salada cultural

Misturando cinema, história e música para ver no que dá.

Matheus Bastos

Midiólogo e jornalista. Politizando a mídia para não midiatizar a política.

Blackkklansman: Infiltrado no PSL...e na Klan

Filme se inspirou em vida real de polícial norteamericano, contada no livro "Black Klansman" de 2014. Para os brasileiros, serve para refletir aspectos da política contemporânea e os confrontos entre a esquerda colorida e a direita trash


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Um colega meu chegou e me disse: “Vou me infiltrar no PSL do Bolsonaro”. Tomei um susto de primeira, pois meu colega é mais de esquerda do que eu. O objetivo? Simples: aprender a linguagem e a forma de interagir do bolsonarismo para então apropriar esse “estilo” para a esquerda. “Não vai dar certo” disse eu categoricamente. “Por quê?” lançou ele. Então respondi que não ia dar certo pois assim não existiria oposição política: se os dois candidatos são exatamente iguais e utilizam a mesma linguagem então não tem como reconhecer quem é oposição. Mas ele não me escutou e foi mesmo assim.

Então, me disse ele, que conseguiu entrar no diretório do PSL através de um contato seu na faculdade que era do ….PSOL. Me espantei: “como assim cara, eles não são de esquerda?”. Aí ele me explicou que “acontece do PSOL realizar políticas sociais em bairros mais pobres na cidade, só que diferente das políticas dos partidos de esquerda, como o PT, que quando chegam ao poder estabelecem políticas para amplas parcelas da população com programas institucionais, a política de ajuda social deles é algo mais de bairro, de associação dos moradores. Por isso, essas políticas não conseguem ajudar a todos ao ponto de conseguir mudar a visão dessas pessoas sobre o mundo e sobre a política. Então o PSOL, tinha ajudado um homem que era morador de rua, dando assistência a ele, dando fundos, e arrumando um emprego para o homem. Pensei “Poxa bacana”. Mas aí ele continuou dizendo que “o homem depois disso, assumiu posição crítica aos governos do PT, por não o terem ajudado, passou a ser Bolsonarista e se filiou ao PSL, e esse seu colega do PSOL ainda mantinha contato com o homem e me passou o WhatsApp do cara”.

Apesar de eu estar estupefato com tal situação, fiquei muito curioso para saber aonde aquilo ia dar. Então ele continuou dizendo que tinha entrado em contato com o homem e passou a ir nas reuniões do PSL. Mas no fim, ele ficou decepcionado a perceber que o PSL não possuía um conjunto de pensamento, e que seus debates se resumiam ao anti-petismo.

“Se o PT é a favor, soy contra”, sacam?

Ele ficou frustrado pois logo as reuniões do PSL eram algo meramente prescritivo, e não havia tanta frequência em reuniões assim: era mais sobre um acordo em comum, um aperto de mão, e tchau! Quando a frustração é a única motivação política, é difícil canalizar elas em torno de algo pois elas se sentem inferiorizados. Então meu amigo me disse que não conseguiu descobrir nada do PSL, quando mais da linguagem do PSL, pois nem mesmo há uma real aglutinação entorno do PSL. É mais uma “mentalidade”. Concluiu dizendo que seu colega do PSOL o havia convidado para um evento que iria discutir o neofascismo nos Estados Unidos, e que ele achava uma boa forma de talvez aprender a linguagem do fascismo, para então barrá-lo.

A história do meu colega me lembrou o filme "Infiltrado na Klan"(2018), de Spike Lee, e que está concorrendo ao Oscar. Na verdade, não sei se meu amigo estava tirando uma comigo e se estava contando na verdade o plot do filme, ou se o filme que teve a perspicácia de analisar o contexto ao qual vivemos.

Quando assisti Infiltrado na Klan(2018), nada me chamou mais atenção do que a descrição nos primeiros minutos de uma realidade, que apesar de retratar os anos de 1970, parece muito com o nosso momento. Isto porque já de início vemos que o protagonista, Ron Stallworth, dividido entre duas perspectivas: a de ser policial e a de ser negro. A doutrina da separação dos poderes do estado, cultivado por países ocidentais como os EUA, faz com que profissões como o policial, o jornalista, o médico, e o advogado, sejam constantemente marcados por um código de ética que indica que esses profissionais devem exercer um saber cívico na sua profissão, logo sua missão é como do cidadão, ou como uma responsabilidade na sociedade: uma responsabilidade com a democracia.

