salada cultural

Misturando cinema, história e música para ver no que dá.

Matheus Bastos

Jornalista e historiador. Interessado nas relações entre jornalismo, mídia, cinema, música e história nos diversos tempos e momentos. Cultura, política, filosofia e seus contextos sociais.

Bestas Sem Nação (?)

O filme Beasts Of No Nation tem gerado muitos comentários da crítica e dos espectadores. Como um filme sobre uma realidade de guerra atual os holofotes se viram. Mas será que o filme é realmente tudo que se especula? Esta é uma análise possível do filme, por isso contém spoilers sobre o enredo do filme, mas mesmo assim não contemplando todas as possibilidades de discussão sobre o filme.


beasts-of-no-nation.jpg O Comandante: personagem ambíguo que se divide entre mentor e vilão do filme.

Beasts of No Nation é um daqueles filmes que trazem sensações ambíguas ao espectador que possa ter certa noção ampla, ou pelo menos um conhecimento secundário sobre o tema. Mostrando de forma narrativa a vida de um jovem garoto que mora em um pequena aldeia (qualquer) da África, o filme nos conta a história de Agu, jovem menino como qualquer um que vive sua vida dentro de sua lógica familiar, seu pai, mãe, irmãos e vizinhos. Sua família nuclear é como qualquer família, buscando dar bastante proximidade para o espectador. Agu demonstra ser de cara nosso herói carismático, demonstrando logo em sua introdução um domínio de questões empíricas, resolvendo seus problemas com o que poderíamos chamar de “malandragem”, mas o que se contrapõe com a necessidade de demonstrar que Agu também acredita em Deus e toda a sua família vai a igreja. Em sua primeira cena fazem uma interação com a televisão que é uma alegoria gritante a tendencia de industrialização e disseminação da mídia e telecomunicações.

O filme tem uma fotografia muito bonita, que da vivacidade em cada cena e nas belezas locais. Agu vive um aldeia que está em território de guerra, e dia qualquer na sua vida surge o algo, o elemento grego, a chamada a aventura, que o tira de sua rotina. A aldeia de Agu será atacada pelo exercito rival (?) que agora rompeu relações diplomáticas com o exército que protegia a vila de Agu. Agu é separado de sua mãe e irmãos mais novos, que somem em definitivo da trama, ficando apenas com seu pai e irmão mais velho. Ao exército inimigo chegar a cidade seu pai e irmão são mortos pelo exército (que parece ser ocidental pelas fardas, mas onde todos os soldados são negros) e Agu acaba fugindo pra mata e ficando sozinho, nessa parte podemos notar a influência de Tarkovski no filme de 1962 "A Infância de Ivan".

Logo em seguida ele é encontrado por um grupo de guerrilheiros, que fazem parte da resistência local contra as tropas estrangeiras, e conhecemos o Comandante, o típico “paizinho” ou o encontro com o mentor. E aqui começam os problemas do filme, não que eles não se apresentassem antes mas aqui eles maduram e vale ressaltar o tipo de visão do filme. O filme faz um tipo de análise sociológica, o que se expõe na medida que nem o país, local, cidade da África que estamos falando são mencionados. É só um local qualquer da África..(come se a mesma fosse um país), dando a sensação de que “isto pode acontecer em qualquer lugar com qualquer um”. O problema disto é justamente pensar que o conflito abordado tem razões históricas com a forma como se desenrolou, por exemplo, em Ruanda. Mas poderíamos compreender e entender que é uma crítica geral a guerras.

Continuando o filme vemos logo exemplos de como o grupo que Agu está se propõe em vários pontos de forma negativa. Primeiramente no rito de passagem de Agu onde são feitos rituais de religiões de terra (ou ocultistas, o filme não deixa claro e faz tudo de forma bem alegórica) por onde passa o personagem, que lembremos é cristão e sempre fala com Deus em narração em off. A segunda parte do ritual é um corredor polonês de pauladas e quem desmaiar morre por ser fraco para o grupo. O filme mais uma vez mostra uma visão um tanto ocidentalizada em relação a cultura e religião locais. Prosseguindo vemos a primeira missão de Agu, cercar um comboio, seus colegas antes fumam maconha e cheiram pó. O que dá muito estranhamento em Agu, após a missão ser bem sucedida o Comandante vê que um dos homens do comboio sobrevive, e decide designar alguém para matá-lo, adivinhe quem ? Sim, justamente nosso herói, Agu. Agu logo o mata, mas antes de morrer o homem faz questão de dizer para o público “sou civil, estudante de engenharia, só vim consertar as pontes..” mas não funciona, e assim Agu completa o cruzamento do primeiro portal.

Uzodinma-Beasts-of-no-nation-set-ventures-africa.jpg O grupo de Agu com o autor do livro que inspirou o filme.

Daí se dá o processo de encubação na barriga da baleia, vive entre os soldados, cria laços outro menino que aparenta a mesma idade, que não fala e é conhecido como Strike. Logo vem a Aproximação e o herói tem seu momento de glória com seus “irmãos” ao tomarem uma cidade(qualquer, e que se me perguntasse diria que era a primeira, a própria de Agu). E em sua comemoração vem a nossa Provocação Traumática. Ao se encontrar com Comandante, Agu o nota conversar ao telefone se reportando, ou seja nosso Comandante tem o seu próprio comandante, a lógica do poder de Foucault se aplicaria totalmente aqui, onde todos exercem dominação, fugindo da lógica de opressor x oprimido e esse é um dos caráteres mais sociológicos do filme. Logo em seguida o Comandante leva Agu para o quarto prometendo dar uma surpresa para o mesmo mas só se ele "guardar segredo", a câmera já entrega o que ira acontecer...Antes o Comandante, obviamente, cheira cocaína e logo após abusa de nosso herói, e é aqui que o filme perde toda a sua veracidade e se torna apelativo.

