ruínas

Vestígios da Imagem e da Escrita

Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro.

Possession (1981): estética da transgressão e do sofrimento

A pergunta que gostaria de engendrar inicialmente é: por que um filme, da década de 1980, engajado em representar o que pode existir de mais monstruoso no cotidiano de um casal pequeno-burguês ainda choca tanto as susceptibilidades alheias? A estética da transgressão presente em todo o desenvolvimento da película de Andrzej Zulawski possui uma ressonância psicanalítica profunda.


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Não gostaria de elaborar aqui um texto que me lançasse para o topo da fama virtual ou que fosse lido por centenas, quiçá milhares de leitores sedentos por uma fluída escrita ou que projetassem em meus textos a solução para a cura do hedonismo espiritual vago que tem assolado a vida de quase todo mundo nesses tempos. Dar-me-ei, sim, ao luxo de ser excêntrico por aqui. Ora, não me incomodam as tendências da normalopatia e muitos menos os ditames da última moda em Paris ou desses tarimbados tecnófilos. Gostaria de escrever, portanto, sobre o filme Possession, dirigido pelo polonês Andrzej Zulawski e lançado em 1981.

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A pergunta que gostaria de engendrar inicialmente é: por que um filme, da década de 1980, engajado em representar o que pode existir de mais monstruoso no cotidiano de um casal pequeno-burguês ainda choca tanto as susceptibilidades alheias? A estética da transgressão presente em todo o desenvolvimento da película de Andrzej Zulawski possui uma ressonância psicanalítica profunda. A arte desse diretor e do elenco de Possession consiste, justamente, em jogar – de forma magistral – com uma série de subjetividades psíquicas dos cinéfilos, muitas delas enraizadas nos recônditos mais obscuros de nosso inconsciente.

Possession retrata a vida conturbada de um casal formado por Mark (Sam Neill) e Anna (Isabelle Adjani). O filho do casal, Bob, desempenha, de acordo com minha leitura, um papel fundamental na complexidade do enredo do filme que gostaria de detalhar melhor mais adiante. Mark pede demissão do trabalho (de natureza desconhecida) frente a um grupo de burocratas misteriosos para poder dedicar todas as forças para salvar seu casamento em ruínas e cuidar do filho. A questão é que Anna não corresponde aos esforços do marido e passa, inclusive, a assumir o adultério e a ausência do lar como uma forma de afrontar seu marido. Ao saber, por meio da própria esposa e de sua melhor amiga, que Anna tem se encontrado regularmente com um amante chamado Heinrich (Heinz Bennent), Mark entra em surto psicótico e uma depressão profunda que dura 3 semanas. A sequência que retrata o ataque de epilepsia histérica de Mark, em um quarto de um hotel barato, é, sem dúvida, um dos pontos altos da atuação de Sam Neill.

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Já o perfil de Anna é um verdadeiro guia de acesso clínico para uma série de transtornos psíquicos. Pude identificar no comportamento da personagem traços de transtorno bipolar de personalidade, agravado pela sua necessidade de saciar-se sexualmente por meio do excesso ninfomaníaco e de cumprir com as obrigações que são impostas culturalmente a uma boa dona de casa; de paranoia, gerada por uma forma de narcisismo agressivo e de uma doença do caráter própria em pessoas que sentem um enorme prazer em se atormentarem. O psicanalista francês Jacques Lacan diria que esse é o caso daqueles que experimentam o fracasso, mesmo tendo triunfado. Ou seja: tendo um jovem marido e um belo filho, Anna não consegue decidir-se entre arcar com o divórcio e gozar de plena autonomia ou prosseguir mantendo as convenções sociais que regem um casamento falido.

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O segredo mais insólito de Anna não reside em sua tórrida relação erótica com Heinrich – que no final das contas, é um homem maduro, sensível, letrado, muito educado e bastante liberal – mas na vida dupla e masoquista que ela leva para manter relações sexuais com uma criatura monstruosa em um apartamento carcomido na área periférica da cidade. A obsessão de Anna em preservar seu amante grotesco dos detetives contratados por Mark e de Heinrich se transforma em um impulso homicida daquele que ocasiona crimes com requintes de crueldade. Mas é, nesse momento, que a atenção de Anna deve ser deslocada para o próprio Mark, que passa não só a coadunar com a perversidade da esposa, como também se mostra capaz de ser tão cruel, maniqueísta e psicótico quanto Anna. Sim, Mark abandona a breve relação com uma professora de primário que é o protótipo da mulher resignada e equilibrada – uma verdadeira antítese de Anna – para embarcar na realidade dantesca e esquizofrênica da esposa.

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No final das contas, o discurso de Mark que sinaliza para a ideia de que vale a pena se submeter a todos os tipos de situações humilhantes, perturbadoras e violentas encenadas por Anna em nome do filho do casal não passa de uma desculpa egoísta e confusa. A sensação é que o próprio Bob não passe de uma memória, de um símbolo, que precisa ser esquecido, afogado ou rejeitado para o surgimento de algo novo nessa trama cinematográfica. Anna sofre porque os padrões das normas sociais, das identidades e dos valores culturais que regem a “boa sociedade” não a permitem vivenciar a sexualidade como um excesso irracional. E a aparente vítima desses excessos, Mark, mostra o quanto essas fronteiras entre a normalidade e o patológico podem ser borradas facilmente, bem como sob a pecha de vítima podemos encontrar os mais cruéis verdugos. Parece que o grande choque causado pelo filme de Andrzej Zulawski reside na sua maneira transgressora de mostrar – de uma forma bem lacaniana – como a realidade é muito mais monstruosa do que a violência e o sofrimento ficcional.

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Andrzej Zulawski

Joachin Azevedo

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