Por isso, Ron sempre tenta ser o policial mais responsável possível. Mas isso é sempre frustrado e desestimulado por seus colegas do departamento de polícia do Colorado, que tiram sarro de Ron por ele ser funcional e querer fazer tudo certo. Ao mesmo tempo tendo de enfrentar o racismo aberto de seus colegas, que acreditam por racismo escancarado que negros que fazem tudo correto não existem ou estão tentando fazer uma piada. Isso frustra Ron, pois ele sente que age em prol das instituições e da lei, e seus colegas e chefe, reconhecidos como a própria polícia pelo filme, debocham de sua própria função por seus gostos e desejos privados serem mais considerados que os interesses públicos.

Ron então recebe uma missão: de se infiltrar no grupo dos Panteras Negras, para identificar potenciais riscos e aglutinações para realização de ações e atentados. Ele se infiltra em um evento em uma boate, onde um palestrante do movimento negro, vindo de outro Estado ia discursar. Quando começa o discurso, obviamente como em filmes anteriores, a visão de Spike Lee é um tanto cínica com esse tipo de evento. Enquanto diretor negro que foi pra universidade estudar cinema, Spike Lee deve ter visto todo tipo de racismo sendo destilado pela esquerda norte-americana.

Mas nesse filme em particular, algo de diferente acontece: conforme Ron escuta a pregação apaixonada do militante, que lembra o aspecto protestante dos discursos de Martin Luther King, ele se emociona. Isso pois Ron se sente no dilema: quer ajudar a sociedade sendo policial, mas sofre um racismo que não sofre no movimento negro. Ron continua indo as reuniões, mas não como policial, pois na primeira vez já relata para seu superior que esse o movimento negro fala em tomar o poder, mas só praticava o amor e por isso Ron é estimulado a buscar outro grupo a se infiltrar. Ron continua a ir pois se apaixonou por uma integrante do grupo, que ele começa a ter um caso.

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Nisso, um dia, Ron está lendo um jornal na delegacia de polícia e acha um anúncio convidando pessoas que estavam revoltadas e frustradas com a sociedade americana a buscarem a (KKK – Klu Klux Klan), uma ceita que se identifica como membros diretos dos templários e dos homens do velho mundo (Europa), e assim se consideram w.a.s.p(white, anglo saxon, protestant).

Ron decide ligar para o número e fica surpreso que ele de fato foi atendido por alguém da KKK. Ron entra no diálogo por telefone se fazendo de branco racista, imitando inclusive o jeito de falar do sul dos EUA. Sua imitação choca os colegas da delegacia, por representar entre a perfeição e o escarnio as coisas e a linguagem de um racista. Ron fica tão emocionado ao descobrir que para falar com um racista era só buscar o lado “golden boy protestante” que todos na América temos, que acaba dando seu nome real ao homem, e marca uma reunião de contato para ele entrar na Klan, o que eles na verdade chamam de “A organização”.

Quando se dá conta que deu seu nome real, Ron entra em um dilema: como ele, policial negro, vai se infiltrar na ...Klu Klux Klan? A solução é dada então pelo colega de Ron, que é um policial judeu não praticante. Esse parceiro de Ron vai então em seu lugar, se apresenta como sendo o verdadeiro Ron e assim entraria na Klan, só que para isso depende de que ele aprenda com Ron como falar a linguagem de um racista.

Essa relação da linguagem no filme, lembra bastante as teorias de Chomsky e de Stuar Hall. Chomsky costumava fazer uma defesa de que a linguagem se desenvolve em relação com o homem como uma forma de aparato, de ferramenta, onde a linguagem, seus símbolos e suas representações são alvos de um controle feito via jornais, televisão, rádio, sistema educacional e etc que disseminam apenas o “senso comum”, para assim ter um controle da economia política daquilo que as pessoas, fazendo assim uma manufaturação do consenso. Logo, uma maneira de desestabilizar o capitalismo seria dar conta dessas formas de codificar a linguagem para dar conta de um pensamento que pudesse, ao menos, construir uma sociedade mais igualitária. Hall falava de um processo de codificação e decodificação que é tipo do jogo do capitalismo. Na produção social das notícias dos jornais, por exemplo, os jornalistas são orientados a seguir um código, um formato e uma métrica, e isso só fortaleceria a sectarismo da sociedade, e estimulando aparatos de repressão a população.

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Após passar pelo treinamento, o parceiro de Ron se infiltra na KKK. Ele descobre que na verdade os membros da Klan fazem parte do grupo para na verdade terem um grupo para “ninguem mexer com eles” e escuta de um dos membros que só entrou pro grupo porque sua mulher foi estuprada e ele queria justiça. Outro membro, obviamente está ali por ser um desajustado social. E na verdade todos eles são representados como desajustados sociais e (white trashs), como aqueles colegas que conhecemos na escola.

