ruínas

Vestígios da Imagem e da Escrita

Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro.

O legado de Angelus Novus

Angelus Novus é um quadro pintado pelo artista Paul Klee, em 1920. Essa imagem tornou-se, ao longo do século XX, fonte de inspiração para músicos, filósofos e escritores que manifestaram diversas inquietações frente aos múltiplos significados que essa obra de arte carrega. Esse texto tenta jogar mais lenha na fogueira dos incômodos que esse quadro provoca do que oferecer uma explicação para seu significado.


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Poucas imagens são tão enigmáticas e suscitaram tantas inquietações entre filósofos, historiadores e artistas quanto o quadro Angelus Novus, pintado em 1920 por Paul Klee. Basicamente, trata-se de uma pintura realizada com aquarela ácida e ponta seca de pincel. Após passar pelas mãos do famoso filósofo judeu-alemão Walter Benjamin, encontra-se, atualmente, no Museu de Israel em Jerusalém. Na época que deparou-se com o quadro, Benjamin vivia uma existência errante - morando em quartos infectos e baratos de pensões ordinárias - e melancólica, devido, em grande parte, por ter sido recusado como livre-docente da Universidade de Frankfurt, pois sua tese intitulada A origem do drama barroco alemão possuía sérias críticas aos padrões acadêmicos vigentes e também por ter sentido na pele a eclosão do sentimento anti-semita na Alemanha pré-nazista.

220px-Paul_Klee_1911.jpg Paul Klee (1879 - 1940)

A questão é que talvez essa obra de Klee não tivesse alcançado tanto reconhecimento como uma das obras de arte mais significativas do começo do século XX se não tivesse fascinado tanto Walter Benjamin. O olhar alerta e furioso do anjo, suas asas abertas que nos lembram também garras afiadas e os dentes à mostra de modo que mais parecem presas, para Benjamin, configuram uma poderosa imagem da história. Os seus olhos enxergam a imensa série de massacres e catástrofes promovidas pela humanidade ao longo do passado. Impotente, ele não pode voltar para redimir os mortos e limpar essas ruínas sob as quais jazem incontáveis cadáveres. Um vento misterioso o arrasta em direção ao futuro. Através dos olhos de Angelus Novus, Walter Benjamin,na obra Magia e técnica, arte e política, viu uma poderosa imagem da história caracterizada pela mistura dos tempos e pela barbárie que existe por trás das conquistas da civilização europeia.

Walter Benjamin_1.jpg Walter Benjamin (1892 - 1940)

Em um ensaio intitulado "Benjamin y lo demoníaco", o filósofo italiano Giorgio Agamben ressaltou que essa leitura realizada do quadro de Paul Klee pelo pensador judeu-alemão comporta muitos elementos da cabala judaíca. O jovem Benjamin nutriu um vasto interesse pelos significados da mística judaíca ao ponto de construir uma sólida amizade com o teólogo judeu Gersom Scholem. De acordo com essa liturgia, os anjos também podem ser os portadores de características luciferinas. Podem ser hermafroditas, possuindo aspecto feminino e nome masculino. E nenhum anjo possuia garras afiadas e aspecto de fera quanto Satanás. Destituído das garras e das presas, essa mesma iconografia se torna uma representação de Eros de acordo com o imaginário europeu. Assim, Angelus Novus é o novo anjo, portador de uma mensagem de felicidade que nasce a partir da ruptura das tradições.

O quadro Angelus Novus soa, portanto, como uma crítica a um humanismo hipócrita, que em sua busca de tornar o homem a imagem e semelhança de Deus acabou legitimando inúmeros crimes. Esse anjo decaído pode ser o mensageiro de um humanismo mais autêntico porque é profano e profanador. A felicidade mundana, portanto, histórica, não seria incompatível com uma certa felicidade messiânica. Se essa imagem intrigante e múltipla possibilitou a um intelectual como Walter Benjamin romper com o positivismo, que transformou a escrita da história na mera coleta de fatos e datas, para criar um estilo próprio de pensar cientificamente a partir do delírio, da mística e do devaneio, precisamos dar mais atenção ao que esses olhos raivosos querem nos comunicar.


Joachin Azevedo

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