salada cultural

Misturando cinema, história e música para ver no que dá.

Matheus Bastos

Midiólogo e jornalista. Politizando a mídia para não midiatizar a política.

As Aventuras de Poliana, a ideologia paulista e a Revolução de 1932

Por Regina Leal,

Agora porque a novelinha do SBT, escrita pela mulher do Sílvio Santos segura todas as noites o segundo lugar(as vezes primeiro) isolado em audiência no horário? A família tradicional brasileira resolveu assistir a trama, ao passo que a hegemonia da elite liberal da Globo no ramo das novelas decaiu vertiginosamente. Nossa versão é parecida com a adaptação feita pelo anime, de 1986, para a Fuji TV, exibidora de animes como Naruto, Samurai X e Astro Boy


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O livro de 1913 de Eleanor Porter tem apenas o nome da personagem principal: “Pollyanna”. Na atmosfera do início do século XX, o crescer e se desenvolver passava pela observação de certos preceitos ritualísticos, tradicionais ou culturais que envolviam a definição dos estilos de famílias, educação e valores sentimentos traduzidos enquanto nacionalismo e consciência social.

O clima é de pré Primeira Grande guerra, e o naturalismo-realismo de obras como “As aventuras de Tom Sawyer” ou “As aventuras de Huckberry Finn” traduzem essa vontade de realismo fantástico que envolvem o universo da literatura, das artes, e da representação cultural.

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A visão da novela além de ser uma propaganda do ideário de progresso das elites paulistas, também aborda de maneira relativamente fantasiosa os conflitos urbanos, como medo de assalto, preconceito de classe e raça, mas de uma maneira bem desleixada por parte da novela, como no episódio que a coordenadora disse a Kessya que o racismo estava em “nossa cabeça”…. Deixando resvalar para o senso comum que é possível se tolerar o racismo e se “superar” dele.

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Mas o que isso tudo tem a ver com essa nova novela e pior ainda, o que teria de constitucional sobre Aventuras de Poliana? Apesar de a novela usar alternativas de marketing, como a estética de C.T.& T.I., para agradar seus consumidores como um produto capitalista e diário que, está lá bem no horário do jantar dos brasileiros, utiliza de estrutura conservadora, que apesar de abordar pautas progressistas como a migração, o racismo e o bullying, sempre reafirma aquilo que há de tradicional nas relações sociais, estabelecendo uma forma de diálogo e interação entre os personagens que sempre garante um certo “controle” entre quem pode, por exemplo, namorar quem e quem deve ficar com quem de uma maneira que não se choque a sociedade. Isso é notável no caso da tia de Poliana, que combina mais com o açougueiro, Afonso, apesar de, obviamente, estar destinada a ficar com o professor Marcelo no final.

São Paulo foi formada por uma construção social parecida com o estilo de colonização espanhola, como diria, Sergio Buarque de Holanda. A colonização no Brasil, tinha como objetivo apenas viver uma “curtição no litoral”, por isso, a população brasileira habitou primeiramente o litoral. Só que na América espanhola, haviam universidades administradas pela igreja desde muito antes, do que por exemplo o Brasil. A colonização de São Paulo, diferente de todo o Brasil e se assemelhando ao modelo da América Latina, centraliza suas cidades construindo-as através de praças centrais que expandem o território através de quarteirões simétricos em sua distância em metros, o que é inimaginável em cidades, como a do Rio de Janeiro. Esse cenário, propicia segundo o autor uma maior participação das elites econômicas na política, assim como o reconhecimento dessa elite pelas massas populares.

Existe uma certa máxima que define o paulista de esquerda como “católico, paulista e socialista”, isso quer dizer que o paulista ainda quando de esquerda, mantém em si os ritos e tradições da cultural bandeirante. Nada melhor exemplifica isso melhor que a doutrina dos jornais Folha de S. Paulo e Estadão, que apesar de vistos como de esquerda por alguns, representam os interesses do Estado.

