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Vestígios da Imagem e da Escrita

Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro.

Orpheu: o grupo literário de Fernando Pessoa

Em uma época na qual os livros eram artigos de luxo, as revistas e jornais literários representavam uma alternativa mais econômica para os leitores portugueses. Também era função desses impressos informar o público sobre as tendências dos grupos de artistas e intelectuais que, geralmente, nasciam nos cafés de Lisboa ou outras cidades. A revista "Orpheu" é bastante significativa, nesse sentido, e essencial para que o poeta Fernando Pessoa pudesse divulgar sua produção literária.



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Há 125 anos atrás, em 1888, nascia Fernando Pessoa: o mais conhecido e aclamado poeta lusófono modernista. A maioria dos estudos de história da literatura portuguesa coloca a geração de Orpheu - periódico que reuniu um consistente grupo intelectual que contava com, além de Pessoa, nomes como Sá-Carneiro, Almada Negreiros e artistas plásticos como Souza Cardoso e Santa Rita Pintor – em merecida evidência. Certamente, esse período será alvo de comemorações e homenagens por parte de críticos de arte e o mercado editorial irá buscar estimular a leitura da escrita e das memórias sobre os integrantes dessa vanguarda. As principais revistas dessa geração a qual Fernando Pessoa pertenceu foram Orpheu, A Presença e Cadernos de Poesia. A atuação desses escritores nas revistas permanece ofuscada porque os mesmos acabaram sendo mais reconhecidos por causa de suas obras individuais.

Como é peculiar a toda vanguarda, o principal lema da geração Orpheu era não olhar para trás e se concentrar no caminho adiante, no futuro. As metáforas imagéticas e poéticas criadas por toda essa geração remete a temas como asas quebradas; palhaços; a noite e o brilho do sol. Essas preferências tem implicações socioculturais. Assim que foi lançada, em 1915, na cidade de Lisboa, a revista Orpheu foi alvo da ira por parte de escritores conservadores como o poeta católico Ruy Cinatti, que abominou publicamente o periódico por classificá-lo de literatura subversiva. É interessante que essa publicação reuniu escritores e artistas de distintas correntes estéticas. As dissoluções de grupos literários podem ocasionar o surgimento de novos projetos. Por exemplo, o próprio Fernando Pessoa abandonou o grupo Águia para unir-se com os editores e colaboradores de Orpheu.

orpheu membros.jpg Alguns colaboradores da Orpheu: Fernando Pessoa; Mário de Sá Carneiro; Souza Cardoso e, abaixo, Almada Negreiros.

O tipo de leitor que as revistas e jornais literários procurava cativar, nessa época, era aquele que realiza uma leitura despretensiosa, de fácil compreensão. Já as revistas de vanguarda não se prestam a uma leitura "doseável" porque se destinam a um público exigente intelectualmente, como foi o caso de Orpheu. Assim, os leitores desse impresso são convocados pelos escritores a não deixá-lo morrer comprando-o ou realizando assinaturas. O policiamento do conteúdo dos periódicos iniciado em 1916, em Portugal, será acentuado em 1933 durante a ditadura de Salazar. Para prosseguirem com suas publicações, os editores afirmavam que a revista não possuía conotação política. Os títulos polissêmicos e metafóricos possuíam um poder de sugestão e de sedução muito grande para o leitor. Nome de animais fantásticos, como Unicórnio ou Grifo, para intitular o nome dessas revistas, sugerem que seu conteúdo era mágico.

Em termos políticos e estéticos, o terreno literário de Portugal era movediço entre herança e memória; inovação e ruptura. A postura de vanguarda é inclinada para a aventura, para burlar a ordem. Para Clara Rocha, em Revistas literárias do século XX em Portugal, a vanguarda acaba se tornando contraditória porque também se enquadra nas leis de oferta e procura até acabar entrando para os museus, como patrimônio. Já para o crítico e teórico da literatura Roland Barthes, a vanguarda carrega o signo da marginalidade: ´precisa ser um espinho no sapato da burguesia. O fato é que existe uma dimensão psicológica que motiva toda vanguarda artística: o motor da insatisfação. Orpheu também tinha o intuito chocar esteticamente por meio de temas como o satanismo ou o erotismo.

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Entre esse grupo, houve uma enorme circularidade de literaturas estrangeiras. Os integrantes da segunda geração de Orpheu admiravam, sobretudo, os romancistas e sociólogos do Nordeste brasileiro, da safra de 1930, como José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos e Jorge Amado. Aspectos da história portuguesa também são decantados em prosa e verso na revista. O tema da saudade será uma constante das revistas das cidades e das províncias e o signo do decadentismo esteve presente nas letras de quase todos os colaboradores do periódico. Fernando Pessoa tornou-se o ícone mais conhecido dessa tendência e chegou a afirmar: “o homem é um cadáver adiado”.

Na verdade, modernistas como Pessoa e Sá-Carneiro sentiram na pele e celebraram o chamado “mal do século”. Oscilando entre a euforia e a depressão, esses autores transformaram temas insólitos como a solidão, por exemplo, em uma constante nas páginas de Orpheu. Pode-se afirmar que a solidão foi a grande musa que inspirou e também incomodou a geração desse impresso. Os Cafés de Lisboa eram tidos como ambientes fraternos para esses escritores. A silhueta intelectual de Pessoa pode ser melhor compreendida se o leitor desse texto conseguir visualizar algo semelhante a um Fausto moderno em busca de desvendar os mistérios da existência. Por isso, Fernando se desdobra em várias pessoas para refletir sobre a ontologia humana de várias perspectivas. O tema da natureza será alvo de reflexões desse poeta, que irá propor um modo visionário de perceber os fenômenos e as paisagens naturais.

São muitos os jogos de progressão e regressão estética no campo da história literária em Portugal no século XX. A revista Orpheu, em franca oposição contra A Águia, Nação Portuguesa e Ideia Nacional - defensoras dos esportes violentos, do nacionalismo e da ditadura militar de Salazar - terminou fadada a acabar por causa de dificuldades financeiras para se manter no mercado. Apesar de ter tido uma trajetória longa, com mais de 200 exemplares publicados e ter contato com a participação de várias gerações diferentes de escritores e artistas portugueses ao longo do século passado, a revista Orpheu permanece em silêncio da década de 1960 até o contemporâneo. Em parte, por ter também rejeitado se enquadrar nos moldes daquelas formas estéticas que são mais acessíveis para o grande público consumidor.

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Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro..
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