salada cultural

Misturando cinema, história e música para ver no que dá.

Matheus Bastos

Jornalista e historiador. Interessado nas relações entre jornalismo, mídia, cinema, música e história nos diversos tempos e momentos. Cultura, política, filosofia e seus contextos sociais.

Que horas ela volta? e Black Girl: 49 anos de de igualdade e diferença

Como se sabe, Que horas Ela Volta tem sido bastante comentado (de forma positiva e negativa) desde que sua possível participação no oscar foi anunciada. O filme trata de uma questão polêmica que vai além dos problemas nacionais, que é a questão da servidão e de seu desdobramento na nossa sociedade moderna, porém essas críticas estão longe de serem novidade, demonstrando como o Brasil está atrasado no debate. Em 1966 o diretor e escritor Ousmane Sebene, do Senegal, dirigiu o filme Black Girl, que tem o mesmo tipo de crítica social e uma construção bem parecida com a de Que Horas Ela Volta, sendo sua principal diferença apenas os tempos das narrativas e suas peculiaridades. Este artigo é uma espécie de análise comparativa possível dos filmes, de fato que por vezes será necessário revelar detalhes sobre o enredo, mas não contendo spoilers sobre seus finais.


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Primeiramente, confesso que ao surgir a ideia de comentar tais filmes tive certo receio pelo que já vi ser comentado a respeito de Que Horas Ela Volta, de Anna Muylaert. O filme parece ter gerado bastante polêmica, e como tudo que segue por esse caminho, certa polarização entre “gostei x não gostei” foi gerada, e assim muitas especulações e comentários (muitas vezes injustos) surgiram. Parece que temos uma constante para a aparência, onde notamos só alguns detalhes, no lugar do conteúdo. Meu ponto é que não procuro aqui dizer se ambos os filmes (como demais filmes) são bons ou ruins, mas sim se são fiéis ou não a realidade social existente. Dessa forma procuro dizer que meu objetivo não é dizer se Que Horas Ela Volta é melhor que Black Girl, ou que é sua cópia, mas simplesmente notar suas particularidades e semelhanças.

Assim, que Horas Ela Volta conta a estória de uma empregada chamada Val, que veio de Pernambuco para São Paulo com o objetivo, tal como vários outros nordestinos, de conseguir uma vida melhor no centro da modernização, urbanização e industrialização, e assim deixando para trás sua família e sua filha Jéssica. Muitos consideram já isso um problema, existindo até mesmo campanhas xenofóbicas de levar indivíduos de volta para seus respectivos estados, mas sem considerar que justamente a industrialização, associada com o capital, tem justamente a ideia de deslocamento do trabalhador do campo para a cidade. Isso foi muito estimulado, principalmente em outros países, durante o século XIX.

Dessa forma, Val trabalha para uma família burguesa, que se divide entre o casal Bárbara (Karine Teles) e Carlos (Lourenço Mutarelli), e por último seu filho Fabinho (Michel Joelsas), pelo qual Val parece ter certo instinto maternal por tê-lo visto crescer. Val dorme e vive na casa que trabalha, o que por si só já é errado de muitas formas. A relação de Val com os membros da casa é fria e quase feudal, dando o traço bem típico do nosso passado colonial. Como afirmou Sérgio Buarque de Holanda, a forma de exploração do homem português se dá de forma familiar, diferença que se dá justamente pela sua submissão e resignação a igreja católica e ao sistema feudal, permitindo assim a forma primitiva de acúmulo de capital necessária para as expansões marítimas. Logo Jéssica (Camila Márdila) entrará na trama para causar a desordem (ou a ordem) na estrutura desenhada.

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Jéssica cresceu longe da mãe, que trabalhava para seu sustento e educação, e agora está na idade, tal como Fabinho, de prestar o vestibular. Por isso, vêm a São Paulo e fica na casa dos patrões de sua mãe para tentar o vestibular para arquitetura, mesma profissão de Carlos, que por isso se aproxima de Jéssica e desenvolve uma paixão ao melhor estilo Romantismo do século XIX, entretanto, que é resistido por Jéssica, que não se entrega a paixão dele e nem mesmo a de Fabinho, e assim não glamorizando nem um pouco sua situação. Como quem nota tal detalhe, Bárbara começa progressivamente a expandir seu autoritarismo, delegando cada vez mais tarefas e regras, para impor “limites” entre Val e Jéssica, e o resto da família. Bárbara sente inveja de Jéssica pela sua juventude e inteligência, assim, tentando por vários meios, diminuir Jéssica, dizendo inclusive que passar para a faculdade a qual ela objetiva poderia ser difícil e ela poderia não conseguir, como quem diz “você não tem capacidade pela sua origem”. Jéssica não cede a tais pensamentos, nem a nenhum outro propagado pela família, mostrando sua independência e noção de si mesma no mundo. Curioso como sua mãe, que já vive na lógica da servidão constante, sempre reage negativamente a resistência de sua filha, como se a mesma fosse subversiva ou rebelde, sempre pedindo desculpa pelos “erros” da filha.

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A cena máxima do filme é a da piscina, onde Fabinho e mais um amigo brincam na piscina e terminam por jogar Jéssica na piscina. Tudo não passou de uma leve brincadeira mas Bárbara não achou engraçado, pois vê Jéssica como uma extensão de sua empregada, esperando dela o mesmo comportamento e a mesma submissão à servidão de sua mãe, onde Val nunca teve permissão de entrar na piscina em todo tempo que trabalhou lá.

