salada cultural

Misturando cinema, história e música para ver no que dá.

Matheus Bastos

Jornalista e historiador. Interessado nas relações entre jornalismo, mídia, cinema, música e história nos diversos tempos e momentos. Cultura, política, filosofia e seus contextos sociais.

Sopranos e a opinião pública: vilão, marginal ou herói?

Há muito, muito tempo atrás, em uma terra muito, muito distante, existia uma coisa chamada televisão. E mais surpreendente de tudo: as pessoas se divertiam com aquilo. E se divertiam de verdade. Por isso, quem produzia conteúdo nela parecia que realmente queria agradar o público. Remotos tempos medievais…


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Certo dia fui a uma psicóloga. Estava com problemas para conseguir dormir e achei que falar com alguém poderia ser bom. Fui até um bairro mais elitizado da minha cidade onde ficava o consultório da psicóloga. Chegando lá, desde a entrada do prédio até a sala de espera, senti uma sensação estranha; como se eu já tivesse visto aquilo antes. A atmosfera do lugar tinha um certo ar “soft” e “happy”, que te joga pra cima na marra: alá propaganda de margarina. Na sala de espera, uma televisão passando nada, como sempre. Existia também no ambiente algumas plantas ornamentais, e uma dessas pequenas decorações interativas: um quadradinho com areia, que possui uma pequena pazinha para jogar a areia de um lado para o outro. Entretive-me naquilo por alguns minutos enquanto esperava. Havia também uma pequena cestinha com balas e acabei pegando uma. Voltei a prestar a atenção nas plantas. Me aproximei de uma e, para minha surpresa, quando toquei-a descobri que era falsa. De repente a psicóloga me chamou, era minha vez. Começamos a conversar e contei sobre o meu problema para dormir: já faziam três dias sem dormir. Esperava que ela fosse me recomendar algum remédio que fosse me fazer apagar como bode bêbado e dormir com os anjinhos. Entretanto, a psicóloga disse que aquilo era normal, que eu não tinha nada, só devia entreter a minha mente. Ai eu perguntei para ela “mas você não acha que eu deveria tomar algum remédio e isso facilitaria tudo?”. E então ela veio com a frase clássica de psicólogo: “Por quê você acha que precisa tomar alguma coisa?”. Já sabia onde isso levava. Preferi não insistir. Perguntei então o que ela recomendava para entreter a mente. Ela me disse então para ver mais televisão, ou filmes e ouvir música. E para cada problema ou dificuldade pessoal que eu apresentava, ela afirmava que eu nada tinha e que isso era passageiro.

Voltei para casa estupefato. O que será que aquela experiência queria dizer? Decidi não contestar. Mas o problema da falta de sono continuava. Então decidi seguir seu conselho. Procurei alguma série que fosse interessante para baixar e assistir na televisão. E eis que me deparei com “The Sopranos”, ou como ficou no Brasil “Família Soprano”. A história gira em torno do mafiosão de Nova Jersey chamado Tony Soprano (James Gandolfini), que está tendo problemas ataques de pânico e desmaios. Invejei-o, pois se eu tivesse um ataque de pânico e desmaiasse, pelo menos resolveria meu problema de falta de sono. Seu problema começou quando um grupo de filhotes de patos selvagens vem parar em sua piscina.

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Como em quase todo produto cultural americano (filme ou série), a perspectiva da série é pautada no ponto de vista do personagem principal: Tony, e que também é o narrador da série. Muitas das coisas que acontecem na série, sabemos pela versão que ele mesmo narra para a psicóloga. Essa é uma questão importante para a série, pois a própria psicóloga suspeita das atividades de Tony logo de cara (“italo-americanos malditos, devem ser mafiosos”) e diz para ele que ela só não pode ouvir sobre algum tipo de crime pois ai ela teria que quebrar a ética de segredo médico-paciente e teria que reportar a polícia. Então Tony, sempre busca atentar em sua narrativa para seus problemas pessoais, principalmente com a família, tentando evitar sobre seu “trabalho”. Então, durante o piloto da série, ele busca se ater na temática dos patinhos que vieram para sua piscina. A verdade é que Tony se apaixonou pelos bichinhos. Tacava pão para os pequenos, que comiam regozijados e habitavam em sua piscina. O trauma vem do dia em que os patinhos finalmente aprendem a voar e deixam sua piscina durante um churrasco de família. E então bum! Tony desmaia com ataque de pânico, dizendo para psicóloga (enquanto narrador) que ele sentiu “borbulhas em sua cabeça”, sensação que eu, curiosamente, também sentia devido a minha falta de sono. Um clima no mínimo estranho para uma série sobre a Máfia. Patos, desmaios, psicólogos, churrascos…

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Mas de uma certa forma tudo fica claro no episódio quando vemos que em seu negócio, Tony media vários problemas de seus amigos do “sindicato”. Como se ele fosse, por sua vez, o psicólogo da Máfia, e durante o piloto já temos o problema. Tony não pode dizer, enquanto narrador, o teor de seus negócios, como já vimos, então resume seus negócios como cuidados do “meio - ambiente” e “tratamento do lixo”. O primeiro problema envolve o sobrinho impulsivo de Tony, Christopher, que é o mais novato da máfia e que sonha em ser roteirista de filmes para Hollywood. Ele tem que cobrar uma dívida de um acionista do ramo de saúde. Tony acaba tendo que o ajudar, e atropela o cara da saúde com seu carro, e quebra sua perna (o que é uma ironia). Em seguida, tem que resolver o problema seu tio, Conrado Jr.; o vanguardista da máfia que diz que toda a tradição se perdeu. Ele quer matar um opositor dentro do restaurante “Vesúvio”, que pertence a Artie Bucco, amigo de infância de Tony, que sempre recebe os membros da máfia de Tony, mesmo sua mulher detestando isso. Artie é um dos poucos amigos “neutros” e que admiram de fato Tony, chegando a dizer para sua mulher que Tony na verdade era um “líder trabalhista”. Tio Jr. matar alguém no restaurante de Artie sujaria completamente sua imagem e seu negócio que é o “point” da máfia. Não fosse o suficiente, Tony também possui uma mãe ranzinza que vive reclamando da vida e de todos; dizendo sempre que Tony não a ama, e que o grande homem da família era seu pai que era um “santo”.

