
O regionalismo esteve em alta durante a consolidação do movimento estético que se convencionou chamar de Cinema Novo. A frente dessa tendência estava o baiano Glauber Rocha, comprometido com uma proposta de conciliar o processo de autoconstrução da arte com os bastidores de sua criação, que envolvem elementos como impulso, pulsão e também algo fundamental: a organização de um determinado saber sobre o mundo vivido. Na antologia de textos Revisão crítica do cinema brasileiro (2003), é o próprio Glauber Rocha que anuncia a infertilidade nos julgamentos dos críticos de arte que comparam o cinema nacional com o estadunidense ou europeu. Embora saliente que possuía várias influências internacionais, que transitavam entre nomes como o de André Bazin até Godard, Glauber Rocha (2003, p. 36) nivela o processo de criação cinematográfica com o artesanato: a originalidade dos bons diretores é alcançada quando “não estiverem submetidos à técnica mecânica dos estúdios, mas à procura que investe na técnica uma ambição expressiva”.
Essa digressão ao regionalismo protagonizado pelo Cinema Novo me parece adequada para tecer algumas considerações sobre o filme Gonzaga: de pai para filho, lançado em outubro de 2012, com direção de Breno Silveira e um brilhante roteiro escrito por Patrícia Andrade. O filme inicia-se retratando o choque entre distintas gerações e perspectivas de mundo a partir do encontro entre Luiz Gonzaga e seu filho, Gonzaguinha, no alto sertão pernambucano de Exu. Essa casa hoje é um memorial dedicado à trajetória artística desse grande mestre do cancioneiro popular.

A partir desse encontro entre pai e filho: dois artistas já consagrados, na década de 1980, mas portadores de uma série de ressentimentos, temos uma verdadeira imersão em uma atmosfera proustiana, na qual as conversas, discussões e contato com o semiárido, evocam memórias involuntárias, despertam a necessidade de catarse das mágoas de um Gonzaguinha (Alison Santos e Giancarlo di Tommaso) que se sentiu abandonado pelo pai e a busca por uma justificação, por parte de Gonzaga (Land Vieira e Chambinho do Acordeon), da sua ausência. A partir dessas memórias, temos um filme que dilui as fronteiras entre ficção e documentário para mostrar o Nordeste dos coronéis no começo do século XX; as poucas chances de mobilidade social que um garoto pobre possuía em uma sociedade marcada pelo patriarcalismo, bem como pelo racismo e que mostra como a atmosfera cosmopolita do Rio de Janeiro favoreceu a projeção de um homem que produziu, de forma intensa, simples e sincera, uma música que traduziu, em ritmos e lirismo, o imaginário popular dos sertões com seu vigor, tristezas, alegrias e rusticidade.

Discordo aqui da crítica superficial elaborada por Natália Bridi, que, ao enfatizar que o diretor Breno Silveira empacou na fórmula do filme 2 filhos de Francisco (2005), parece-me que foi a própria que acabou se viciando na interpretação que elaborou desse filme e projetou em Gonzaga: de pai para filho uma avaliação preguiçosa. Considerar que esse filme-documentário é uma mera história sobre desavenças familiares, xote, baião, xaxado e canções de protesto contra a ditadura militar é não conseguir alcançar o centro do filme. Gonzaga: de pai para filho coloca o espectador diante da trajetória de um homem que não foi apenas um músico: foi um tradutor cultural, que, apesar do sucesso, sempre cultivou a simplicidade como musa inspiradora e é uma aposta sofisticada no mútuo entendimento entre gerações distintas.

O filme de Breno Silveira também conseguiu atingir essa ambição expressiva – para voltarmos a Glauber Rocha – diluidora das fronteiras entre técnica e magia; que submete o tecnicismo aos domínios da criatividade. Ao mostrar como uma paisagem árida pode ser imensamente fértil em inventividade artística; em códigos sociais próprios; em palavreados singulares; em astúcias populares e em uma forma de dignidade, sobretudo, pautada no exercício da arte como uma forma de resistência, o diretor cativa e emociona o espectador. Gonzaga: de pai para filho conseguiu mostrar eficazmente como aquilo que muitos outros brasileiros gostam – canhestramente – de rebaixar culturalmente é, na verdade, imensamente elevado.
Comentários
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