ruínas

Vestígios da Imagem e da Escrita

Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro.

Proust e a educação dos sentidos


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Marcel Proust nasceu em Auteuil, no ano de 1871 e faleceu em Paris, em 1922. Enquanto homem de letras, a trajetória biográfica desse escritor francês é marcada pelo afinco com o qual dedicou-se a escrita da monumental obra À la recherche du temps perdu (Em Busca do Tempo Perdido), tornada pública entre 1913 e 1927 em pequenas edições. A dedicação de Proust ao ofício de escritor rendeu-lhe tanto sua precoce causa mortis, oriunda de uma infecção pulmonar mal cuidada, bem como a imagem pública de um artista excêntrico e adepto de um estilo de vida eraciné, quer dizer: errante. De origem social abastada, Proust frequentou os salões da alta sociedade parisiense, estudou na École Libre des Sciences Politiques e foi aluno de Henri Bergson (1859-1941), na Sorbonne, cujo estudo intitulado Matéria e memória até hoje é uma referência obrigatória para que se interessa em tentar entender as relações entre o físico e o mental; a realidade e o pensamento.

Seria possível um reencontro com nossa própria infância perdida e esquecida? São infinitas as possibilidades de interpretação para os textos de Proust e irei elencar e comentar por aqui aqueles que considero mais relevantes. Por exemplo, o historiador italiano Carlo Ginzburg, na obra Olhos de madeira: nove reflexões sobre a distância, tece algumas considerações magistrais sobre o papel do estranhamento ao longo dos três volumes de Em busca do tempo perdido. Segundo o autor, desde a Antiguidade, com o romano Marco Aurélio, até o século XIX, com Proust, Tolstoi ou Dostoiévski, consolidou-se uma tradição literária que está embasada na transfiguração do olhar do literato para o de um animal ou de uma criança. Assim, valendo-se desse recurso estético, os escritores puderam se valer de um tom jocoso ou de uma composição narrativa aparentemente absurda para denunciar algumas injustiças que sempre permearam as relações entre abastados e populares, bem como a barbárie que alicerça os ditames e preconceitos do mundo dito civilizado.

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Já o filósofo francês Paul Ricoeur dedicou um capítulo inteiro na sua densa discussão em Tempo e narrativa para compreender os jogos com o tempo elaborados por Proust. As reflexões de Ricoeur sobre Em busca do tempo perdido estão inseridas em uma outra de aspecto mais amplo, que condiz com a principal tese levantada por este estudioso da linguagem: basicamente, para Ricoeur, a ficção conserva uma relação íntima para com o mundo prático e vivido, bem como descobre e cria outros mundos. Em síntese, o tempo da linguagem ou criado pela arte não pode ser arbitrariamente separado do tempo vivido. Sendo assim, Proust jogou com o tempo nos romances que compõem a trilogia Em busca do tempo perdido valendo-se de uma técnica que encaixava, no enredo, variações anacrônicas do tempo. Essa forma de configurar a narrativa construiu uma sensação de que o tempo vivido e perdido pode ser reencontrado e narrado.

Em O castelo de Axel, publicado em 1931, o crítico estadunidense Edmund Wilson destacou os temas da literatura simbolista que estão presentes na trilogia de Proust. Assim, a melancolia, o perfil psicológico dos personagens, os comportamentos obsessivos, os lugares e as emoções conflitantes narradas por Proust constituem a face decadentista de Em busca do tempo perdido. O próprio Proust, segundo Wilson, era um verdadeiro obcecado pela projeção de uma imagem pessoal que correspondesse com aquela do gênio incompreendido, tão conhecida entre aqueles que gostam de artes em geral. Muitas vezes, quando saia do seu isolamento, Proust aparecia nos salões parisienses com aspecto doentio e desleixado. Outro ponto importante para Wilson é a ascendência judaica do escritor, que, com certeza, merece ser ressaltada.

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O brilhante filósofo Walter Benjamin teceu uma breve, porém profunda, reflexão sobre Proust na obra Magia e técnica, arte e política. No ensaio "A imagem de Proust", Benjamin refere-se ao escritor francês como um artista que conseguiu dominar a árdua técnica do uso das metáforas na composição de um texto literário. Metáfora e ironia se mesclam, em Proust, para fundamentarem uma severa crítica aos valores ostentados pela burguesia parisiense do final do século XIX. Por último, Gilles Deleuze, em Proust e os signos, nos convida a abandonar a convicção de que a memória é o principal elemento que fundamenta a unidade dos 3 volumes de À la recherche du temps perdu. Para esse filósofo pós-estruturalista, o tema da memória, para Proust, é apenas uma faceta da história de um aprendizado que integra a difícil arte de dominar os signos que fazem parte da linguagem.

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Desde o literato que jogou com os tempos por meio de sua narrativa até aquele que se dedicou a tarefa de decifrar os signos que fazem parte dos comportamentos, condutas, ações e pensamentos da sociedade europeia moderna, Proust continua dotado de uma imensa atualidade e sua escrita, assim como suas interpretações do mundo e das lembranças, é aberta, plural e multifacetada. Resta ao leitor assimilar as lições desses grandes pensadores do século XX citados aqui e elaborar, ele próprio, uma íntima leitura desse clássico da literatura ocidental. Assim, quem sabe, ao ler Em busca do tempo perdido , esse mesmo leitor possa ressignificar sua própria concepção de infância, tempo e de educação dos sentidos.


Joachin Azevedo

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