A questão do abuso sexual infantil é um problema sério e que deve ser discutido pelo cinema, a questão é que o filme não faz isso. Ele cria uma mensagem moral de bem ou mal em cima dos personagens, onde Agu é nosso herói positivo, quase puro e vazio, o que se justifica inteligentemente no enredo pelo fato de ser criança. Mas o abuso de Agu não é para discutir qualquer abuso, é para criticar simplesmente o Comandante! Ao fim do abuso o filme foca diretamente no rosto de Strike, entregando que ele também passara por aquilo e tinha noção, dando sinal até mesmo que a sua falta de fala se dá, talvez, pelo motivo de não ter guardado o mesmo segredo. Agu fica traumatizado e seu “paizinho”, através da tragédia se transforma em farsa.

O elixir de Agu vem ao oferecerem-no cocaína, que ao provar faz Agu ver tudo colorido e matar pessoas sem hesitar, nessa sequencia outro estupro acontece no filme, dessa vez pelos soldados amigos de Agu que estupram uma mulher. Daí o filme enrola para mostrar agora a relação do Comandante com seu chefe, que é obviamente um político sem partido, negro e que vive em um casa luxuosa. O Comandante tinha aspirações de se tornar general mas as noticias não são boas, e seus chefe diz que ele deve assumir outro cargo e seu tenente irá assumir o seu pelotão. O Comandante trai seu tenente e o mata pelo poder. O Comandante leva seus homens para mata de novo mas logo o vemos traçar uma guerra perdida, e ficar desmoralizado pelos seus homens que decidem capitular.

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Eles se entregam ao exercito da ONU (pelos capacetes azuis mas que também são todos negros) e assim nosso herói volta pra “casa”, que no caso é um instituto (ou ONG) para jovens vitimas da guerra. Nisso temos a ressurreição do herói, agora largando as drogas, e regresso com elixir que é sua sabedoria, a qual ele demonstra para a psicologa que tenta conversar com ele, e na cena final com seus colegas. O filme faz uma visão totalmente ocidentalizada da perspectiva dos combates na África. Os indivíduos daquele país tem direito a sua nação e essa era justamente a causa da tropa do Comandante, mas sua causa está totalmente perdida em sua estrutura e possibilidade de vitória.

Não me surpreende ao ver que o filme é um realização norte americana, dirigida por um diretor que também dirige séries conhecidas para a televisão, e é adaptação de um romance homônimo de um autor, AO QUAL NÃO É ÁFRICANO. A história de seu livro foi sua tese de universidade, na tentativa de imaginar uma situação dramática. Ou seja por mais que saibamos que existam situações semelhantes que de fato ocorrem em disputas na África é uma visão estereotipada, que visa agradar o público médio que vai o assistir em casa, já que é distribuído pelo Netflix, e pensar “que bom que vivo em um mundo civilizado sem guerra”, mas não percebem os custos da civilização, e mais, não percebem que são seus próprios países culpados pela situação das guerras.

Uzodinma+Iweala+2015+Toronto+International+9WPvtpEGG-gl.jpg O autor do livro, Uzodinma Iweala, e o diretor do filme, Cary Joji Fukunaga

Com a ação colonizadora, pioneiramente da Inglaterra e seguida de outros países, na África nascem diferenças sociais, como a conhecida dos Tutsi e Hutus. Atualmente quem influencia fortemente nas disputas africanas é o próprio Estados Unidos, com sua agências de regulações mundias capitalistas, como a própria ONU ou o Banco Mundial. Não surpresa não vermos nenhuma crítica a nenhum exército exterior, seja ela positiva ou negativa. Não se sabe os motivos da guerra, e nem se precisa saber afinal o filme é pro civilização, pró cristianismo(como vemos até quando na escola do final do filme existem imagens no fundo do crucifixo e do papai noel) e pró Estados Unidos, onde as resistências locais da terra são um bando de degenerados que matam, estupram e se drogam. Amam a violência e oprimem seu próprio povo.

As cenas de ação tem um ótimo ritmo, com um estilo meio Coppola, a fotografia e a mensagem contra a guerra muito bonita dando ao filme, como um todo, um toque muito emocionante que pode dragar facilmente o espectador que se vê tocado com a mensagem. Mas sua construção de forma tendenciosa que faz desse filme praticamente uma propaganda da forma de pensar norte americana, preocupada com a civilização acima de qualquer valor tradicional. Muito interessante vermos um filme como esse em épocas de guerras constantes pela imposição da forma de pensamento ocidental (principalmente no Oriente Médio e na África), onde os inimigos são chamados categoricamente de terrorista, que seriam bastardos a serem combatidos, mas a pergunta que fica é: existem realmente “bastardos sem nação”? É possível que existam realidades de guerra construídas exatamente da mesma forma e sem mudanças decorrentes de seu próprio contexto histórico?

18212563.jpg Verdadeiras crianças Tutsi fugindo do confronto com os Hutus no genocídio de Ruanda, em 1994.


Matheus Bastos

Jornalista e historiador. Interessado nas relações entre jornalismo, mídia, cinema, música e história nos diversos tempos e momentos. Cultura, política, filosofia e seus contextos sociais. .
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