salada cultural

Misturando cinema, história e música para ver no que dá.

Matheus Bastos

Jornalista e historiador. Interessado nas relações entre jornalismo, mídia, cinema, música e história nos diversos tempos e momentos. Cultura, política, filosofia e seus contextos sociais.

Estrada 47: a cobra que fumou

O Cinema do Brasil não tem a tradição de fazer adaptações de fatos ou obras os quais possam se considerar não terem ligação com a cultura nacional. Estrada 47 rompe justamente com essa ideia ao abordar a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Esse Artigo é uma análise possível do filme, por isso contem alguns spoilers sobre o enredo do mesmo.


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Estrada 47 é um filme um tanto quanto surpreendente, até mesmo pelo fato de não vermos muitos filmes desse tipo com cunho histórico. Geralmente, vemos filmes históricos brasileiros ligados ao período colonial, ou da ditadura militar. A grande diferença de Estrada 47 é ser justamente um drama sob a perspectiva brasileira de um confronto global, o que de cara já dá um aspecto mais universal e inovador ao filme.

Antes de entrar, de fato, no filme, vale a pena ressaltar de maneira breve e simplificada o período histórico que se dão os acontecimentos da trama. O Brasil nos anos de 1930 estava sob o comando de Getúlio Vargas, que chega ao poder através de um golpe dado pela junta militar brasileira, que depõe Washington Luís e o coloca no poder, impedindo a posse do já eleito Julio Prestes. Isso é importante para que vejamos o ímpeto de autoritarismo pelo qual o governo brasileiro passava, e como que com Getúlio Vargas o país começou a se modernizar e industrializar. Como prova disso, temos a Semana de Arte Moderna, que acontece em 1922 (com todas as discussões por detrás da mesma), e o clássico registro cinematográfico de Mário Peixoto em “Limite” (1931), filme que demonstra de forma dramática a transição do filme mudo para o filme falado.

Com esse impulso de Vargas, o Brasil se projeta mais nas relações econômicas mundias, fazendo transações de importação e exportação, o que levou o país a se relacionar tanto com os Estados Unidos, como com a Alemanha. Vargas procurou, nesse período, adequar-se às praticas internacionais do comércio, tirando o melhor proveito do novo plano alemão de 1934 - baseado no protecionismo comercial. Com o inicio da Segunda Guerra, o Brasil tenta (ou pelo menos finge tentar) se manter neutro ao conflito, mas logo acontece o bloqueio marítimo decretado pela Inglaterra contra a Alemanha em 1940, e com ele o intercâmbio do Brasil com a Alemanha despenca, beneficiando os Estados Unidos e gerando descontentamento por parte do Brasil.

67789fa8-27d2-40d8-b2e8-98259eb7ad53_getulio.jpgGetúlio no melhor estilo gangster com uma pistola Lugar P08, pistola de fabricação alemã, criada em 1898 por George Luger.

Pouco antes, Vargas já notava que não seria possível não tomar partido perante a Guerra, e busca modernizar as forças armadas, objetivando a construção de uma usina siderúrgica para forjar armamentos, o que a leva em primeiro caso a se alinhar com a Alemanha através da firma Frieda Krupp A.G. na ideia de aquisição de armas. Ao mesmo tempo, aconteceu a Missão Aranha que acertou com os Estados Unidos a iniciativa de promover um processo de colaboração militar com o Brasil que tentava tirar o melhor que podia da situação internacional. E, por fim, a Alemanha ofereceu a usina siderúrgica ao Brasil, mas que pertenceria à Alemanha em território nacional, o que fez com que o Brasil se posicionasse ao lado dos Estados Unidos em um melhor acordo. Dessa forma, observamos a maneira imperialista do Brasil que - ao contrário da máxima que dizia "mais fácil uma cobra fumar cachimbo do que o Brasil participar da guerra na Europa" - planejou sua entrada no conflito e acabou entrando, de fato, em 1942, enviando soldados.

Vargas_e_Roosevelt.jpgGetúlio com Franklin Roosevelt, então presidente dos Estados Unidos.

A narrativa começa com um grupo desses soldados brasileiros nas montanhas cheias de gelo da Itália, onde o filme foi realmente filmado. Os soldados fazem parte do pelotão brasileiro encarregado de desarmar minas, onde logo no início já vemos dois sendo mortos ao tentarem desativar uma mina, mostrando o quão "prazerosa" é sua missão. De cara, nota-se a origem humilde dos soldados brasileiros em combate (tal como na realidade): Guimarães (Daniel de Oliveira), Tenente (Julio Andrade), Piauí (Francisco Gaspar) e Laurindo (Thogun). O Grupo se perde de seu pelotão e fica entre retornar para a posição anterior e ficar isolado, ou se reunir com o batalhão e sofrer algum tipo de penitência marcial. Nessa parte, sentimos a influência do primeiro filme de Kubrick “Medo e Desejo”, de 1953, que mostrava um grupo de soldados perdidos da mesma forma.

