ruínas

Vestígios da Imagem e da Escrita

Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro.

O desencanto republicano

É fundamental compreender que a atual leva de insatisfação popular contra os governantes está inserida em uma trama histórica de longa duração. O momento requer análises que podem ser até taxadas de pseudo-eruditas pelos mais apostáticos, mas que são, sem dúvidas, bem mais pertinentes do que chiliques de garotinhos de classe média, histeria conspiratória e onanismo gramatical pseudo-aristocrata.



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Em meio ao turbulento contexto atual, amplos segmentos da sociedade brasileira estão nas ruas levantando bandeiras das mais variadas causas. Educação, saúde, segurança, lisura nos serviços públicos: em linhas gerais, esses debates estão intimamente ligados com a concepção moderna e republicana do conceito de cidadania. Não quero me ater ao aborrecido jogo de espelhos, que simplifica a complexidade desse momento político, girando em torno de uma querela jurídica baseada na necessidade canhestra de se atribuir uma sentença de culpado para a "direita" ou para a "esquerda". Creio que o panorama atual é de uma perturbação na crença, talvez sem precedentes na história brasileira, não em bandeiras partidárias reacionárias ou populistas, mas na própria democracia como um todo e em seus símbolos.

Como historiador, dirijo o olhar para o passado para tentar melhor compreender o presente. Somos um país relativamente jovem e que teve sua democracia decretada, ironicamente, por meio de um golpe militar em 1889. Houve um momento de euforia entre intelectuais liberais e abolicionistas como Joaquim Nabuco, Quintino Bocaiúva e Silva Jardim, que atuaram como propagandistas, na imprensa da época, do novo regime e atacaram ferozmente os pilares que sustentavam a nossa monarquia. Considero a trajetória intelectual do advogado e jornalista Silva Jardim (1860-1891) uma boa amostra do mal-estar que se projetou entre esses vultos históricos após os desfechos da transição do Império para a República. A retórica afiada em nome da democracia e do republicanismo, de Silva Jardim, vai sendo substituída gradativamente por uma tônica saudosista, desiludida e até mesmo aristocrática.

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Como explicar essa reviravolta nas ideias de um indivíduo? O fato é que existiu, entre vários ativistas políticos do começo do século XX, uma consciência muito lúcida de que a República estava devorando impiedosamente os seus defensores mais idealistas. No caso do Brasil, nossa entrada na modernidade foi marcada pela derrota do projeto igualitário que acompanha a noção de república e a emergência de um modelo que conciliou a face mais nefasta do paternalismo com uma concepção esvaziada de democracia. O desencanto foi uma resposta diante da república dos arrivistas e da opressão militar, como demonstram os episódios de Canudos e do Contestado. A imprensa canalizou muitas dessas polêmicas, na época. A charge que ilustra esse texto diz respeito à atuação truculenta do prefeito Barata Ribeiro, que decretou, em 1893, a demolição do cortiço mais conhecido da cidade do Rio de Janeiro: o Cabeça de Porco.

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Nesses conjuntos de moradias populares se aglomeravam, em pequenos cubículos, famílias inteiras de trabalhadores, vivendo na mais completa promiscuidade e precariedade, além de pequenos vigaristas, prevaricadores, marinheiros e mulheres consideradas infames. Essas pessoas foram alvo de ações governamentais ao longo de toda a Primeira República. As equipes de demolições, principalmente do prefeito Pereira Passos (1836-1913), varreram da paisagem do centro carioca os cortiços e os chamados "zungas" da época. Os habitantes desses locais fugiram com o que puderam carregar entre as mãos, como madeira, folhas de zinco e latões de querosene e se refugiaram nos morros, originando, assim, as primeiras favelas. Quer dizer, a república brasileira nasce de um anseio das novas elites administrativas, formadas por médicos, engenheiros e militares, de modernizar o país - afastando os pobres das áreas nobres das principais urbes brasileiras - mas sem um projeto de inclusão social para esse contingente humano.

Em 1904, com as epidemias de febre amarela assolando o Rio de Janeiro, a então Capital Federal, um novo motim popular eclodiu nas ruas da cidade. Dessa vez, uma ampla leva de segmentos da sociedade revoltou-se contra a ação das equipes sanitaristas do médico Oswaldo Cruz. O fato é que a campanha da vacina obrigatória foi imposta de cima para baixo, sem maiores esclarecimentos perante o grosso da população. São vários os registros também de abuso de poder dos chamados "mata-mosquitos" que possuíam poder de polícia e do comportamento moral duvidoso dos enfermeiros que aplicavam as vacinas. O estopim da revolta explodiu de vez quando espalhou-se a notícia de que uma mulher havia morrido de infecção após receber a vacina contra a varíola. A população, enfurecida, virou os bondes, ergueu barricadas e enfrentou a polícia por 6 dias até ser esmagada pelas tropas do governo. Centenas de pessoas foram presas, surradas e enviadas, sumariamente, para o Acre; morrendo bem longe do palco desse acontecimento.

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Saindo da República dos Oligarcas, o Brasil entra na maré do Estado Novo, na qual o "gigante" flertou descaradamente com o fascismo. Após a dramática saída do ditador Getúlio Vargas de cena, o país embarca na onda do desenvolvimentismo que significou o endividamento compulsório da nação perante o capital estrangeiro. Quando o eco das reivindicações populares começam a incomodar os ouvidos delicados de nossas elites e das classes médias, com as bençãos do Tio Sam, entramos nos chamados Anos de Chumbo da Ditadura Militar. Sobre a cenografia que acompanhou a abertura política do país para a democracia, na década de 1980, existe uma ampla bibliografia.

O fato é que quero dizer que não tivemos ainda uma experiência democrática efetiva, plena, nesse país. Convivemos, de forma sempre contraditória, com todas as vantagens que a técnica pode ocasionar para a vida das pessoas e, ao mesmo tempo, com os resquícios mais concretos e arcaicos do autoritarismo militar e do clientelismo. De modo geral, habitamos um simulacro da democracia. Parece unanimidade, e nem toda ela é burra, entre os manifestantes, de que onde tem corrupção não existe democracia. Seguindo uma equação perversa, o poder oficial tupiniquim e suas instituições parecem marginalizar o cidadão e transformar o criminoso em cidadão. Nesse sentido, os "vândalos e baderneiros" - termo usado pela imprensa contra quem se recusa a protestar como cordeiros pacíficos - estão dando uma amostra preciosa de civismo e como nunca se viu por essas bandas.

Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro..
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