Igor Andrade

Brejeiro, simples e certeiro; um velho romântico ao estilo francês, um moleque bem brasileiro.

Os Doces Sonhos de Katherine Mansfield

Voluptuosa, doce, vívida, à frente de seu tempo; musa de Vínicius de Moraes e invejada por Virginia Woolf: descubra (ou redescubra) a moça que é considerada uma das melhores e mais aventureiras escritoras da língua inglesa, Kaherine Mansfield.


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''O teu perfume, amada — em tuas cartas, renasce, azul... — são tuas mãos sentidas! Relembro-as brancas, leves, fenecidas! Pendendo ao longo de corolas fartas. Relembro-as, vou... nas terras percorridas, torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto, paro; e tão perto sinto-te, tão perto Como se numa foram duas vidas.'' (Excerto de 'Soneto a Katherine Mansfield - Vinícius de Moraes)

É interessante observar como a vida dos seres humanos é cheia da matéria do sonho! E mesmo quando crescem, passam pela infância de devaneios e descobertas, os homens levam consigo as experiências e o desejo de continuarem a realizar as suas fantasias, a lutarem de forma árdua por suas metas e vontades. E, claro, continuam a manter sua rotina de sonhos. A história da humanidade contêm dezenas de exemplos de como almas especiais contribuíram, nesse universo, para torná-lo mais belo, cheio de fantasias e certamente Katherine Mansfield teve um doce papel nessa grande viagem.

Nascida de família abastada, no ano de 1888, Kathleen Mansfield Beauchamp criou-se dentro dos altos círculos sociais da cidade de Wellington, na Nova Zelândia. Filha de um banqueiro e educada dentro dos ambientes rígidos existentes no regime colonial, teve uma infância triste e alienada: não era comportamento aceitável das moças da sociedade estarem presentes em brincadeiras fora de sua própria residência, fazendo com que a criança tivesse que alimentar suas vontades de divertir-se de forma extremamente solitária, usando sua imaginação e fantasias dentro de ambientes fechados e escuros. Contudo, essa visão solitária e ao mesmo tempo aventureira perante a vida, que rejeitava a tradição vitoriana, influenciaria Katherine em outros momentos de sua vida e obra.

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As primeiras histórias, de cunho escolar, apareceram no High School Reporter e na revista do duro Colégio para Garotas de Wellington, em 1899. Ainda assim, a doce rebelde não sentia vontade de continuar a escrever... No entanto após uma viagem para Londres para concluir os seus estudos, a moça começou a produzir histórias que caracterizaram a sua maior contribuição para a escrita: os contos breves, dosados de um ambiente de sonho (frequentemente carregados de uma angústia não explícita) mesmo estando imersos em experiências reais.

Ansiosa por encontrar novas “bagagens” e sentir-se viva na Grande Londres vitoriana, a estudante logo se entregou a vida boêmia e bissexual dos artistas ingleses: diziam as más línguas que ela deu vastas contribuições para os jornais e colunas sociais da cidade! Certamente, uma das mais impactantes, foi longamente noticiada em 1918: Katherine se enamorou de um professor de canto, chamado George Bowden e os dois casaram-se duas semanas após ela tê-lo conhecido. No entanto, cansada da ideia de prender-se a um homem por toda a vida, a jovem separou-se do professor na noite seguinte a sua noite de núpcias, escandalizando os grandes círculos sociais.

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Sobrevivendo com uma pensão de cem libras anuais, dada pelo pai, Mansfield deparou-se com uma nova situação em sua rotina: descobriu que estava grávida de um amigo da família de Nova Zelândia e, sua mãe enfurecida, mandou-a para a Baviera, Alemanha.

