ruínas

Vestígios da Imagem e da Escrita

Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro.

Literatura e utopia na obra de Roa Bastos


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Augusto Roa Bastos foi um escritor paraguaio, natural de Asunción. Tendo participado da chamada Guerra del Chaco, entre 1932 até 1935, com apenas 15 anos de idade, produziu uma escrita marcada pelo signo do exílio em plena era do autoritarismo, na América Latina. Perseguido pelo governo paraguaio, buscou refúgio na Argentina em 1947. Porém, devido a outra ditadura, é obrigado a peregrinar para a França, país onde passa a sobreviver dando aulas de literatura hispano-americana.

Embora sua cidadania paraguaia tenha sido caçada pelo governo, obteve o título de cidadão honorário concedido pela Espanha. Apesar de sua produção ficcional ser pouco conhecida entre os brasileiros, a obra de Roa Bastos encontra-se traduzida em mais de 25 idiomas e o autor foi contemplado em vários concursos literários, chegando a ganhar o Prêmio Miguel de Cervantes em 1989.

Em se tratando de um episódio dramático e violento como a Guerra do Paraguai, no século XIX e a Guerra do Chaco, na década de 30 do século passado, cujo saldo foi de 60 mil bolivianos e 30 mil paraguaios mortos, podemos perceber que a linguagem literária de Roa Bastos codifica e fornece aos leitores um testemunho da dor e do trauma. Em suma, a arte de Roa Bastos consiste em comunicar tudo aquilo que testa e desafia os limites da razão. È nesse instante que um questionamento antigo, porém repleto de insídias políticas e morais atuais parece se impor aos filósofos, historiadores e estudiosos das artes: a memória das catástrofes que ocorreram, de acordo com os anseios dos herdeiros do colonialismo e do imperialismo, parece funcionar como um remédio para cicatrizar algumas feridas que ainda estão abertas na história da América Latina.

A Guerra do Chaco (1932-1935) é o mote necessário para que haja uma verdadeira explosão imagética e discursiva comunicada por meio do romance Hijo de hombre (1972), de Roa Bastos, pela película argentina Chóferes Del Chaco, que contou com a colaboração do citado escritor e o recente filme Hamaca Paraguaia (2006). Porém, enquanto a linguagem cinematográfica, sobre os conflitos do Paraguai, parece estar comprometida em evidenciar a face trágica escondida por trás de toda associação demasiadamente romântica entre o bélico e o belo, a literatura de Roa Bastos – apesar de configurada sob o jugo do exílio e da diáspora – é portadora de poderosas imagens utópicas.

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O centro dos romances como Hijo de hombre (1972), Yo el supremo (1976) e das falas de Roa Bastos sobre a necessidade de romper com a perspectiva elitista, que transforma o artesanato literário em uma espécie de culto ao dicionário, percebida em suas críticas ao escritor e diplomata Carlos Fuentes possuem implicações éticas profundas. Aqui, essa escrita engajada da ficção é capaz de operacionalizar um verdadeiro ato de sepultamento, revestindo os mortos de uma dignidade e importância que lhes foram retiradas em vida, violentamente, pelas convenções políticas e bélicas por meio das quais se preserva o poder e a memória oficial das elites.

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Se a reflexão sobre as identidades guaranis e as misturas híbridas entre a cultura do colonizador e a dos herdeiros do colonialismo dilui as fronteiras entre literatura e filosofia ao longo da produção intelectual de Roa Bastos, os posicionamentos políticos e morais dos seus personagens e do narrador colocam em cena o tema da utopia enquanto uma experiência estética pautada na resistência. Por meio da imaginação, qualquer pessoa pode perambular em um mundo diferente do nosso. Por exemplo, um mundo no qual as pessoas estariam mais preocupadas com a saúde mental dos indivíduos, do que com a sua saúde física.

Esse jogo é ficcional, mas também entrelaça firmemente os vínculos entre estética e política. Ao tomar um distanciamento crítico das convenções sociais e dos preconceitos morais dominantes, a utopia configura um mundo dialético: ao mesmo tempo fantástico, porém cruelmente verossímil. O escritor-filósofo que elabora uma utopia coloca diante dos olhos dos seus leitores diferentes formas de pensar, de viver em comunidade, crítica os preconceitos e o autoritarismo da história oficial. Os leitores precisam aprender algo com essa ironia. Se existem esqueletos duros que estão envoltos por feixes de músculos, carne e pele, então, como nos ensina Roa Bastos, em El fiscal, a verdade só é verdade quando permance oculta. Enquanto narrador, esse autor paraguaio, que viveu grande parte de sua trajetória desterrado, não construiu uma ficção sobre a monstruosidade gélida da guerra. Roa Bastos esboçou que a memória militar oficial – ao anexar como glória estatal o que foi um imenso fracasso da condição humana – torna-se mais monstruosa do que a barbárie vivida nos fronts.

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Os escritos de Roa Bastos amalgamam, em suas formas e conteúdos, a hibridez vívida e plural do matiz guarani. Mas também possuem uma mensagem melancólica, na medida em que podem ser lidos como imagens ficcionais de uma tragédia real que ceifou a vida de milhares de indíviduos. Vidas tragadas pela máquina bélica que funcionava de acordo com a régua e o compasso dos autoritarismos nacionalistas e imperialistas que caracterizaram, igualmente, os governos do Paraguai e da Tríplice Aliança. Se a história oficial é legitimada pelos discursos que estabelecem a lei e a ordem, Roa Bastos compôs uma literatura na qual o silêncio é usado para não reproduzir esses valores dominantes. É preciso pois que historiadores, críticos literários e leitores busquem decifrar os espaços em branco de um texto. Eles podem ter tanta importância quanto aquilo que foi tornado explícito por meio do enredo de um romance. Uma lição estética, mas também politicamente valiosa nesses tempos nos quais o inimigo - o pensamento fascista e intolerante - não cessa de ganhar terreno.


Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro..
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