ruínas

Vestígios da Imagem e da Escrita

Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro.

O mal: um desafio aos limites da razão

Qual o papel do conceito do mal ao longo da gestação da modernidade? Da interpretação das grandes catástrofes naturais, como o Terremoto de Lisboa, em 1755; até os horrores vivenciados pelos prisioneiros de Aushwitz e os impulsos contratuais que entrelaçam erotismo e morte, o mal é algo que desafia os limites da racionalidade.


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O que é o mal e de que modo esse conceito é uma peça fundamental para entendermos a configuração da modernidade? Na obra O mal no pensamento moderno, a filósofa estadunidense Susan Neiman elaborou uma instigante reflexão que tem como ponto de partida a seguinte afirmação: no século XVIII, na Europa, a palavra Lisboa era o sinônimo de uma catástrofe imensurável na qual um terremoto, ocorrido em 1755, dizimou milhares dos habitantes da capital portuguesa. O evento causou comoção não apenas em pensadores famosos como Voltaire e Rousseau, mas também em amplos setores das camadas populares. No contemporâneo, entre os ocidentais, é a palavra Aushwitz que parece condensar todos os limites da degradação da dignidade humana e da banalização do sofrimento, da dor e do horror que um "ser humano" pode infligir a outro.

Assim, em termos filosóficos, seja por meio de tragédias naturais ou da execução consciente de um ato criminoso da pior espécie, o mal reside no fato de que o mundo pode não conter nem justiça, nem significado e isso ameaça nossa capacidade tanto de agir no mundo quanto de entendê-lo. A exigência de que o mundo seja inteligível é uma exigência da razão prática e teórica. A primeira impressão é que a conexão entre um desastre natural e a transformação do assassinato em um processo burocrático e anônimo possui fragilidades morais. Porém, os juízos de valores emitidos pelos intelectuais sobre esses episódios fornecem o mote para que Susan Neiman pense na dimensão concreta do mal e sua ramificação na cultura letrada ocidental. É justamente nesse jogo entre aceitação e contestação; apologia e abominação do mal que está encravado na palavra impressa é que se pode encontrar uma relação direta entre essa temática e uma determinada cultura viva e vivida.

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Em uma conferência pronunciada na Faculdade de Teologia de Lausanne, em 1985, subordinada ao título O mal: um desafio à teologia e à filosofia, o filósofo francês Paul Ricoeur postula que, nas sociedades modernas, uma das principais causas do sofrimento físico e moral dos indivíduos é desencadeada pela “violência exercida sobre o homem pelo homem: em verdade, fazer o mal é sempre, de modo direto ou indireto, prejudicar outrem, logo, é fazê-lo sofrer”. A solução encontrada por Ricoeur para o impasse do mal está pautada na evocação da responsabilidade do meu agir em relação ao outro. Em face da constatação de que seja para os saberes instituídos, bem como para a cosmovisão judaico-cristã, é praticamente impossível compreender como a violência impregna o sofrimento, os supostos ditames divinos ou demoníacos do mal devem ser deixados de lado em nome de uma ação ética e politica contra o mal.

Assim como o mal, a escrita também transita em meio à zona de limite entre a vida e a morte. Em A literatura e o mal, o crítico de arte francês Georges Bataille discutiu como as imagens literárias que representam o horror seduzem o observador e o repelem ao mesmo tempo, por possuírem um teor que entrelaça o belo ao hediondo, o visível e o invisível. Essas fronteiras do visível, da razão, aparecerão nos temas literários sobre o heterogêneo, o erotismo e a experiência interior ao longo das obras de Bataille. A arte, segundo Bataille, se vale de uma poética do absurdo para construir um saber noturno que brota não das luzes, mas do ofuscamento e da cegueira. Isso ocorre quando o artista extingue sua presença; quando comete suicídio, para dar vida ao outro e a alteridade.

Georges Bataille.jpgGeorges Bataille (1897-1962)

E quando o mal é praticado de forma contratual, seja pelas instituições oficiais ou teatralizado pelas relações sexuais? O já desencantado e pessimista Freud, da fase madura, na excelente obra O mal-estar na cultura, salientou que todo a construção do mito de uma Europa plenamente higienizada, moralizada e civilizada visa esconder as muitas práticas de barbárie necessárias para a consolidação da hegemonia mundial da Europa no começo do século XX. Já em termos de sadismo e masoquismo, Freud postula que essas práticas condizem com um impulso voltado para uma espécie de morte simbólica do ego. É também um sintoma da civilização, motivo de recalque e vergonha para os adultos que agem como "as criancinhas que não gostam de ouvir falar da tendência inata do ser humano para o 'mal', para a agressão, para a destruição e, assim, também para a crueldade".

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O que pode servir como lenitivo, nesse caso, é o fato de que a consciência do mal, do trágico e as rondas constantes dos espectros da injustiça e da violência não é antipolítica. Ao passo que a ironia e o sarcasmo serviram a vários artistas como armas para questionar a validade da razão moderna, a estética militante é também uma coerente e atual aposta na ressignificação da relação entre o ser e o saber, bem como na transgressão do amesquinhamento dos valores humanos.


Joachin Azevedo

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