Katherine também buscou uma possível “cura” de sua bissexualidade e em sua ida afastou-se em especial de uma suas amantes, Ida Baker. A experiência na Alemanha, entretanto, contribuiu para um de seus melhores contos chamado “In a German Person” (Uma Pensão Alemã), onde Mansfield faz observações densas e sólidas sobre um encontro casual com figuras proeminentes do país e sobre a grande raiva que pairava na Germânia entre conflitos. No entanto, a passagem pela nação não terminou de forma positiva: a jovem perdeu seu bebê de forma abrupta ao cair de uma escada em 1909.

Na volta para a Inglaterra, Katherine começou a despertar a atenção de importantes editoras inglesas e foi convidada para publicar alguns contos, que originaram a sua primeira coletânea. Mas, diferente do imaginado, a obra não possuiu a repercussão esperada e não trouxe sucesso a jovem escritora. Desmotivada, no mesmo ano, Katherine foi abatida com outra triste notícia: havia contraído gonorreia, doença que lhe dava fortes dores e sintomas que lhe causariam penar e constrangimentos pelo resto de seus dias e que contribuíram para a dureza de seu espírito: Katherine costumava frequentemente se definir como uma mulher “suja” e “devassa”, inferior entre os seres.

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Ansiosa por doces e leves experiências deixou-se envolver novamente por seu ambiente de quimeras e contos breves e enviou diversos escritos para revistas e editoras. Rejeitada especialmente pelo editor John Middleton Murray, da célebre revista “Rhythm”, que insinuou em seus olhos que a escritora deveria mudar o foco de suas obras, que ele não considerava significantes. Transtornada, Katherine respondeu de maneira agressiva e célebre: escreveu-o anexando-lhe o conto “The Woman at the Store”, que contêm um inteligente relato sobre um crime que envolve perturbações espirituais e mentais, que posteriormente seria reconhecido como um dos melhores já publicados pela revista.

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Ansioso para conhecer melhor a audaciosa escritora, começou a visitá-la de forma frequente: segundo seus próprios relatos, encontrava Katherine sempre esplendorosa em quimonos, com os olhos marcados em sombras negras em sua sala de estar e sempre servido em tigelas, pelo fato de sua anfitriã não possuir xícaras. Os encontros resultaram num intenso caso quente, onde apaixonada pelo editor, Katherine convidá-lo-ia para que dividissem a residência: iniciou-se ali um dos romances mais conturbados da escrita moderna, que culminou em casamento em 1918. Mas a relação difícil entre os dois, as frequentes mudanças e, principalmente, a forte presença da doença na vida da escritora, contribuíram para a ranhura do relacionamento. Contrariando a extensa visão existente na época, os dois não acreditavam em casamentos e viviam frequentemente separados (''Eu quero ser tudo que puder me tornar'', escreveu em um de seus relatos). De maneira livre, traziam amantes e frequentavam encontros as vistas um do outro.

Arrependida de suas decisões e casos extremos, Katherine começou a escrever mais arduamente em seus diários, onde dedicou especialmente longos trechos ao seu marido. Frequentemente sozinha, doente e atormentada pelo seu aventureiro espírito, a sua obra foi afetada por uma visão mais sombria de determinados aspectos de sua existência.

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Apesar de não destinar queixas ao esposo em seus escritos, Katherine demonstrava uma solidão devastadora em suas produções: dedicava poemas à morte que, segundo ela, não a abandonava nunca e era sua melhor amiga.

É notável salientar que Jonh foi incapaz de deixar seus compromissos de trabalho e acompanhar a sua esposa em seu tratamento. Ao observarmos as cartas deixadas por ambos, notamos, contudo, que o esposo possuía sentimentos divididos por Katherine: não conseguia vê-la sofrer e ao mesmo tempo, não desejava ficar sozinho, aumentando assim o isolamento de sua própria mulher (vivência essa, relatada de maneira muito singela pela escritora no conto “A Man Without a Temperament”). É nesse momento que sua amiga e amante, Ida Baker, voltou a aproximar-se de Katherine. Foi nessa época que a jovem se envolveu com um seleto grupo de escritores residentes na Inglaterra, o famoso Clube 17.