O filme explora constantemente essa questão da linguagem e da autenticidade de grupos segmentados. Por isso, Spike Lee, de maneira irônica, faz uma montagem de um antigo líder falando no movimento negro sobre um antigo caso de linchamento de um homem negro, e ao mesmo tempo a sequência transita para o falso Ron passando pelo ritual de entrada na KKK. Essa cena impacta porque tudo que a visão movimento negro narra, e com razão, causa uma espécie de ódio, remorso, impotência. Chama atenção na cena a cadeira do líder negro remeter a uma cadeira da época colonial. Enquanto as coisas na KKK se dão se uma maneira não ritualística. O ritual é um falso ritual, e logo em seguida vão todos ver o filme que é considerado um marco do racismo contra os negros americanos: O nascimento de uma nação(1915), de Griffith.

A provocação é conhecida nos manuais que debatem as técnicas de cinema, pois Griffith e sua técnica de montagem (onde a cena que vem a seguir acrescenta sentido a cena que acabou de ser vista) inspirou clássicos do cinema comunista soviético, como em Encouraçado Potemkin(1925), de Eisenstein. Isso levou a falsa concepção, durante muitos anos da Guerra Fria, que os comunistas eram autoritários e fascistas pois não aceitavam liberdades individuais, como direitos gays ou pautas de raça. É de certa maneira uma generalização, pois o próprio Eisenstein em seus escritos criticou a visão de Griffith, mas a pedra foi lançada pelo filme e é um bom debate na medida que na visão de Spike Lee sobre a sequência parece demonstrar um lado muito cínico da política em toda América: o movimento negro reivindica coisas certas, possui uma boa ideologia, mas por ter uma relação tão grande com a memória e a utopia, acaba indo pras universidades e se aburguesando para fugir do sofrimento, e logo racismos estruturais, ou seja, que se reproduzem pelo sistema capitalista ser excludente, são condenados. Já na Klan, a ideologia é podre e vil, mas na medida que é algo meramente retórico nunca se configura na realidade, sendo mais uma revolta com a falta de dinheiro e oportunidades educacionais que acabam formando uma lógica de grupo. Ou seja, a ideologia pode andar de maneira descontínua com a condição financeira e de classe, justamente pela falta de identidade em comum, feita na verdade pela mídia que, como dissemos, busca codificar em nichos as perspectivas, fazendo com que em crises os grupos acusem os outros pelo fracasso da nação

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É por isso que na visão do filme, a Klan não é o mais racista da sociedade. Klan seria aquele seu tio fracassado, aquele colega de escola que não conseguiu passar na faculdade e teve que entrar no mercado de trabalho, para pessoas presas na tradição. Tanto que o policial amigo de Ron pouco se importava em ser judeu, mas quando teve que negar sobre pressão o judaísmo, não conseguiu mais parar de pensar em tradições e ritos. O setor que seria mais racista da sociedade, seria o próprio sistema capitalista, associado com a ideia de democracia liberal.

Nessa visão, a sociedade não pode se tornar um campo de guerra política a cada processo eleitoral ou de troca de regime. Por isso, países como Estados Unidos, sempre criaram aparatos de (check and balance) para “mediar a democracia”, e assim que exista uma centralidade e uma constância na sociedade. É assim que a polícia moderna é desenvolvida, assim como a imprensa, o judiciário, e o sistema educacional: através do culto da neutralidade, ou seja, do senso comum.

E se alguém desconfia que o setor mais racista do filme é o sistema capitalista, reparem que nenhuma pessoa da KKK é presa durante o filme, nem é desarticulado o grupo que Ron investiga. Mas na conclusão quando Ron vai impedir um atentado, e vai prender uma mulher branca, policiais chegam na hora e impedem Ron, isso porque tudo que eles viram foi um homem negro em cima de uma mulher branca que pedia ajuda, e mesmo dizendo que era polícia, Ron é agredido e algemado, sendo solto apenas quando seu colega policial (branco) chega na cena. Também, no fim do filme, a vemos uma montagem ao estilo documentário mostrando as eleições de 2016 dos EUA, fazendo a associação de que Trump e Hillary eram falsos opositores, que tiveram apoio da polícia reprimindo os movimentos, e a mídia disseminando fake news para criar um cenário de instabilidade, onde tudo seria mentira e existiria apenas uma verdade: a do capitalismo contra os pobres (de direita ou não) e os direitos dos civis (dos negros, mulheres e demais).

Infiltrado na Klan porque é da polícia, a maior Klan que existe.

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Matheus Bastos

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