sala de cultura

Comportamento e arte

Tania Azevedo Garcia

Psicóloga, professora universitária, apaixonada por cinema.

Era uma vez uma cidade...

Esta é a história de uma rainha que reinou no século XX, na, considerada por muitos, a "Rainha das Cidades". Sua vida é fruto de um contexto histórico marcado por grandes transformações e seu estilo prevale até os dias de hoje.


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Ela situava-se “no coração de um vale encantador, no meio de uma crista de declives enriquecidos por Ceres e Baco. O orgulhoso rio Sena, vindo do leste, flui com vigor e abraça a ilha - cabeça, coração e verdadeira essência de toda a cidade. Dois faubourgs (ou subúrbios), capazes de despertar a inveja de outras cidades, estendem-se à direita e à esquerda. Os dois ligam-se à ilha por meio de pontes de pedra: a Grand Pont, ao norte, em direção ao mar inglês, a Petit Pont, na direção do rio Loire. O primeiro faubourg, grande, rico e repleto de negócios, é um teatro efervescente de atividade; inúmeros barcos, plenos de mercadorias e riquezas, o circundam. A Petit Pont pertence aos versados em dialética, que caminham por ali discutindo temas importantes”. Essa é a descrição idealizada pelo padre e escritor francês Guy de Bazoches, em 1175, daquela a qual ele chamava a “Rainha das cidades”.

A capital mais charmosa, mais bela e mais visitada do mundo, Paris, no final do século XIX, já era considerada referência em cultura, artes e estilo.

exposição universal 1889.jpg Em 1889, centenário da revolução francesa, a Exposição Universal, em Paris, inaugurava a era moderna. Em estilo pedagógico e marcada pela obsessão pela ciência e pela cidadania, essa exposição tinha um caráter um tanto diferente da mostra do ano seguinte, que registrava o fin de siècle e o início da belle époque.

“Paris, capital do mundo civilizado”, tema da exposição da virada do século, enfatizava os prazeres dos sentidos e o consumo. “O decorativo e o feminino prevaleciam sobre a funcionalidade e virilidade do estilo Eifel de engenharia”, afirmava Colin Jones, professor de história da Universidade de Londres.

Os pavilhões mais comentados foram o Pavilhão de Artes Decorativas e o Palácio da Mulher, sendo, o Palácio da Moda, o segundo mais visitado da exposição. Não que a arte tenha prevalecido sobre a ciência. Mas a exposição de 1900 evidenciava que o estilo feminino e decorativo era o princípio que tornava Paris tão especial e moderna. A criação da linha ferroviária metropolitana parisiense – o Métro - ratificava seu desenvolvimento e modernidade. O que possibilitou melhor integração econômica e novos hábitos de consumo para elite e, também, para outros estratos sociais. Prazer e lazer impulsionavam essa transformação.

A alfabetização popularizava o jornalismo; os impressionistas e pós impressionistas marcavam a modernidade no cenário artístico. Mais pessoas freqüentavam os teatros; o cinema dos irmãos Lumière fazia suas primeiras apresentações públicas em Sorbonne, palco anfitrião da nova arte.

mulher fabrica 1.jpgO setor têxtil liderava o consumo, seguido pela produção de carros, de aeronaves, eletrodomésticos e cinema. Em 1914 havia mais fabricantes de sapatos e alfaiates em Paris do que trabalhadores nas indústrias automobilísticas. A evolução industrial em Paris produziu mudanças sociais dignas de nota. Ela marcou, principalmente, o aumento do número de mulheres no mercado de trabalho. Em 1914 a massa trabalhadora feminina representava um terço do total; percentual bastante elevado se comparado com outros países, que ainda consideravam a mulher um objeto de “decoração do lar”. O advento da guerra realçou ainda mais a importância da mulher na produção da indústria.

Art Déco 2.jpgA exposição de 1925 lançou a Art Déco como novo estilo internacional. Patrocinada por grandes magazines e ateliês de alta-costura, ela inscrevia a orientação comercial de Paris.

Cabelo curto, saias que mostravam os joelhos eram os novos estilos femininos do pós-guerra. Era a fusão da cultura da arte e do consumo nos mais altos níveis dos mercados de luxo, que tinham como público alvo, as mulheres. O produto industrial mais louvado: o bidê.

marguerite durand.jpgO fim do século XIX para Paris foi marcado por grandes e importantes transformações. Era o ano de 1897 quando Marguerite Durand inaugurava o primeiro jornal feminista de publicação diária, o La Fronde. Época que registra o advento do movimento feminista, que reivindicava ampliação dos direitos sociais e políticos das mulheres. Quatorze anos antes, 1883, nascia uma das mulheres mais importantes do século XX, que se tornaria a essência da sofisticação francesa: GABRIELLE CHANEL.

