sala de cultura

Comportamento e arte

Tania Azevedo Garcia

Psicóloga, professora universitária, apaixonada por cinema.

Você pensa sobre o seu trabalho?

Essa é uma história sobre um homem que não pensava e, acreditando que estava fazendo o correto, dizimou milhões de vidas.


eichmann.jpg Eichmann caminhando no pátio de sua cela - Israel, 1961, via Wikimedia Commons

"Sou um idealista, um homem que vive para as suas ideias. Nunca permiti que minhas emoções e sentimentos interferissem em meu trabalho. Nunca recebi uma medalha de reconhecimento, apesar de ter desenvolvido um sistema logístico da mais alta eficiência. Era uma bela linha de montagem. Para cumprir minhas tarefas, eu mandaria meu próprio pai para a morte, mas que fique claro: eu nunca matei ninguém."

O relato acima reflete o pensamento do nazista Otto Adolf Eichmann: funcionário dedicado, eficiente, comprometido. Ótimas qualidades. Provavelmente ele seria aprovado num processo seletivo e promovido numa organização pela sua dedicação, competência e eficácia, pois não é isso o que as empresas buscam?

Realmente ele nunca matou ninguém, mas seu trabalho levou aos campos de concentração um número imenso de judeus.

Mas o que um burocrata nazista tem a ver com o tema em questão?

Desde a revolução industrial, o tipo de adoecimento vinculado ao trabalho se transformou muito. Antes, a falta de equipamentos de segurança e a inexistência de legislação que garantisse condições mínimas de saúde levavam muitas pessoas a perderem suas vidas. As condições físicas melhoraram consideravelmente. Atualmente, poucas pessoas se afastam por lesão por esforço repetitivo. Contudo, mais gente tem adoecido em virtude da depressão no trabalho, que tem sido considerada o mal do século.

Metas ousadas, reestruturação, crise econômica, o medo de perder o emprego, são algumas das causas que podem fazer emergir o adoecimento psíquico e levar a depressão no trabalho a quadros epidemiológicos.

Questões como a crise econômica não são simples e nem passíveis de solução no micro universo das organizações. Contudo, a forma como as pessoas lidam com suas tarefas, como os líderes, chefes, conduzem suas equipes, pode minimizar ou potencializar seus efeitos.

Vejo muitas pessoas cumprindo tarefas e direcionando suas equipes como se máquinas fossem. Muitos respondem às demandas organizacionais sem refletir ou questionar. Será que a forma e o que está sendo feito são realmente necessários? Existe outra maneira de conduzir a situação?

E pelo autoengano, muitos entram nessa engrenagem, mentindo para si mesmos, negando um sofrimento que grita.

O mais perverso é que mesmo diante de um quadro de metas absurdas e cobranças de chefes pouco hábeis, os trabalhadores devam demonstrar otimismo, satisfação, empenho e “brilho nos olhos”, a despeito de seu desgaste.

Falta reflexão, carece de sensibilidade, sobra desumanidade.

Eichmann era um homem simples como outro qualquer e só ficava com a consciência pesada quando não fazia aquilo ao qual lhe ordenavam. Ele era um cidadão limítrofe, ignorante da própria ignorância e tinha um posto e funções importantes dentro de um sistema que matou mais de seis milhões de pessoas.

Como concluiu Hannah Arendt, Eichmann não era a o anjo caído que todos os judeus esperavam. Ele não tinha nada de excepcional. Ele simplesmente não pensava.

Para alguns pode parecer um exagero comparar um nazista com a situação aqui apresentada. Mas a ideia é refletir sobre o quão alienados nos tornamos quando não questionamos o que fazemos. O quanto isso pode pesar nas relações que temos com nossos pares ou subordinados e como isso pode repercutir na saúde mental das pessoas.

Para finalizar, trago aqui uma história muito interessante citada por Rollo May, psicólogo americano, em seu livro A psicologia e o dilema humano.

Certo dia, um rei observando as pessoas na sacada de seu castelo decide fazer um experimento. Ele escolhe um homem comum, livre e dá ordens para colocá-lo numa jaula. Um psicólogo passa a ser o cientista a analisar o comportamento deste homem. “E quão grandes contribuições esta pesquisa trará para a humanidade!”

O homem, a princípio revoltado, acaba se conformando com sua nova condição. Ele até agradece ao rei pela comida e estadia. Ele se aliena de tal forma que, de servil, sua expressão passa a ser vazia e sem significado. O homem já não usava a palavra EU.

Refletindo sobre a situação na qual este homem se encontrava, o psicólogo sente um grande vazio. Percebeu que algo havia se perdido, que “alguma coisa tinha desaparecido do universo nesse experimento”. “Por que eu não disse ao rei que esse é o experimento que nenhum homem pode fazer? Por que não gritei que eu não teria nada a ver com todo esse negócio sujo?”

Então, ele chega à conclusão de que talvez perdesse o emprego ou não conseguisse mais as verbas da fundação para sua clínica e, provavelmente, seria criticado por não ter agido como um cientista.

“Mas talvez ele pudesse viver numa fazenda, talvez se tornasse um escritor ou pintasse algo que fizesse os homens mais felizes e livres”.


Tania Azevedo Garcia

Psicóloga, professora universitária, apaixonada por cinema..
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