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Reconhecida e admirada por nomes como: Ezra Pound, T. S. Eliot, James Joyce e Virginia Woolf (que foi influenciada por alguns de seus elementos, inspirou a jovem e declarou que a escrita de Katherine “foi à única que invejou”.). Todavia, apesar da atmosfera de escrita e pensamento livres existentes durante esse período, Katherine foi novamente abatida ao receber mais uma triste notícia: a morte de seu irmão em um conflito, na Primeira Guerra Mundial. Sua obra começou a receber uma nova variação: foi possível observar em seus contos a nostalgia de sua infância, a vontade humana de voltar as doces memórias infantis e o ambiente encontrado em sua casa.

Embora continuasse a escrever, a escritora entrou em depressão de forma dura e extensa. Irritada e desanimada com sua própria existência, isolou-se e acabou contraindo tuberculose, doença que lhe afligiu doses ainda maiores de sofrimento. Envolta em lembranças nostálgicas, ambientes de fantasia e duros casos amorosos, começou a aventurar-se pela Europa, buscando de maneira obsessiva tratamento. No entanto, após uma série de hemorragias, começou a iniciar os trabalhos que a consagrariam: contos como “Miss Bril” (que conta a história de uma mulher frágil, que vive a observar as ruas de Paris e acaba com suas fantasias em ruínas) e “Bliss” (publicada em 1920, que possuía grandes traços autobiográficos acerta de seus relacionamentos) receberam críticas favoráveis e foram amplamente elogiados. É importante salientar a capacidade de Mansfield em relatar cenas cotidianas, dando-as aspecto de sonhos, mas ainda assim, mantendo-as fiéis, reais e “cruas”.

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Katherine passou os seus últimos dias procurando uma cura irreal para as suas diversas enfermidades, usando-se de tratamentos não aprovados e alternativos para tratar-se. Os métodos contribuíram para piorar o estado físico dela, onde desenvolveu sintomas como: calores e insensibilidade nos membros inferiores. Atormentada, frágil e desolada, Mansfield procurou renovação espiritual em seus últimos dias, onde começou a sentir-se especialmente atormentada pelo seu espírito selvagem. A escritora refugiou-se, então, no Instituto do guru Georgei Ivanovitch Gurdijeff e começou a seguir as orientações da filosofia carmelita.

No instituto, Katherine começou a passar por duras penas: além de ser humilhada, passar por temperaturas baixas de maneira gratuita e passar o dia a cortar legumes, a escritora sacrificou-se para sentir-se menos sozinha e encontrar paz para a sua própria alma. Após diversas tentativas e uma pequena melhora, voltou à Londres para comunicar ao seu marido os avanços do seu estado. Todavia, ao subir às escadas, Katherine sentiu grandes dores e sofreu uma dura hemorragia pulmonar. A escritora estava animada por finalmente voltar para casa e estar sentindo-se novamente saudável, por ter a oportunidade de voltar aos braços de seu amado Jonh...

Era 9 de janeiro de 1923 e morria, aos 34 anos, Katherine Mansfield.

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Infelizmente, os editores brasileiros poucos traduzem as obras da tão admirada Katherine. Somente em 1992, a editora Raven, começou a traduzi-las. É interessante observar que os oitenta e oito contos de Katherine já estão disponíveis em nosso ambiente e obras como “An Indiscret Journey” (onde a jovem relata experiências de sua aventura amorosa em um front de guerra) e a “Casa de Bonecas” (em que se veem fortes observações sobre a infância) já estão presentes em nosso idioma. Fica aqui a indicação para que as grandiosas obras dessa tão aventureira moça continuem a propagarem-se durante os anos, séculos e que essas histórias não fiquem perdidas à mercê do tempo. Que Katherine continue a intrigar as próximas gerações com sua realidade tão cercada de fantasia e sonhos.


Igor Andrade

Brejeiro, simples e certeiro; um velho romântico ao estilo francês, um moleque bem brasileiro. .
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