
Poucas imagens são tão enigmáticas e suscitaram tantas inquietações entre filósofos, historiadores e artistas quanto o quadro Angelus Novus, pintado em 1920 por Paul Klee. Basicamente, trata-se de uma pintura realizada com aquarela ácida e ponta seca de pincel. Após passar pelas mãos do famoso filósofo judeu-alemão Walter Benjamin, encontra-se, atualmente, no Museu de Israel em Jerusalém. Na época que deparou-se com o quadro, Benjamin vivia uma existência errante - morando em quartos infectos e baratos de pensões ordinárias - e melancólica, devido, em grande parte, por ter sido recusado como livre-docente da Universidade de Frankfurt, pois sua tese intitulada A origem do drama barroco alemão possuía sérias críticas aos padrões acadêmicos vigentes e também por ter sentido na pele a eclosão do sentimento anti-semita na Alemanha pré-nazista.
A questão é que talvez essa obra de Klee não tivesse alcançado tanto reconhecimento como uma das obras de arte mais significativas do começo do século XX se não tivesse fascinado tanto Walter Benjamin. O olhar alerta e furioso do anjo, suas asas abertas que nos lembram também garras afiadas e os dentes à mostra de modo que mais parecem presas, para Benjamin, configuram uma poderosa imagem da história. Os seus olhos enxergam a imensa série de massacres e catástrofes promovidas pela humanidade ao longo do passado. Impotente, ele não pode voltar para redimir os mortos e limpar essas ruínas sob as quais jazem incontáveis cadáveres. Um vento misterioso o arrasta em direção ao futuro. Através dos olhos de Angelus Novus, Walter Benjamin,na obra Magia e técnica, arte e política, viu uma poderosa imagem da história caracterizada pela mistura dos tempos e pela barbárie que existe por trás das conquistas da civilização europeia.
Em um ensaio intitulado "Benjamin y lo demoníaco", o filósofo italiano Giorgio Agamben ressaltou que essa leitura realizada do quadro de Paul Klee pelo pensador judeu-alemão comporta muitos elementos da cabala judaíca. O jovem Benjamin nutriu um vasto interesse pelos significados da mística judaíca ao ponto de construir uma sólida amizade com o teólogo judeu Gersom Scholem. De acordo com essa liturgia, os anjos também podem ser os portadores de características luciferinas. Podem ser hermafroditas, possuindo aspecto feminino e nome masculino. E nenhum anjo possuia garras afiadas e aspecto de fera quanto Satanás. Destituído das garras e das presas, essa mesma iconografia se torna uma representação de Eros de acordo com o imaginário europeu. Assim, Angelus Novus é o novo anjo, portador de uma mensagem de felicidade que nasce a partir da ruptura das tradições.
O quadro Angelus Novus soa, portanto, como uma crítica a um humanismo hipócrita, que em sua busca de tornar o homem a imagem e semelhança de Deus acabou legitimando inúmeros crimes. Esse anjo decaído pode ser o mensageiro de um humanismo mais autêntico porque é profano e profanador. A felicidade mundana, portanto, histórica, não seria incompatível com uma certa felicidade messiânica. Se essa imagem intrigante e múltipla possibilitou a um intelectual como Walter Benjamin romper com o positivismo, que transformou a escrita da história na mera coleta de fatos e datas, para criar um estilo próprio de pensar cientificamente a partir do delírio, da mística e do devaneio, precisamos dar mais atenção ao que esses olhos raivosos querem nos comunicar.
Comentários
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Kyprianos
I hope you didn't take my comment to mean that I see no bienfets to what you called a Wired life. Clearly there are bienfets. I typed my comments on a laptop, and I published them on a blog that occupies an infinitesimally small corner of the Internet so this is not exactly a rage against the machine. Although I sometimes play with the term, I'm not a Luddite. You'll notice that Jacobs, whose sentiments I echoed, is not one either. But I do believe that technologies are rarely unalloyed goods and that it is best to cultivate a critical distance between ourselves and our tools in order to judiciously implement them in a way that both acknowledges the bienfets and mitigates the losses. Much of what I write here is my own effort to think out loud as it were and in conversation with others about this kind of negotiated life. Many people much brighter and more thoughtful than myself, including some who have been intimately involved in bringing this wired world into existence recognize that there are trade offs and we do best to consider these and move forward with eyes wide open. Perhaps I misread, that is always possible, but your enthusiasm seemed encourage the collapse of the critical distance I'm advocating. So I suppose part of the sadness (I'm taking your first statement as a question) attaches to the sense of what is being lost in the momentous transitions we are undergoing. Do you think, I wonder, that nothing at all of significance will be lost as we emerge as the cyborgs you envision? What is more, I think there is a certain sadness in the realization that for people of a certain age, and I'm right on the borders of this group, there is not even the awareness of a loss. A whole epoch of human history, a whole phase in the development of human culture is being undone and replaced and there seems to be among some nary a notice, much less a wistful glance backward or an active effort of cultural conservation. Perhaps this is all because I am, in W. H. Auden's formulation, more of an Arcadian than a Utopian. In any case, I would just ask that you not imagine that I write as one who merely dismisses what I cannot appreciate. I'm actually taking the digital world quite seriously precisely because it is so powerful. I hope that makes some sense. I'm quite glad that you enjoy your life, that is no small thing. I'm not necessarily interested in criticizing anyone's life, I'm just trying to understand the world in which I live mine.
Ckristen Nasont
I do not even know how I ended up here, but I thought this post was good. I don't know who you are but certainly you are going to a famous blogger if you are not already Cheers!
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