sala de cultura

Comportamento e arte

Tania Azevedo Garcia

Psicóloga, professora universitária, apaixonada por cinema.

DA CONDIÇÃO DE SER DIFERENTE

O preconceito emerge da nossa dificuldade para lidar com o que nos é diferente. Com sensibilidade, elegância e espontaneidade, Céline Sciamma nos convida a refletir sobre a sexualidade humana. Freud amaria esse filme.


tomboy 1.jpeg A leitura emocional que o cinema provoca já era conhecida por outras artes desde a antiguidade. Apeles, séc. IV a.C., considerado por diversos autores o mais importante pintor de sua época, utilizou-se de sua obra “Alegoria” como discurso em sua própria defesa num processo judicial. Assim, como a força das figuras do quadro de Apeles convenceu os juízes de sua inocência, penso que a sétima arte tem o poder de provocar emoções e de levar as pessoas a se sensibilizarem e a refletirem de forma mais intensa do que uma exposição oral ou escrita o fariam.

Dessa forma, tenho utilizado diversos filmes como recurso didático para trabalhar temas ligados à psicologia, às ciências sociais e ao comportamento em geral. Um deles é, acredito, significativamente relevante para o tema ao qual me proponho hoje, haja vista a polêmica a qual a matéria contempla.

Ao longo dos últimos tempos vimos diversas notícias sobre o que foi popularmente chamado de “cura gay”. E o que mais me impressionou foi o discurso dos defensores da causa, que em nome da “ciência” alertavam que a cura era possível. Que cura, se não havia doença? Foi o que denunciou o Conselho Federal de Psicologia. E os defensores da causa usavam o argumento da “ciência” como se essa fosse perfeita e nunca tivesse cometido erros. Vale ressaltar que os argumentos utilizados por eles não eram cientificamente comprovados. De qualquer forma, mesmo que o fossem, a ciência também é fruto de seu tempo e, quando produzido de forma não racional, pode construir teorias contestáveis como já se fez no passado. Exemplo disso, o nazismo. A nossa preocupação em ir além ou a despeito da argumentação científica é sensibilizar as pessoas para a compreensão da condição de ser diferente. tomboy 2.jpg Desde criança somos orientados a nos comportar conforme as convenções sociais do sexo ao qual nascemos. Meninas brincam com bonecas, meninos com bolas, meninos não podem usar cor de rosa e assim por diante. Essas delimitações de comportamento conforme o gênero já não são tão claras atualmente, mas há que se considerar que muito do preconceito ainda é camuflado. É o que nos chama a atenção no filme francês “Tomboy”.

Como você se chama? Je m’appele Laure. Esse é o nome da personagem principal do longa, que se apresenta assim somente no final do filme, pois durante toda a trama ela é Michael.

Do ponto de vista da biologia, Laure, 10 anos, é do sexo feminino, entretanto ela se comporta e se veste como um garoto, sem qualquer rastro de feminilidade. Parece se identificar com o universo masculino. Laure e sua família são novos no bairro e logo ela faz amizade com um grupo de crianças, que pensam que ela é Michael. A interpretação da jovem atriz Zoé Héran é perfeita.

Mas por que Laure mente sobre sua identidade?

A divisão da humanidade em gênero feminino e masculino, concepções binárias e excludentes, não limita nossas possibilidades sexuais. A delimitação sexual ocorre em virtude de regras sociais dominantes em cada contexto e momento históricos. E ocorre de tal forma que nos pareça natural e não cultural. No ocidente, sociedade altamente influenciada pela cultura hebraica, base do cristianismo, a homossexualidade tanto masculina, quanto feminina oscila entre a aceitação da minoria da população à rejeição ou preconceito dissimulado da maioria. Assim, fica difícil para qualquer ser humano de sexualidade dissociada de seu sexo de origem se manifestar e se comportar de forma espontânea.

tb e a colega.jpgExistem diversas correntes teóricas, tanto da linha da biogênese quanto da sociogênese, dissertando sobre as origens da sexualidade humana. Mas o que menos nos importa aqui são as causas da hetero, da homo ou da bissexualidade. O que o filme nos convida a refletir é sobre a tolerância, a aceitação que pode e deve começar em nossas próprias casas. O comportamento de Laure parece ser bem aceito por seus pais. Algo incomum em nossa sociedade.

Céline Sciamma, diretora do filme, conseguiu traduzir um tema delicado de maneira elegante e sensível, que nos comove e nos faz pensar o quanto o mundo seria melhor se fôssemos mais empáticos e receptivos ao diferente. Mas como abordado no início deste texto, vou deixar que o filme fale por si mesmo. Quem sabe, ao assisti-lo, as pessoas possam mudar suas concepções de mundo, mais do que qualquer teoria o faria.

Referência

TOMBOY. Direção: Céline Sciamma, Europa Filmes, 2013. DVD (79 min) capa tb.jpg


Tania Azevedo Garcia

Psicóloga, professora universitária, apaixonada por cinema..
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