ruínas

Vestígios da Imagem e da Escrita

Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro.

História e ficção em Spartacus

A série de televisão Spartacus: blood and sand foi produzida em 2010, pela Starz!. Com Andy Whitfield interpretando o soldado trácio, condenado a servir como escravo em um ludus de gladiadores. Spartacus protagonizou uma das mais célebres revoltas de cativos da Roma pagã. Esse texto busca realizar um diálogo entre ficção e história partindo de uma análise da figuração dos costumes da sociedade romana que são representados na série.


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Spartacus: blood and sand é uma série televisiva baseada na trajetória de Espártaco (120 a.C. - 70 a.C.): líder da mais célebre revolta de escravos de Roma. O fato é que a trajetória biográfica de Spartacus, regada pelo sangue dos seus adversários, nas arenas onde os gladiadores distraíam os nobres e a plebe de Roma, já havia atraído a atenção de um diretor de cinema do porte de Stanley Kubrick, por exemplo, em 1960.

A série produzida pela Starz! é estrelada por Andy Whitfield e dirigida por Joshua Donen e Sam Raimi. No contemporâneo, as séries ampliam o tempo que o espectador dedica a um enredo cinematográfico. É interessante pensar nisso, pois, quando o cinema surgiu, o público achava absurdo uma película que ultrapassasse 30 minutos. Hoje em dia, as séries e filmes já montados, a priori, para se tornarem trilogias sugerem que o espectador almeja uma experiência cada vez mais prolongada com as telas.

A estética da série é amplamente inspirada nas histórias em quadrinhos; uma fórmula que cativou o público a partir de filmes como Sin City e 300. Nesse caso, a linguagem sequencial dos quadrinhos é usada, principalmente, nos ângulos panorâmicos que aparecem da arena, dos arredores da cidade de Cápua, do ludus de Batiatus - o proprietário de Spartacus - e nas cenas de violência explícita, nas quais a abundância e o fulgor do sangue escorrendo contrastam com a aridez erma da arena. Então, temos assim um elemento importante que merece uma leitura mais atenta: a série é bastante coerente se for confrontada com pesquisas arqueológicas e históricas sobre os costumes dos romanos. Chega a construir, de forma magistral,um verdadeiro mosaico sobre a cultura da sociedade romana. Porém, o aspecto lúdico, portanto ficcional, de Spartacus reside na liberdade que os diretores possuem para fetichizar a barbárie.

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Segundo o renomado historiador Paul Veyne, em História da vida privada I: do Império Romano ao Ano Mil, obra relançada pela Companhia das Letras, em 2009, a sociedade romana apresentava um sistema de mobilidade singular. Havia casos de escravos libertos que se tornavam ricos e poderosos, podendo até se integrar aos quadros das oligarquias locais. O escravo, para os romanos, não era uma coisa; parte de sua humanidade era considerada. Embora não fosse um animal, o escravo era um "bem" cuja propriedade seu amo detém. Assim, se um Dominus perdesse um bom gladiador na arena, Paul Veyne postula que, no campo das relações afetivas e de dependência da antiguidade, o sentimento de perda seria semelhante ao nutrido por "um oficial que diria que perdeu um homem e vinte metralhadoras" (p. 58).

Condenado a ser sempre considerado um tipo de sub-homem, o escravo, na Roma pagã, era submetido a ritos e rejeições públicas semelhantes às praticadas pelos adeptos do racismo contemporâneo contra seus alvos. Porém, essa Roma não tinha como base uma economia escravista. A instituição da escravidão não foi um mero "modo de produção". Muito mais do que isso, podemos ter ideia de que os produtores de Spartacus exploraram muito bem os bastidores de um cenário no qual podemos imaginar, como sugere Paul Veyne, "escravos [que] vivem em dormitórios, sob a autoridade de um administrador também escravo, cuja companheira cozinha para todos" (p. 60). Nesse ponto, a ambientação das celas, o tema da possibilidade de ascensão, a troca de favores sexuais e os detalhes com os quais a indumentária, armaduras e armamentos manuseados pelos protagonistas da série foram reproduzidos com muita fidedignidade.

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Justamente, as cenas eróticas, bastante explícitas, que aparecem entre casais, gladiadores, nos dormitórios do ludus, entre Spartacus e sua bela esposa - retirada de seus braços por um centurião romano de índole duvidosa - e nos famosos banquetes causaram polêmica. O fato é que seria pouco lógico que uma série, baseada na violência enquanto espetáculo, abordasse a sexualidade romana com demasiados escrúpulos. Spartacus não é para um público sensível, pudico ou infantil. A sexualidade romana não era refreada por moralidade ou medo do inferno, mas por uma questão de moderação com os prazeres - como no caso do álcool - e de prezar pela higiene. Apenas isso.

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O ator galês, radicado na Austrália, que interpreta Spartacus, Andy Whitfield, foi diagnosticado como portador de linfoma. A série produziu um entreato, baseado em uma digressão de 6 episódios, contando a trajetória de alguns personagens que transitaram pelo ludus de Batiatus, antes da chegada do gladiador trácio. Enquanto isso, o ator fazia o tratamento contra a doença. Infelizmente, Whitfield não venceu essa dura batalha contra o câncer e faleceu, em 2011, aos 39 anos de idade. Sem dúvidas, sua atuação faz bastante falta aos fãs da série. Seu carisma e talento como ator deram ao personagem Spartacus uma energia mítica; que contagia o espectador. Esse texto é uma singela e tardia homenagem ao seu trabalho.

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Joachin Azevedo

Não há comunidade viva sem uma fenomenologia da apresentação em que cada indivíduo afronta - atrai ou repele, deseja ou devora, olha ou evita - o outro..
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