No século XIX par ao XX, a mão de obra escrava é aos poucos substituída pelo imigrante e com ele a ideologia do americano, “de conquistar a américa”. Isso casava com uma ideologia do “american way of living”. O espírito de aventuras infantis, o uso da imaginação vinculada a espionagem, ciência e investigação criminal: começa a era da Guerra Fria. A cultura dos gibis, dos estudos culturais trouxeram uma realidade “do it yourself”, tornando capitalista ser de esquerda. O debate gira em torno das profissões. É como se a ideologia de esquerda se mantivesse com a roupagem da inovação nos debates.

A visão nesse sentido nos retoma a tradição do estilo de literatura de gênero de aventura (Robinson Crusué, Mark Twain) e um intenso amor hegeliano. O aleatório, o medo, explicam a necessidade de eugenia, separação e segurança dessas elites paulistas. Essa representação cria mitos como o do “tempo onde as crianças brincavam na praça”, como se elas já não brincassem. Mas antes fosse apenas mais uma produção caduca que exacerbada aos limites do possível através da vulgarização e sexualidade. Não, não! Estas são armas da Rede Globo, característica das elites do Rio de Janeiro, que por sua distância política do povo carioca, tenta se aproximar através de assuntos libertários. Poliana tem muito mais soft power do que isso e por isso é mais conservador, por entender que a elite deve falar olho a olho e dizer racionalmente porque ele, supostamente, seria superior: pela conservação da tradição.

O meu ponto de vista é observar como a novela poderia muito bem caminhar sem a vontade e ímpeto das vontades soberanas de Poliana. Poliana é uma menina de uma família da típica elite cultural e econômica. Uma herdeira da casa grande, que não olha a sua volta e percebe isso de maneira crítica. Por isso, busca “ajudar a todos” para tentar realizar alguma reparação, ou seja, para na verdade se ajudar e perceber que ela agora é rica também. Vale lembrar que apesar de “boazinha”, Poliana é mais rica que Filipa, que é a “mazinha”. Filipa também que irmã do personagem do 'heroi' do núcleo jovem, Guilherme, filho de um típico estilo CEO João Dória(Roger). Guilherme que apesar de rico, ora pois, quer ser pobre!

Invés de assumir aos amigos o “fardo do garoto branco e rico”, e ser sincero em suas relações, como muitos membros de juventudes, têm vergonha do pai, não por este ser meio de direita, mais obviamente elitista, ou por ser machista em relação a sua mãe. O problema é que nosso João Dória quer que o filho playboy(que tira más notas na escola) tenha orgulho da sua família. Na falta disso, Roger se revela um verdadeiro “tucano”, descontando em seus funcionários seus traumas familiares e assim reproduzindo uma moral fatalista. Afinal, a família, passou da transição do capital das artes, para o capital dos videogames; já que a avó de Guilherme é dona de galeria de arte e membro do comitê do laço azul (PSDB). O que torna pelo menos essa preocupação dele verdadeira. No final essa elite que quer ser pobre é muito difícil de engolir!

Ressalva ao melhor núcleo da novela: o núcleo da família de Kessya e Jefferson, composta pela mãe, Gleyce, e o pai, Ciro. Apesar de sofrer toda a sorte de absurdos na trama, que tensiona o racismo até um relativismo nocivo, também busca representar o que seria uma família de “resistência” popular na trama (por isso são os que mais sofrem). Nos últimos episódios da trama, Jefferson vem se sentindo ameaçado e coagido, mas nenhum momento se busca solucionar a questão de quem o ameaça. Se joga na trama como se fosse culpa dele ele ser ameaçado! Como um conto de fadas, ou a visão fatalista do destino do 'homem comum'. Esse plot é extremamente ideológico para revelar as intenções da novela ...

Poliana tem um jogo que se chama o “jogo do contente”, onde basta você entrar na ciranda, que todas os racismos, opressões e coisas ruins do mundo desaparecem. Porque se todos nós formos bonzinhos uns com os outros, politicamente corretos, apenas reproduzimos os preconceitos silenciosos das posturas, disse-me-disse e outros a prioris, tudo vai dar certo. O objetivo é claro: não apenas incentivar o pânico moral e a moral cívica necessária par uma emancipação liberal, reproduz também a maior arma das elites: o senso comum.

