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Comportamento e arte

Tania Azevedo Garcia

Psicóloga, professora universitária, apaixonada por cinema.

Quem é responsável pela queda do avião da Germanwings?

Há dois meses, a queda do avião da Germanwings mobilizou toda a sociedade. Evidências apontam que o copiloto, autor do desastre, sofria de depressão, a doença do século, que acomete milhões de trabalhadores. Poderia a empresa ter diagnosticado a tempo e evitado o acidente?


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Todo grande evento, especialmente, um acidente como a queda de um avião, provoca, imediatamente, grande comoção nas pessoas. A mídia fica dias a fio destrinchando o assunto. Passado um tempo, outros eventos vão tomando a atenção das pessoas.

Decorridos dois meses da queda do avião da Germanwings - março de 2015- pouco ou quase nada se fala sobre o assunto. Afinal, outras catástrofes aconteceram.

Mas o tema ainda me toma. Qual a responsabilidade dos gestores da companhia nesse acidente, tendo em vista que um de seus profissionais, deliberadamente, provocou a queda do avião?

Andreas Lubitz, 27 anos, segundo investigações realizadas, tinha um histórico de episódios depressivos. Poderia ele ter sob seu encargo a navegação de uma aeronave, mesmo que provisoriamente? Qual a responsabilidade da companhia neste episódio?

A depressão é a doença do século e existem muito mais pessoas com esse tipo de acometimento. Muitos médicos, enfermeiros, policiais, profissionais, que necessitamos com alguma frequência, podem estar sofrendo com o mesmo problema. Tudo bem que a maioria não comete ou cometeria algo tão inusitado, trágico e infeliz. Mas o alerta é que o nosso risco pode ser muito maior e pode ser diário.

Uma companhia aérea envolve uma responsabilidade muito grande no que tange à segurança de seus clientes. Um erro cometido por um funcionário de uma boutique, por exemplo, dificilmente terá gravidade e consequência tão significativas quanto um erro cometido por um piloto. Este carrega muitas vidas sob seus cuidados.

A mídia divulgou que o copiloto já teria sido afastado em outra ocasião devido a problemas de saúde mental. Teria havido negligência por parte da empresa? Se sim, quando ela poderia ter identificado o problema e, assim, evitado o acidente?

Um processo seletivo bem feito consta de instrumentos e mecanismos de avaliação psicológica, que podem identificar transtornos mentais mais graves e/ou tendências comportamentais, emocionais ou afetivas que desqualificam este ou aquele profissional para determinadas funções.

Mas é possível que no processo de seleção a empresa não identifique algo que impeça a contratação de um profissional. As pessoas não são máquinas e apresentam instabilidade emocional ao longo de suas vidas. Assim, as empresas precisam manter um processo de acompanhamento constante, de forma a conhecer o estado de saúde mental de seus trabalhadores e, especialmente, avaliar as condições de trabalho as quais eles estão submetidos.

Uma pessoa com histórico de boa saúde mental pode, em determinados contextos, apresentar adoecimento. Pessoas saudáveis, submetidas à grande estresse e assédio moral, podem entrar em depressão. O nexo causal é o grande dilema dos estudiosos da saúde mental no trabalho: este provoca ou precipita o adoecimento psíquico?

Recentemente, saiu uma reportagem sobre a baixa qualidade de vida dos pilotos no Brasil. Há situações em que eles chegam a ficar até 72 horas sem ter um sono tranqüilo, pois saem de um trajeto e já entram em outro. O estresse ao qual eles estão submetidos é muito intenso e isso pode provocar ou precipitar um adoecimento. Se uma empresa aérea não cuida de seus profissionais como deveria, ela está colocando em risco a vida de centenas de pessoas e, certamente, ficará refém de uma imagem negativa.

Somente a finalização das investigações poderá dizer da responsabilidade da companhia aérea nesse acidente. Mas fica aqui a minha proposta de reflexão, que transcende a situação em si. A ideia é sensibilizar as pessoas para um problema emergente que é o da saúde mental no trabalho. Enquanto não aprendermos a analisar os problemas de forma ampla, mais vítimas teremos nos diversos contextos sociais.


Tania Azevedo Garcia

Psicóloga, professora universitária, apaixonada por cinema..
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