sala de cultura

Comportamento e arte

Tania Azevedo Garcia

Psicóloga, professora universitária, apaixonada por cinema.

Converse com ela e derrame algumas lágrimas

Ética e poesia: um convite à reflexão.


Poesia

A Coréia do Sul é uma das maiores economias da atualidade. O investimento em educação terá sido uma das principais razões desse franco desenvolvimento, que reflete em sua produção cinematográfica. Exemplo disso, o roteiro premiado em Cannes em 2010,“Poesia”, que não está somente no título, mas em todo o filme.

Yang Mija, interpretado por Yun Jeong-hie, é uma senhora solitária que sofre com os primeiros sintomas de Alzheimer. Ela trabalha como cuidadora de um idoso. Seu neto, um adolescente, como muitos que conhecemos, vive no seu mundo particular, interessado apenas em tecnologia e nos próprios colegas. Parece desconsiderar a existência da avó, que vive para agradá-lo.

A rotina de Mija se rompe, de forma positiva, quando ela inicia um curso de poesia, como recurso terapêutico para o Alzheimer e, também, como realização de um sonho de infância; e de forma negativa, quando descobre que seu neto está envolvido num caso de estupro na escola, no qual a vítima se suicidou.

Os pais dos garotos envolvidos na violência sexual, amigos do neto da protagonista, decidem se reunir a fim de evitar que seus filhos sejam punidos, na tentativa de recompensar financeiramente a família da vítima.

Mija é a única mulher no grupo e se sente dividida entre salvar o neto de uma possível condenação ou deixar que ele seja punido. Seu constrangimento e sofrimento mediante a situação são evidentes, por não ter o recurso financeiro, pelo amor ao neto e também por empatia aos sofrimentos de Agnes, a garota violentada.

Com dificuldades para persuadir a mãe da vítima a aceitar a oferta, um dos pais sugere a Mija: “converse com ela e derrame algumas lágrimas”.

O filme suscita algumas questões. Poderíamos discorrer sobre os dissabores da solidão e do envelhecimento, especialmente na “modernidade líquida”, esta tão comentada e bem explorada pelo sociólogo Bauman; sobre a doença de Alzheimer e seus impactos sobre a autonomia do indivíduo; sobre a violência sexual contra a mulher; mas a frase que destacamos, proferida por um dos pais, foi o que mais nos chamou a atenção no filme e que nos remete a temas éticos.

Aristóteles, em Ética a Nicômaco, diz que um pai deve se preocupar com a felicidade de seu filho, mas tem que pensar na felicidade individual e coletiva. Porque vivemos em sociedade, devemos ter em vista o bem comum. A finalidade suprema é uma vida virtuosa, que se alcança pela prudência.

Façamos uma ponte entre “converse com ela e derrame algumas lágrimas” com o pensamento de Aristóteles.

O Alzheimer de Mija a faz esquecer as palavras, mas parece ser a única na trama a não esquecer que existe alguém além dos próprios filhos. Parece ser a única a ter algum sentido de prudência. Em nenhum momento a atitude dos filhos é questionada. Os pais dos garotos, homens de negócio, parecem colocar as paixões sobre a razão. Sob o ponto de vista da ética de Aristóteles, deveria ser o contrário.

Os pais objetivam seduzir a mãe da vítima a aceitar a indenização. Os fins justificam os meios, já dizia Maquiavel. “Derrame algumas lágrimas”, mesmo que elas não sejam verdadeiras, é o que nos sugere, a fim de alcançar o objetivo desejado. poesia 1.jpg

Ainda dividida, a fim de conseguir o dinheiro que lhe cabe para ressarcir a mãe da vítima, Mija presta serviços sexuais ao velho ao qual ela cuida. É, ser ético não é uma tarefa fácil. Porque ser humano é um paradoxo constante. O filme não termina aqui. Há surpresas. Vale conferir pela reflexão que provoca e, especialmente, pela poesia.

Referências: Poesia. Direção: Lee Chang-dong, 2010. DVD (139 min)


Tania Azevedo Garcia

Psicóloga, professora universitária, apaixonada por cinema..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Tania Azevedo Garcia