ruínas

Vestígios da Imagem e da Escrita

Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro.

Nos bastidores de "Ronda da noite"

Rembrandt realizava seus desenhos e pinturas com uma precisão cirúrgica. Para ele, ao imortalizar uma pessoa em um quadro o contexto que a cercava e seu cárater também deveriam ser transpostos para a tela. Talvez essa técnica de ler o mundo tenha inspirado o cineasta Peter Greenaway profundamente ao longo da produção do filme Ronda da Noite.


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Não pretendo aqui elaborar uma grande elucubração analítica do filme Ronda da noite (2007), dirigido pelo cineasta inglês Peter Greenaway. Trata-se mais de fornecer uma dica e, além de tudo, dada por um pseudo-cinéfilo. Considero bem interessante perceber como Greenaway retrata o cotidiano do pintor holandês Rembrandt (1606 - 1669), que foi um dos grandes mestres da pintura européia e um exímio dominador do emprego dos efeitos da sombra e da luz na pintura, bem com as tramas que envolveram a pintura do polêmico quadro Ronda da Noite.

O fascínio que as artes plásticas exercem sobre Greenaway já havia sido externado em The Draughtsman's Contract, de 1982, traduzido - horrivelmente - para o português como O contrato do amor. Dessa vez, o diretor inglês tratou sobre as relações entre arte e crime, partindo da ideia de que os locais onde ocorrem assassinatos exercem uma poderosa inspiração para escritores e artistas. Ao buscar decifrar o que o criminoso deseja ocultar dos olhos da Lei e seus representantes, o artista acaba colocando seus traços em diálogo com a dedução forense. Além disso, em o que prefiro nomear aqui como O contrato do desenhista , temos uma envolvente trama ambientanda no final do século XVII envolvendo outros temas como a ambição, personificada pelo artista, bem como uma abordagem sobre a sexualidade e a dominação.

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Voltando ao filme Ronda da Noite, Para Greenaway, por meio dessa pintura, que deveria representar um grupo de burgueses em poses heroícas, prontos para defender Amsterdã, Rembrandt realizou uma denúncia de assassinato. O crime teria sido cometido a mando da figura central do quadro. Então, por meio de pistas simbólicas, manifestadas de forma alegórica, como, por exemplo, a garotinha que aparece correndo em meio a tropa, que seria a filha bastarda do líder da milícia, o pintor holandês almejava colocar sob suspeita também a índole moral e ombridade dos soldados. Essa intenção é nítida nos traços afeminados de dois milicianos, a direita do quadro, que segundo Greenaway, eram enamorados e na forma desengonçada pela qual um dos soldados carrega seu mosquete, a esquerda.

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De Nachtwacht (1640 - 1642)

Rembrandt realizava seus desenhos e pinturas com uma precisão cirúrgica. Para ele, ao imortalizar uma pessoa em um quadro, o contexto que a cercava deveria ser também relevante. Por isso, o pintor holandês representava seus modelos de acordo com a personalidade que achava que eles possuíam. Daí justificar porque quase sempre pintava as pessoas com cara de idiotas. Baixinho, atarracado e de personalidade forte, além do profundo abalo emocional que sofreu com a morte de sua esposa, Saskia, Rembrandt teve de lidar com o ostracismo e a miséria após perder o prestígio e proteção dos mecenas com à realização do quadro Ronda da Noite. Mas para muitos historiadores da arte, esse fato também foi fomentado devido ao estilo de pintar do artista, que já estava perdendo espaço nos salões de arte.

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Peter Greenaway

Fica essa dica de filme. Ronda da noite não é para ser visto apenas por amantes da arte. A trama policialesca que envolve todo o filme, as representações do cotidiano conturbado, bem humorado e dramático do pintor e a atuação genial de Martin Freeman como Rembrandt possuem todos os elementos que um bom filme precisa. Pode ser que até mesmo para uma pessoa ainda não iniciada no universo da leitura das obras de arte, o filme Ronda da Noite sirva como estímulo para que o seu público busque realizar suas próprias interpretações sobre a pintura. Esse é um dos grandes méritos do filme de Greenaway.


Joachin Azevedo

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