salada cultural

Misturando cinema, história e música para ver no que dá.

Matheus Bastos

Jornalista e historiador. Interessado nas relações entre jornalismo, mídia, cinema, música e história nos diversos tempos e momentos. Cultura, política, filosofia e seus contextos sociais.

Daises: As pequenas margaridas selvagens

Daises, ou "As Pequenas Margaridas", é um filme de 1966 marcado por um contexto de disputas políticas, no qual a Checoslováquia se encontrava em uma nova perspectiva econômica, política, social e cultural, principalmente pelo fim da Segunda Guerra Mundial e a expansão da União Soviética para os países da Europa Oriental. Este artigo é uma leitura possível, mas nunca total, sobre o filme, buscando estabelecer alguns aspectos sobre o período histórico e como esse influência amplamente no desenvolvimento de uma estética única, muito apropriada posteriormente por outros filmes e videoclipes.


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Daises é um filme interessante. Vários fatores realmente chamam atenção para o filme, e não somente a estética do filme, em conjunto com sua fotografia e montagem criativa. Em contraposição, o filme explora, de forma sutil, o contexto histórico de sua produção: foi feito na Checoslováquia (hoje República Checa e Eslováquia) em 1966, quando ainda estava sob tutela da União Soviética. A União Soviética havia, com o partido comunista nacional, dado um golpe na Checoslováquia em 1948, no evento que ficou conhecido como “Golpe de Praga”. O país perde grande parte de seus direitos de liberdade econômica (que mais interessava à União Soviética) e de imprensa, e é justamente isso e a sociedade sob o poder comunista que é abordado no filme, principalmente em suas tão amplas alegorias.

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O enredo, se interpretado de forma narrativa, é bem simples e se resume à história das duas irmãs: Maria I e Maria II. O filme começa com ambas sentadas, e uma mexe no nariz (remetendo a uma forma de normalização e padrão de comportamento behaviourista) e a outra toca um trompete (remetendo a censura), reclamando sobre não poderem fazer aquilo que gostam, e por isso decidem ser, como elas mesmo intitulam, “devassas”. Daí, as duas começam suas aventuras, que se consistem basicamente em romper com esteriótipos de comportamento, onde se nota uma possível influência da teoria de Michel Foucault a cerca da normalização. Elas costumam sair com vários homens, e costumam não gostar de nenhum deles, ignorá-los e os levar sempre no final a estação de trem (que parece ser uma alegoria para uma passagem para o Ocidente capitalista), enfatizando uma visão reversa a cerca dos esteriótipos machistas do cinema.

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Suas aventuras e brincadeiras costumam transitar entre uma dinâmica de peripécias e morbidez. O roteiro é alegórico e segue bastante a proposta de “barato audiovisual” das novas ondas do cinema, afinal faz parte da Czech New Wave, sendo o que de fato importa, a noção de liberdade das meninas, apresentada principalmente pela mimésis. Seus atos de “transgressão” são mais uma metáfora do real do que de fato uma obra narrativa, com algum tipo de moral. No período da produção do filme (1966) a União Soviética havia passado por um relaxamento das formas de arte, principalmente em detrimento da morte de Stalin em 1953, cargo que foi logo em seguida ocupado por Kruschev. Kruschev representava uma linha diferente do partido bolchevique (ligado à energia), e já no início de seu governo (1956 em diante), o ministério de cinema passa ser uma secretária dentro do Ministério da Cultura Soviético. Muda-se as leis para filmes do país e cria-se o sindicato dos cineastas.

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Novas formas de arte cinematográficas são assimiladas tanto dos novos países do Leste Europeu, que passavam a compor a União Soviética, quando de países da Europa como a França. Transformado a forma dos filmes, que eram marcados pela perspectiva do realismo soviético, passando principalmente pelo sentido vanguardista de cinema de Vertov, de planos gerais objetivos. Deleuze, afirma que “Vertov cria um agenciamento maquínico de imagens-movimento, um sistema de variação universal, um sistema em que todas as imagens variam umas em função das outras em todas as suas partes e em todas as suas faces.”

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Quando ocorre essa mudança, um novo grupo de cineastas, como Tarkovsky, ganham espaço e forma um novo tipo de cinema, ligado mais a perspectiva do indivíduo e da natureza. Entretanto, em 1965 Kruschev deixa o governo, que é assumido por Brejnev. Brejnev faz parte da linha do partido mais alinhada aos ideais de Stalin, e os direitos já concedidos começam a passar por tentativas de boicote. É nesse contexto que a diretora, Věra Chytilová, realizou o filme, que após o lançamento foi considerado pelas autoridades da Checoslováquia consideraram o filme como “depicting the wanton”, que traduzindo seria algo como “devasso” (será que tal classificação se dá só por que era uma diretora e não um diretor?). A diretora foi proibida de trabalhar em seu próprio país até 1975. Entretanto, apesar das dificuldades, seu filme teve uma grande influência no sentido estético, na utilização dos cortes dinâmicos relacionados às montagem; tanto no que tange os protestos do fim dos anos de 1960, tanto como influenciaria fortemente a estética dos videoclipes musicais, posteriormente.

Daises representa a crítica a própria crítica. O protesto ao sistema revolucionário, que ao se instaurar no poder, age por sua vez de forma centralizadora, impondo normas, formas de agir e de pensar, e até mesmo formas de estilo cinematográfico, onde a falta de normalização se contrapõe justamente ao construtivismo formalista russo de Eisenstein, como o realismo vanguardismo realista soviético, onde não existe uma forma mais certa (ou normalizada) para ser humano, onde a arte pode ser vivida tanto em seu sentido kantiano (pela elevação espírito), quanto pelo princípio humeano (empirista), sendo Daises justamente uma mistura dos dois: estética e mensagem.

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Matheus Bastos

Jornalista e historiador. Interessado nas relações entre jornalismo, mídia, cinema, música e história nos diversos tempos e momentos. Cultura, política, filosofia e seus contextos sociais. .
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