A escola de Poliana, onde ela foi parar pois perdeu os pais (que eram hippies andarilhos) e a educavam EM CASA (Por isso Poliana é meio bolsominion) e na estrada. Sem questionar o absurdo que é esse tipo de exposição para a formação da rotina e dos valores na interação coletiva. O Desafio para Poliana é se adaptar e realizar seu sonho de edipiano de passar pela mesma escola de sua mãe e também ser “especial”, “de elite”, “criativo”. Pois de fato, ela é o único personagem sem objetivo na trama.

O pensamento da educação liberal e das artes de São Paulo é outro detalhe elitista da trama, pois parecem que todos as crianças da novela devem estudar lá para “serem alguem”. São escolas como a escola Ruth Goulart que segregam alunos, apontam culpas incabíveis e incentivos o vínculo educacional a parcerias no estilo PPP, ligadas também a ongs e associações beneficentes, onde se concede bolsas aos alunos que forem apenas excepcionais. A recompensa que substitui o castigo precisa do fetiche da mercadoria, do valor de boas condições de capital social e cultural para que o sistema liberal educacional funcione. A educação para os outros, os pobres, aqueles do sistema público ensina apenas a obedecer cegamente os professores pseudo-técnicos, que remonta da época da ditadura militar, pois no fundo, não se estuda nada nessa escola.

Nesse ínterim, estilos educacionais que visam a psicologia, a autonomia, o bem-estar, a amizade. Ou seja, o mundo de Poliana é um mundo onde apenas os ricos podem ser de esquerda. Da mesma maneira, a editora Brasiliense(de Caio Prado Jr.) inicialmente era uma editora voltada para um público infantil, publicando como, diz Sérgio Micelli, sobre os paradigmas de campo e autonomia intelectual. Os primeiros comunistas paulistas eram como Caio Prado, filhos da elite do café paulista e desafiavam suas famílias com sua ideologia estrangeirada. Assim também são Luisa, Marcelo, Poliana. O esquerdismo dessa gente é literário, é fruto de sonhos caídos de Casa Grande abandonada. Como reflexo disso, a tia de poliana não lava uma louça e tem DOIS empregados em casa, mas ela reclama de problemas financeiros…

O surgimento do Partido Democrático no Brasil, também chamado de “partido da mocidade”, em 1925, sinaliza um rompimento dentro da própria elite paulista em relação ao tradicional partido republicano paulista. São Paulo tinha sido o palco da política durante a República Velha (1890 - 1930). Apesar do apoio fracassado dos democratas paulistas a Getúlio, São Paulo pegaria em armas em 1932. A Revolução é chamada assim pois era uma intenção discursiva jurídica constitucional de retomar o poder dos coronéis de São Paulo.

Essa narrativa de glórias do estado de São Paulo, fundando quase um novo nacionalismo dentro do brasileiro. Reforçando assim a ideia de São Paulo como um lugar libertador e de pessoas mais democráticas das que vinda de outras regiões do país (como do Nordeste, dado o preconceito representacional de Aventuras de Poliana na trama de João) mas que na verdade conservador do paulista, que faz arquétipo de tudo e a todos, afirmando o pânico com o estranho e o estrangeiro, dado ao exemplo de Luisa, tia de Poliana, que tem medo de sair de casa. Reforçando assim o espectro de superioridade de São Paulo perante os demais estados do Brasil, principalmente em relação ao Rio e ao Nordeste.

A questão histórica principal é entender que após uma série de desistências e renúncias dos “aliados” de Getúlio da Facção Mesquita, criaram, ou tiveram medo. Nisso gerou um processo de crise que abriu espaço para algumas horas de reivindicação cívica, que denotava a tentativa de São Paulo se dizer mais cívica, consciente, evoluída do que o resto do Brasil. Assim o candidato que representou a esquerda nas últimas eleições era de São Paulo… Assim como a candidata ao GOVERNO DO RIO DE JANEIRO PELO PT ter também sido alguém de São Paulo. Não surpreendendo assim a vitória do baixo clero da direita nos dois casos(Witzel e Bolsonaro), afinal era uma disputa entre direitas: elitistas versus capitalistas.

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A pergunta que faço é, será que seremos um pouco malandros ou seremos todos sempre polianos?


Matheus Bastos

Midiólogo e jornalista. Politizando a mídia para não midiatizar a política..
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