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Curiosamente é só após vermos todas essas coisas que de fato Tony tem um ataque de pânico, sendo a partida dos patos durante o churrasco apenas a “última gota que falta para transbordar o copo”. Mas como dos demais problemas ele não pode falar com ninguém, tal evento tão pequeno e natural ganha proporções mortificantes para o protagonista. Tony tem de lidar com as constantes reclamações das pessoas: sua mulher, seus filhos, sua mãe, seus amigos…. Que no fundo não parecem falar realmente daquilo que os estão incomodando na realidade, mas das suas próprias demandas psicológicas, ou, como disse o jornalista Walter Lippman em seu livro “Opinião Pública”, estão falando das “imagens em suas cabeças”. Walter Lippman afirma que em pequenas e médias cidade, que passam por poucas tragédias ou mudanças sociais e que pouco mudam nos períodos entre paz e guerra, acabam tendo sua dinâmica social feita através das “imagens na cabeça das pessoas”, que nada mais seria do que os preconceitos e julgamentos mais escusos da sociedade, e que constituem aquilo que Lippman chamou de “esteriótipos”.

Entretanto, nessa altura da série comecei a me indagar “se o Tony não pode falar de seus problemas de trabalho com a psicóloga e já que seus problemas pessoais são apenas detalhes familiares, para que fazer análise?”. E então lembrei de uma questão apresentada por Bahktin “Marxismo e Filosofia da Linguagem”, que diz que a “consciência individual é um fato sócio – ideológico” e sendo assim a consciência, ou melhor a psicologia que busca trabalhar o indivíduo, é, na verdade, um signo; uma semiótica. Sendo assim, ela é feita através da luta de classes ou da assimilação social do indivíduo por grupo. De maneira que tal pensamento casa totalmente com o de Walter Lippman, já que a opinião, ou seja, a consciência, para ele é feita de imagens e esteriótipos e, sendo assim, não existiria um indivíduo e sim, uma “consciência individual” produzida e fabricada coletivamente através da “manufaturação dos consensos”. Sendo assim, se na sociedade em questão só existem julgamentos, preconceitos, corrupção ou moralismos, é quase impossível ao indivíduo (por mais santo e paladino que seja) não se contaminar com essas questões. Por isso então o indivíduo só pode ser livre quando assumir suas dificuldades, fraquezas, preconceitos e corrupções, e só então ele poderá ser líder e senhor de si mesmo. O que faz todo sentido histórico, já que o principal diretor de fotografia da série, Alik Sakharov, nasceu na antiga União Soviética tendo trabalhado tanto com Andrei Tarkovsky no filme “Pausa”, como também em séries como “Sex and the City”.

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Existem ainda muitos outros momentos marcantes e que fazem os telespectadores debater moralmente as questões éticas que acabaram de acontecer na telinha; tal como quando alguns personagens são racistas durante a trama, quando Tony tem de matar algum traidor, ou até mesmo momentos metafóricos como quando Paulie e Christopher tentam matar um russo em uma floresta remota e fria, acertam um tiro na cabeça do russo, e ainda assim ele foge, pega o carro dos dois e os deixa sozinhos para morrer no meio do frio (?) E após ver a série e refletir um pouco, lembrei de um pequeno ensaio que li na faculdade chamado “A Fábula das Abelhas” de Bernard Mandeville. Nesse texto, Mandeville faz uma prosa brincando com as vontades e desejos da sociedade e que vão formar a assim chamada opinião pública. Nele, Mandeville conta a história de uma sociedade corrupta, onde os políticos roubavam livremente mas ninguém percebia, pois a corrupção gerava a estabilidade dessa sociedade, e logo todos estavam felizes nessa sociedade hipotética. Porém, com o passar dos anos as pessoas tomaram consciência da corrupção de seus líderes, passando então a pedir a destituição e prisão dos políticos.

Quando essa sociedade finalmente consegue realizar seu desejo e os políticos corruptos caem, a sociedade enfrenta uma decadência econômica e moral; crescendo a criminalidade e a pobreza. De forma, que a moral e a virtude cristãs são semelhantes aos vícios, pois acabam gerando uma apatia estagnadora, onde a “abstinência do amor-próprio, é a morte do progresso”: são hipocrisias. E é essa a função de Sopranos para nossa sociedade, e de Tony em sua própria sociedade ficcional; se não há virtudes, não há vícios e vice-versa, e jogar um contra o outro nada mais é do que o combate às liberdades individuais, ao amor próprio e a ética. O ponto é: Sopranos é uma daquelas séries que já não se fazem hoje em dia. Tendo ficado no ar de 1997 até 2007 abordava pontos que hoje em dia seriam considerados heresia ou “ideológicos demais”. Em tempos sombrios e de exceção como os que vivemos no Brasil; de delações premiadas, perseguições e falta de ética, é uma série fundamental para passar o tempo e debater com os amigos.

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Matheus Bastos

Jornalista e historiador. Interessado nas relações entre jornalismo, mídia, cinema, música e história nos diversos tempos e momentos. Cultura, política, filosofia e seus contextos sociais. .
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