ruínas

Vestígios da Imagem e da Escrita

Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro.

A utopia do Marquês de Sade

O Marquês de Sade ficou para a posteridade, principalmente, a partir da década de 1960, como o mais maldito e criminoso dos escritores modernos ou como o mais divino, como taxaram os surrealistas. Esse breve texto busca sondar alguns nuances do seu pensamento político, externado de forma mais explícita após o autor presenciar a derrocada do Ancien Régime e ter declarado sua adesão ao republicanismo por meio do libelo "Franceses, mais um esforço se quiserdes ser republicanos".


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A França do século XVIII foi um verdadeiro celeiro para a produção da chamada "baixa literatura". O índex de livros proibidos pela polícia do Antigo Regime colocava lado a lado obras como a Enciclopédie, composta por 33 volumes e de autoria de Denis Diderot e Jean d´Alembert, bem como narrativas que expunham a aristocracia e as autoridades clericais em situações sexuais escandalosas como O menino do bordel, de Pigault-Lebron ou Thèrése philosophe, cuja autoria é atribuída a Montigny ou D´Argens. Nos depósitos da Bastilha, as autoridades confiscavam e armazenavam lado a lado textos pornográficos e clássicos do iluminismo. O fato é que para os juízes e censores do Ancien Régime não existia uma diferença muito grande entre o conteúdo de livros eróticos e filosóficos, pois ambas categorias eram taxadas de "literatura filosófica".

Nesses termos, o Marquês de Sade não foi um pioneiro nem ao elaborar uma espécie de pedagogia libertina ou assumir um ateísmo militante. Principalmente a partir da década de 1770, a França foi invadida por uma leva de livros proibidos que penetravam no país através da fronteira com a Suíça. A Sociedade Tipográfica de Neuchâtel (STN) recorria ao suborno e outras táticas para atender a alta demanda dos livreiros e leitores franceses, ávidos para consumirem obras ilegais. Tratados filosóficos, panfletos políticos e crônicas pornográficas ridicularizavam a monarquia e seus pilares, fazendo uso do escárnio, da zombaria, do ateísmo e da exaltação dos instintos humanos lúbricos. Centenas de chamados "mendigos da pena" ou "Rousseaus de sarjeta" imprimiram em seus textos um estilo iconoclasta. Em Edição e sedição: o universo da literatura clandestina no século XVIII , o historiador estadounidense Robert Darnton sugere que as autoridades não entregavam esses escritores ao carrasco porque isso poderia atiçar mais ainda a curiosidade dos leitores e, muitas vezes, "os magistrados (...) mandam queimar apenas volumes falsos, preferindo conservar os originais para seu próprio deleite" (p. 15). Talvez, justamente, por ter atravessado tanto o absolutismo, bem como a República, atrás das grades, sendo acusado de ser um nobre enlouquecido e obsceno, é que o Marquês de Sade foi mitificado, no século XX, como o principal representante dessa literatura que aborda tudo o que entendemos como ilícito, interdito e tabu.

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Teria o Marquês de Sade organizado um sistema político coerente com sua filosofia lúbrica e com os ideais republicanos de liberdade, igualdade e fraternidade? Em 2009, a Editora Imaginário lançou o panfleto sadiano Franceses, mais um esforço se quiserdes ser republicanos. Nesse texto, fruto de um discurso pronunciado pelo autor no parlamento francês em plena efervescência do liberalismo, a burocratização da democracia representativa – mecanismo que serve para distanciar as demandas populares das decisões tomadas pelos políticos – era percebido como algo tão nocivo quanto o Absolutismo para Sade. Como criar leis sem estabelecer tiranias? Sade buscará resolver essa aporia em nome de uma França verdadeiramente “livre”.

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A utopia sadiana, expressa em Franceses, mais um esforço.... consiste em uma sociedade livre do que o escritor denomina de “terror religioso” (p. 37). Ao configurar essa visão política para a construção de uma França repleta de força e pureza, logo o escritor se contradiz em relação à sua proposta inicial de não almejar estender seu projeto além de sua nação. Os cidadãos franceses, libertos dos dogmas católicos, estabeleceriam “a lei do Universo” (p. 37). O que é considerado crime no limiar da modernidade: calúnia, roubo, impureza e assassinato. Sade engendra o argumento de que se uma pessoa é vítima de um crime, ela é vítima de sua própria negligência e não do criminoso. Ao discorrer sobre uma sociedade na qual os libertinos gozariam de plena liberdade para sodomizarem às mulheres, inclusive as mais jovens, Sade cria uma aporia: deseja uma sociedade livre da tirania, mas quer estabelecer punições para quem se recusar a se submeter ao seu autoritarismo sexual.

Esse posicionamento precisa ser lido como uma denúncia e não levado ao pé da letra. Sade esboçou a ideia de que se todas as pessoas possuem desejos libertinos, por que mascarar isso por meio das convenções sociais? Ao falar sobre os cuidados que essa comunidade de libertinos teria com os filhos gerados entre uma orgia e outra, Sade quer dizer que o individualismo excessivo e a ideia de posse sobre um ser humano não condiz com os princípios republicanos. A morte, para Sade, é necessária para a perpetuação da vida. Os assassinos seriam pessoas à serviço da natureza. Então, por que se coloca no começo do panfleto contra o horror e o crime? Sade possuía um ideário político dilacerado entre vertentes humanistas próprias do século XVIII e uma necessidade pessoal de transgredir o discurso racionalista e cristão.

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