morte.

Seguindo um clichê difícil de desvencilhar, Eduardo Coutinho filmou a paixão pela sociedade. Retratou as escolhas que fazemos, os vizinhos que temos, as ações que praticamos, as músicas que escutamos e cantamos e o teatro que protagonizamos e assistimos. A vida para Coutinho não tinha maquiagem. E ele viveu. Viveu com o coração apaixonado. Sem limites. Sem disfarces. Descanse em paz, Eduardo Coutinho.

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"E assim se acaba uma parte/ da história de João/ A outra parte da história/ vai tendo continuação/ não neste palco de rua,/ mas no palco do sertão/ os personagens são muitos/ e muita a sua aflição." - Ferreira Gullar (In: João Boa-Morte)


Marco Aurélio

preguiçoso leitor de romances longos.
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