Ao se encontrarem com um soldado jornalista, também brasileiro, chamado Rui (Ivo Canelas), o grupo fica sabendo de uma estrada (a 47) que está tomada de minas, impedindo o fluxo. O grupo acaba por decidir desarmar as bombas, e assim se dá aventura e a interação das personagens. Nosso protagonista, Guimarães, é de longe a personagem mais sem graça da trama, um herói dramático, que fica grande parte do filme recitando as frases mais dramáticas a respeito da Guerra. Sua única profundidade se dá na discussão humana da perspectiva de um indivíduo religioso em uma guerra, mas o personagem acaba por ser igual a outros milhares já interpretados por Daniel Oliveira, que sempre dá o mesmo sentimento aos seus personagens e enfraquece os diálogos com o espectador que não acredita em seu drama.

A grande personagem da narrativa, talvez, seja Piauí, nordestino que dá toda perspectiva de contraste cultural entre uma regionalidade tipicamente brasileira e a perspectiva internalizante do confronto. Seus diálogos com Laurindo são espetaculares e engraçados, dando a sensação de relação conturbada na qual um julga o outro e demonstram até certo racismo, na qual a mensagem escondida é a de que numa realidade social normal, no Brasil dos anos 40, os dois sofreriam preconceito e seriam considerados minoria. Laurindo parece constantemente querer provar algo para alguém, e é de longe a personagem mais dedicada à missão do grupo.

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O grupo logo encontra Roberto (Sergio Rubini), soldado italiano desertor que se junta ao grupo como prisioneiro, e que foge de um grupo de nazistas que o haviam capturado. Personagem misterioso e que pouco diz sobre si, mas onde já se nota uma grande vaidade, pois ele precisa trocar de roupa antes de aceitar ir para a estrada. Logo após, na única cena de confronto real de todo filme, eles acabam por capturar o coronel Mayer (Richard Sammel), do exército nazista. Ferido, o grupo decide levá-lo como prisioneiro de guerra, fato que Roberto se posiciona totalmente contra, propondo a execução do mesmo por ser "só mais um nazista". Isso faz com que ele se separe do grupo, afirmando que os brasileiros não estariam prontos para a guerra, e sua máxima “Soldados de merda” ecoa, revelando sua vaidade e seu fascismo.

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Por último, vale ressaltar a melhor cena do filme: o grupo passa a noite em vários tanques abandonados na neve (tal como brinquedos que não são mais desejados). A cena mostra a interação de Piauí e Laurindo com o coronel Mayer. A cena é arrasadora em sua simplicidade no diálogo da troca cultural que acontece entre as personagens, a qual as humaniza ao demonstrar que ali todos tinham suas famílias, e que o coronel afirma ser "um absurdo estar em guerra contra o Brasil" (que tem tudo a ver com a visão do período histórico já abordado no inicio). E em seguida mencionando o grande craque brasileiro do Botafogo, Leônidas, o “Diamante Negro”, o que impressiona Laurindo, rompendo com seus próprios preconceitos. Logo, a língua já não é mais um problema, e ambos trocam informações sobre suas famílias, terminando com Laurindo embalando o diálogo ao canto de um samba. A cena humaniza totalmente as personagens de ambos os lados que, no fim das contas, parecem não terem nada que os diferencie dentro da perspectiva cultural, a não ser a construção do ideal nacionalista que põe nações uma contra as outras, de forma imperialista e interpessoal.

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O filme possui uma fotografia ótima, e um estilo de desenvolvimento da narrativa através dos diálogos que lembram muito os filmes de Bergman. Existem, também, influências de Kubrick como já dito mas, principalmente, influência de diretores italianos como Sergio Leone e Antonioni, na medida que busca dar uma suspensão desoladora e um suspense presente no estilo da construção das cenas: com pouca ação, muitos diálogos e um cenário muito bonito mas que dá a extrema sensação de vazio, como a cena final, por exemplo, na qual se vê todos os louros irem para os Estados Unidos, e a participação do Brasil é totalmente esquecida até mesmo pela sua sociedade.

Vicente Ferraz; que também dirigiu o ótimo documentário "Soy Cuba: o Mamute Siberiano", baseado no filme soviético “Soy Cuba”, de 1964, de Mikhail Kalatozov, (que buscava fazer um filme que unisse o comunismo da extinta União Soviética com da então recém feita Revolução Cubana) dirigiu esse ótimo filme nacional, que foge à regra de muitos filmes nacionais, e lança um produto positivamente inovador no quesito de narrativa e estilo de direção, que humaniza as personagens, critica a guerra e é bem fiel ao período histórico abordado. Em um mar de comédias românticas nacionais, recomendei esse filme a uma pessoa que me retornou afirmando que o mesmo era “viajado demais”. Curioso como nossa ideologia trabalha na frequência de grandes blockbusters, cheios de supersoldados, e quando vemos um filme, de fato, bom e humano, o menosprezamos.

feb-na-italia.jpgFoto da verdadeira Força Expedicionária Brasileira na Itália.


Matheus Bastos

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