ruínas

Vestígios da Imagem e da Escrita

Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro.

A mulher e o lirismo de Chico Buarque

Ao longo desse breve escrito, busco analisar a construção de alguns arquétipos femininos na música do carioca Chico Buarque, destacando um pouco das ambivalências e complexidades que a figura da mulher possui na produção musical desse renomado compositor e músico.


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Assim como a produção intelectual de Chico Buarque, abrangendo desde suas composições até sua literatura, é diversificada e labiríntica, a temática da mulher em suas músicas é sinuosa e complexa. Em 1994, a gravadora Polygram lançou uma série de discos em homenagem ao artista divididos em Chico Buarque 50 anos: O amante; O cronista; O malandro; O político e O trovador. Aos interessados, recomendo que, caso queiram conhecer melhor a forma pela qual a mulher é representada nas composições de Chico Buarque, não se atenham apenas a escutar o disco O amante. Procurem elaborar outras analogias entre o tema do feminino em O amante e nas outras coletâneas, como O trovador e O político, por exemplo.

Em O amante, a música “Não sonho mais” pode servir como uma amostra da capacidade artística de Chico Buarque de mostrar ao ouvinte o mundo como se fosse percebido pela ótica de uma mulher. A protagonista de um horrível pesadelo, na qual seu companheiro é torturado por brutamontes, mortos-vivos e flagelados revela que diante de tal cena teve “vontade de gargalhar” e além de tudo: Ao pé da ribanceira acabou-se a liça E escarrei-te inteira a tua carniça E tinha justiça nesse escarrar. Te "rasgamo" a carcaça Descendo a ripa. "Viramo" as tripas, Comendo os "ovo", ai!, E aquele povo pôs-se a cantar.

Ao terminar a composição com um pedido de perdão ao companheiro por parte da protagonista desse devaneio onírico nada romântico e com pitadas de sadismo, temos, apesar de tudo, uma aposta lírica ainda no romantismo e no amor. É como se, para Chico, as frustrações e as mágoas dessa mulher que urgiram na sua relação são tão profundas que se projetaram em seu inconsciente. Porém, ao clamar pelo perdão do marido – e entenda-se aqui que o termo “perdão” possui forte implicações éticas, pois perdoar significa amar mais ao nosso oponente do que a si mesmo – existe nessa composição um sofisticado e subliminar otimismo em torno da capacidade humana de exercer a arte da compreensão.

Na música “Bastidores” temos uma incursão as amarguras sofridas por causa do término de uma relação por uma personagem que parece encarnar a figura de uma cantora melancólica de cabarés. É após tomar “um calmante, um excitante e um bocado de gim”, que a cantora sobe aos palcos e, mesmo certificando-se de “como é cruel cantar assim”, tem uma das suas mais aplaudidas performances. Em meio a essa verdadeira pintura musical, a protagonista da música revela ao ouvinte que jamais cantou “tão lindo assim / e os homens lá pedindo bis / bêbados e febris”. No final das contas, a capacidade da artista de comunicar sua dor por meio de uma apoteótica habilidade torna-se uma forma de sublimar e contornar a tristeza provocada pelo desatar dos laços amorosos.

A antítese da dona de casa ciumenta, de classe média baixa e devota aos afazeres domésticos de “Com açúcar, com afeto” é a prostituta libertina que protagoniza a música “Geni e o zepelim”. A citada música é ambientada em um universo urbano ficcional e provinciano no qual fervilham diversas práticas corruptas, viciosas e abjetas que, certamente, muito deve as descrições bíblicas de Sodoma e Gomorra. Geni é uma resignada prostituta que vivencia toda sorte de perseguições por causa dos preconceitos dirigidos a sua pessoa. Essas hostilidades são motivadas pela solene hipocrisia dos respeitáveis cidadãos da província em que mora. Hipocrisia porque os homens da cidade, de qualquer classe social e etária, procuram os favores sexuais de Geni para aplacarem sua luxúria e depois de satisfeitos a execram publicamente. Em meio a esse quadro desolador, um oficial militar em um imponente zepelin decide bombardear a cidade assumindo ares de um Deus onisciente e sanguinário. Ao encartar-se com a Geni, desiste de provocar seu apocalipse particular em troca de uma noite de prazeres com a errante cortesã. A questão é que Geni deixa bem claro que “ao deitar com homem tão nobre / Tão cheirando a brilho e a cobre / Preferia amar com os bichos”.

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Chico Buarque realiza uma denúncia eloquente ao nos colocar diante de uma prostituta dotada de mais altivez e princípios do que todos os habitantes desse micromundo fictício, porém verossilmente cruel. Somente para atender as súplicas dos seus outrora carrascos é que Geni cede aos cortejos do oficial. O mesmo, após sua noite de luxúria levanta voo no zepelim e segue seu rumo. No próximo instante, Geni passa a ser alvo das mesmas discriminações apesar de ter salvado a vida dos seus algozes.

A galeria das personagens femininas criadas por Chico Buarque é ampla e trabalhar em torno de uma análise mais detalhada ultrapassa os limites que a formatação de um breve texto informativo impõe. Se o leitor desse escrito sentir a necessidade de ouvir as composições desse artista para tirar suas próprias conclusões já me seria bastante compensador. O que é interessante perceber, para um bom começo de conversa, é o fato de que Chico Buarque domina uma forma de sensibilidade artística também muito presente na literatura: aquela sensibilidade graças a qual o escritor ou o compositor consegue calar suas convicções mais acirradas, e até mesmo sua masculinidade, para dar voz ao outro; a pluralidade e a alteridade.


Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro..
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