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Filha de mãe solteira, pai feirante e quatro irmãos, Channel viveu os primeiros anos sem residência fixa, morando em lugares miseráveis, enquanto o pai Albert vendia seus produtos numa carroça. Quando sua mãe faleceu, Gabrielle estava com 12 anos. Ela e suas irmãs foram viver no convento de Aubazine, no centro sul da França.

Aos vinte anos, começou a trabalhar como costureira. Nas horas vagas, cantava num bar frequentado por oficiais da cavalaria. O apelido “COCO” teria surgido nesse período, nome de uma canção de seu repertório, mas, também, termo francês que, segundo Hal Vaughan, significava “mulher sustentada por amantes”.

De certa forma, foi assim que iniciou sua carreira.

Olhos negros, cativantes, olhar marcante, corpo e magreza admiráveis seduziram o ex-oficial e herdeiro de uma família que fornecia uniformes ao exército francês: Étienne Balsan. Aos 23 anos, Coco tornou-se amante de Balsan, morando em seu castelo e haras em Compiègne, a 75 km de Paris.

Em 1908, Coco se apaixonou pelo rico e bonito Arthur Capel (Boy), amigo de Balsan. Boy a levou para Paris e a ajudou a criar um ateliê de chapéus femininos. Ele também teria financiado suas butiques em Paris, Deauville e Biarritz. A morte de Capel num acidente de carro em 1918 traria grande dor para Chanel. Exilada na Suíça, em 1945, ela revelou ao amigo Paul Morand: “A morte dele foi um golpe terrível para mim. Ao perder Capel perdi tudo. O que veio depois não foi uma vida de felicidade, devo dizer”.

estilo chanel 4.jpgSublimando sua perda, Chanel dedica-se, cada vez mais, ao seu trabalho. Atrás da elegante Place Vendôme, sua Maison se transforma num símbolo do estilo, do requinte e da qualidade artesanal da França.

“Os desenhos de Chanel exploraram a simplicidade cara, dando às mulheres ricas uma aparência quase de pobres”, declaram os escritores Arthur Gold e Robert Fizdale. E foi com esse estilo simples, casual nas roupas caras, que ela ganhou muita riqueza.

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Ela revolucionou a moda feminina. Coco queria que as mulheres adotassem uma silhueta leve e ágil, com pretinhos básicos e flexíveis, no lugar dos empoados, glamorosos e desconfortáveis vestidos predominantes até aquele período. Seus modelos inspiraram as jovens modernas a usar mangas curtas, saias plissadas e a enrolar as calças até os joelhos. Seus detratores afirmavam: “não existem mais mulheres...restaram apenas os meninos criados por Chanel” (Axel Madsen).

Milionária, generosa, famosa, temperamental, talentosa, criativa, dominadora, sedutora. Muitos são os adjetivos que definem Coco Chanel.

Muitos, importantes e ricos, foram também seus amantes, como o pianista russo Igor Stravinski, o pintor Pablo Picasso, o grão-duque Dimitri Pavlovitch e o poeta Pierre Reverdy. Eles também foram muito importantes como fonte de inspiração para sua moda. Foi nos suéteres de Boy Capel que ela se inspirou para copiar a moda para as mulheres. Sua coleção de bordados russo-eslava e seu ingresso no ramo dos perfumes teriam sido influenciados por Pavlovitch. O Chanel nº. 5, composto por aproximadamente 80 ingredientes, sendo o mais importante o jasmin que nasce e cresce somente em Grasse, sul da França, se tornou, logo em seu lançamento, 1921, o perfume mais famoso de toda Paris. Pierre Wertheimer, um de seus sócios, judeu e grande patrocinador do perfume, teria sido apaixonado por Chanel por toda a vida. Apesar das batalhas judiciais que tiveram em decorrência das desavenças financeiras e operacionais relacionadas à empresa; desconsiderando a colaboração e o envolvimento da estilista com o nazismo, foi Wertheimer quem salvou Chanel no final de sua vida. chanel-no-5.jpg Por mais ousada, independente e criativa que fosse, Chanel sempre precisou de muito amor e admiração.

Gabrielle COCO Chanel, a “rainha” da “Rainha das Cidades” nasceu e viveu num período de muitas e significativas mudanças sociais. Especialmente para o universo feminino. Ela é fruto de seu tempo e contexto histórico, referência e reflexo da mulher inteligente, forte e, sobretudo, independente.

Referências

JONES, Colin. Paris – biografia de uma cidade. Porto Alegre: L&PM. 2009.

VAUGHAN, Hal. Dormindo com o inimigo: a guerra secreta de Coco Chanel. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Coco antes de Chanel. Direção: Anne Fontaine. 2009. DVD (105 min)

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-128901/trailer-18898727/

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Tania Azevedo Garcia

Psicóloga, professora universitária, apaixonada por cinema..
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