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A semelhança com Black Girl, filme de quase meio século atrás, se dá na medida que nossa personagem, Diouana (Mbissine Thérèse), é uma jovem de Dakar, no Senegal, que procura trabalho de empregada em sua localidade, mas não o encontra. Quando já prestes a desistir, encontra uma oportunidade de trabalho de babá na França, com uma mulher rica e branca, que a escolhe no meio da rua entre outras candidatas justamente pela sua submissão: enquanto as outras mulheres se projetam buscando a oportunidade, Diouana simplesmente observa calma e pacificamente, fazendo com que assim ela seja escolhida.

Com isso, Diouana sonha com seu futuro na França, entre compras, glamour e riqueza, mas logo percebe que seu papel e realidade serão outros. Seus patrões a contratam para tomar conta de crianças, mas as quais nunca estão lá, e quando não estão Diouana deve limpar a casa e cozinhar, sendo atribuído a ela novas tarefas sem nenhum ajuste salarial. Consigo, Diouana trouxe uma máscara tribal, a qual ela dá aos seus patrões de presente (que por sinal tem gosto por colecionar objetos tribais africanos), sendo pendurada na parede da sala principal. Esse elemento é muito similar ao conjunto de xícaras dados por Val a sua chefe em Que Horas Ela Volta, o presente exótico, cultural, que é aceito só pelas aparências e pela cordialidade. A diferença é que enquanto os chefes de Diouana penduram seu presente e o exibem em um jantar para seus amigos por ser exótico, Bárbara impede Val de utilizar seu jogo de xícaras na festa por serem baratos.

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Com as mãos a obra, Diouana começa o seu trabalho praticamente no exato momento que chega, inclusive não trocando suas roupas por mais “confortáveis”, sendo questão de tempo até imporem-na um uniforme de empregada. Quando as crianças, que ficam com o pai, aparecem pouco ficam com Diouana, mas em sua primeira interação com as mesmas, já vemos o filho mais velho dar um tapa na mão de Diouana quando essa estende-a para o cumprimentar. O patrão, conhecido apenas como Monsieur (Meu Senhor), pouco interage com a empregada, tal como Carlos de Que Horas Ela Volta. Porém, o silêncio de ambos é muito mais mortal na omissão. Suas indiferenças ao testemunharem os abusos das patroas com Val ou com Diouana são as partes mais realistas de ambos os filmes. Esses personagens representam a resignação calada daquilo que não compreendem ou não procuram entender, enxergam mas não querem ver, fazem como muitos em nossa sociedade.

Em Black Girl, o personagem de Jéssica é desempenhado pelo namorado de Diouana, que não tem nome, mas que não gosta da forma de submissão e sonhos de grandeza de sua namorada. Antes de sua viagem, ao verem juntos uma revista de moda, Diouana dá a notícia de sua ida para a França, o namorado recebe de mau grado e fica chateado. Diouana nesse momento se pergunta “por quê ele está chateado?” e nossa resposta vêm na montagem de cena, ao vermos que em uma das paredes de sua casa existe uma bandeira com o rosto de Malcon X.

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Em ambos os filmes, mais que uma questão de classes, vemos o problema do poder e da servidão, e como esses, por sua vez, interagem com as perspectivas econômicas. A isso Nietzsche chamou de “moral escrava”, ou “moral dos escravos”, que seria uma moral dos ressentidos. Como sua vida é voltada para a servidão de outros, quer transformar em força a própria fraqueza (renúncia, paciência, resignação). A impossibilidade de agir neste mundo que o leva a forjar a existência de outro, onde terá posição de destaque, ocupará lugar privilegiado, e ser figura eminente. Tanto que ambas as personagens buscam, em seu momento final, vingar-se de seus patrões cada uma a sua forma.

A discussão de ambos os filmes nos remete a questões importantes, como nos questionar se de fato abolimos a escravidão ou simplesmente a tornamos mais cor-de-rosa. Os indivíduos que não se atualizam no constante vir a ser da modernidade, são condenados a submissão e ao conhecimento limitado da realidade social. Ousmane Sebene traça um plano da realidade de subdesenvolvimento senegalês em relação a França da metade do século XX, utilizando métodos mais próximos do estilo cinematográfico da “Nova Onda”, onde vemos muitas alegorias e a forma não linear de narrativa. Por sua vez, Anna Muylaert (que bem provavelmente tenha tido influências de Black Girl) faz um filme bem mais popular e “acessível”, aproximando-se mais de diretores como Walter Salles. Toda situação pode ser vista como uma alegoria de novos tempos da sociedade brasileira, onde só agora (à partir do governo Lula) é possível para o filho de um indivíduo da classe trabalhadora poder cursar uma universidade com as mesmas chances que o filho da classe alta. É nessa mistura que vemos as semelhanças e distâncias de duas sociedades parecidas em suas estruturas, mas distantes nas suas próprias diferenças temporais e históricas, que em ambos os casos pode nos mostrar em detalhes simples do dia a dia nossa incrível capacidade humana para sermos pouco humanos.

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Matheus Bastos

Jornalista e historiador. Interessado nas relações entre jornalismo, mídia, cinema, música e história nos diversos tempos e momentos. Cultura, política, filosofia e seus contextos sociais. .
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