sala de cultura

Comportamento e arte

Tania Azevedo Garcia

Psicóloga, professora universitária, apaixonada por cinema.

Eles viram porque eram Mestres

Será que é possível alguém realmente prever o futuro? Se assim for, os ataques terroristas recentes poderiam ter sido evitados?


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A única vez que fui a um vidente - sujeito dotado de visão paranormal - saí de sua sala com uma sensação muito estranha. Era um misto de dúvida, incerteza e medo. Será que ele vê mesmo o futuro?

Em sequência, entrei na faculdade de psicologia e o conhecimento científico acabou por me fazer questionar e criticar várias de minhas crenças. Assim, vidências, profecias e até mesmo valores religiosos foram colocados em dúvida.

Já se passaram muitos anos e hoje voltei a acreditar em vidência.

Sim. Há pessoas que podem efetivamente ver o futuro.

E. W. Said é um desses videntes.

Durante muitos anos de sua vida, ele fez várias afirmações proféticas e parece que pouca gente deu atenção. Com os eventos recentes de ataques terroristas na França, mais especificamente, ao jornal Charlie Hebdo, pude verificar que ele havia previsto esse tipo de ocorrência.

Na ocasião da guerra contra o Iraque ele profetizou: “O resultado é uma grande onda de antiamericanismo e ressentimento que essa política tornará pior”...”acho que estamos caminhando para tempos bem ruins”.

edward said 1.jpg Edward Said

Eqbal Ahmad, outro grande profeta, em 1998 comentou que “Osama Bin Laden é um sinal de coisas que virão”. Continua: “os Estados Unidos plantaram no Oriente Médio e no sul da Ásia sementes venenosas. Essas sementes agora estão crescendo. Algumas amadureceram, e outras estão amadurecendo.”

Mas isso não é ser vidente, diriam. Entretanto, o conceito de vidente é também: sujeito esclarecido, iluminado, que vê antecipadamente.

Eles viram porque eram Mestres.

Do latim magister, mestre, vem de magis, maior. Função docente que cabia à igreja a salvação das almas. Nas corporações medievais, o mestre era o domo da hierarquia. As universidades herdaram os conceitos eclesiástico e corporativo e mestre passou a ser aquele que pode ensinar, pois sabe fazer.

Edward Said nasceu em Jerusalém – região prolífera de profetas - estudou no Cairo e lecionou literatura na universidade de Colúmbia, Estados Unidos. Autor de diversas obras, é considerado um dos principais porta-vozes da causa palestina. Devido as suas afirmações, foi caluniado como “o professor do terror”. Ele e sua família receberam várias ameaças de morte e seu escritório foi incendiado.

Era também mal visto pelos árabes, pois defendia a coexistência entre judeus israelenses e árabes palestinos na região. Era contrário à luta armada, pois acreditava que a solução viria de decisões político-econômicas. Deveria ser uma terra para os dois povos. Ideia também defendida por Sholomo Sand, outro grande mestre, judeu polonês, professor de História na Universidade de Tel Aviv.

sholomo sand 1.JPG Sholomo Sand Said se preocupava com a visão distorcida que o ocidente tinha de seu povo. Era preciso reconhecer que uma população de 280 milhões de árabes e 1,3 bilhão de mulçumanos no mundo não seriam todos terroristas fundamentalistas.

É fato que o Islã tem sido caracterizado como uma religião violenta e o ataque ao Charlie Hebdo, os assassinatos promovidos pelo Estado Islâmico, por exemplo, acabam corroborando essa fama. Fama essa, altamente explorada pelos EUA, por Israel e alguns países europeus.

O ódio ao povo árabe, com isso, é compreensível. Mas é preciso separar o joio do trigo. É preciso analisar com cautela para não cair no discurso dominante.

Quando se fala em conflito entre Israel e Palestina, fica-se com a ideia de que estamos falando de povos com a mesma capacidade militar, econômica e política. Isso é uma grande inverdade.

No último conflito entre Israel e Palestina, em meados de 2014, ficou notória a fragilidade de um dos lados. O número de mortos palestinos foi infinitamente maior. Fontes de agosto de 2014 sinalizam 2.130 mortos do lado palestino, contra 69 de Israel.

Além disso, a fome, pobreza e miséria são permanentes em Gaza. Situação estimulada por Israel, já que Gaza depende de recursos básicos fornecidos por este país, como comunicação, energia e água.

Como é que uma criança, que sobrevive a um conflito como esse e vivendo nessas condições pode crescer de forma saudável? Que tipo de sentimento ela pode internalizar? Difícil pensar em algo nobre.

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O apoio americano irrestrito a Israel, permitindo que este redesenhe o mapa da região, foi incessantemente criticado por Said.

Em 1948, uma população de aproximadamente oitocentas mil pessoas foi expulsa da Cisjordânia. “Quando os alemães cometeram o Holocausto, e quando os ingleses deixaram a Palestina para os sionistas, eles criaram uma tragédia para os palestinos. É um campo minado muito difícil de negociar”, pontuou Said.

Ele afirmava: os EUA exportam muito mais que bens de consumo. Exportam algo bem diferente da democracia e liberdade que propagam. Eles zombam do direito internacional. Imaginem como isso soa aos ouvidos, corações e mentes dos povos árabes.

Enfim, esses mestres sinalizaram, através de suas análises, que a militarização seria contraproducente e que não resolveria a questão do terrorismo.

Assim, mestre, para mim, significa vidente, profeta.

E antes que eu me esqueça: a palavra profeta, em grego, se forma a partir de dois termos: pro e phemi. Phemi significa dizer, proclamar, pro pode significar antes de, e/ou no lugar de alguém. Na visão religiosa é aquele que fala em nome de Deus ou iluminado por Ele. Da raiz hebraica, profeta é nabi, que significa a ação de proclamar, de gritar.

E esses mestres gritaram, proclamaram, anunciaram, mas parece que ninguém ouviu.

Referências:

SAID. Edward W.; BARSAMIAN. David. Cultura e resistência. R.J: Ediouro, 2006.

SAID, Edward W. A questão da palestina. São Paulo: UNESP, 2012.

SAND, Shlomo. A Invenção da Terra de Israel - da Terra Santa à Terra Pátria. São Paulo: Benvirá, 2014.


Tania Azevedo Garcia

Psicóloga, professora universitária, apaixonada por cinema..
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