salada cultural

Misturando cinema, história e música para ver no que dá.

Matheus Bastos

Jornalista, fotógrafo e midiólogo. Politizando a mídia para não midiatizar a política.

Quiz Show e a CPI das fake news

Será que na CPI das Fake News no Brasil, onde já se pensa chamar do youtuber Felipe Netto, Bruno Gagliasso, passando por celebridades e críticos de cinema, e onde Eduardo Bolsonaro(amigo de Steve Bannon) comemora a convocação da presidenta nacional do PT, Gleisi Hoffman, como se fosse culpada; não corre o mesmo risco de ser midiatizada e virar nosso Quiz Show?


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Há pouco tempo, vi um filme bem conhecido por estudantes de jornalismo e jornalistas, que é o filme Quiz Show (1994). Dirigido por Robert Redford, que é mais conhecido no Brasil como ator de filmes como “A Última Fortaleza” (2001), o filme conta a história do programa de televisão “Twenty One”, programa de perguntas e respostas sobre conhecimentos gerais e patrocinado por um tônico chamado Geritol. Passando-se nos anos 50, época de ouro da televisão, o filme retrata a era dos programas de perguntas e respostas, que faziam a sociedade americana parar todas as noites em frente a telinha. Começamos acompanhando Herbie Stempel, um judeu participante do programa e que há semanas vêm acertando as perguntas do programa, conquistando assim o carisma e o afeto daqueles que assistem ao programa.

Só que como nem tudo que reluz é ouro, os patrocinadores do programa (representados ironicamente por Martin Scorsese) se enjoam de Herbie, já que os pontos de audiência apesar de bons haviam “congelado”. Por isso, a produção do programa pede para que Herbie erre de propósito, e diz qual é a pergunta exata que Herbie deve errar, no momento certo do programa. Herbie passa algum tempo do filme se questionando se deve errar e chega a parecer que ia realmente continuar tentando. Mas a grande questão é que todo o programa é uma farsa, e Herbie recebia as perguntas que iam ser feitas pelo programa antes das gravações, então Herbie mesmo que acertasse a pergunta em questão, não havia nenhuma garantia de que continuaria acertar as perguntas. Também pelo fato de Herbie ter um certo sonho de ser famoso e não querer se queimar com a mídia, provando que mesmo ele não é um personagem totalmente inocente.

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Herbie então decide errar, e quando o faz ao vivo no programa, surgi seu desafiante e substituto, o escritor e professor universitário, Charles Van Doren, e ao errar Herbie vê os efeitos da opinião pública nos olhos da audiência: ninguém mais o olha, nem lembro que está ali e que acabou de errar, apenas que há o novo vencedor para o qual olha fixamente, em plano muito bom feito pelo diretor da face da plateia.

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Então, Van Doren passa a ser o queridinho da América, e os espectadores que se reuniam para jantar em frente a televisão assistindo a Herbie, agora o assistem e com muito mais gosto, já que Van Doren é muito mais bem-apessoado que Herbie, sendo visto como um homem de letras, intelectual e belo. Um verdadeiro democrata. E é essa uma das genialidades do filme ser baseado em fatos reais: Van Doren realmente existiu. Ele era filho de uma tradicional família literária. Seu pai ganhou o Pulitzer na categoria “poesia”, sua mãe era romancista e seu tio historiador, enquanto o próprio Charles era professor da Universidade de Columbia (onde o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre foi recebido e sua teoria amplamente estudada) e além de bacharel em Artes Liberais, mestrado em Astrofísica(lembra alguém?) e doutorado em literatura inglesa.

Mas apesar de todo conhecimento e preparo, Charles Van Doren também recebe as respostas e aceita o fato de todo o programa ser armado, e logo sua participação acaba por ser um pouco gritante na perspectiva do filme, pois dentro da estrutura do filme, a narrativa sugere que Van Doren é uma farsa, e que na verdade seu status de “intelectual” é proveniente de ser descendente da elite americana e que o sistema universitário americano, valoriza mais a fachada do que estudos realmente científicos. Logo, por isso é necessário um programa de mídia fake, para divulgar um intelectual fake: bem-vindo a manufaturação do consenso.

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Falta só mais um personagem nessa trama. Aquele que desvendará a farsa. Richard N. Goodwin. Para explicar quem é Goodwin, reproduzirei aqui um trecho de uma crítica escrita por Sérgio Augusto, feita na Folha de São Paulo em 1995, época de lançamento do filme: “O verdadeiro herói da história chamava-se Joseph Stone. Foi ele quem primeiro investigou as suspeitas de fraude no programa "21", abafadas por um juiz. Redford optou pelo vitorioso: Richard N. Goodwin, jovem advogado a serviço do governo, que reabriu as investigações e levou-as até o fim. Goodwin não destruiu o prestígio da televisão, mas conseguiu banir do ar, por uns tempos, os "quiz shows" de cartas marcadas. Uma das virtudes do filme é não fazer de Goodwin (Rob Morrow) um santo. Ele é tão ambicioso e sedento de status quanto os seus adversários. Aliás, não há vilões nem heróis muito nítidos em 'Quiz Show."

Sérgio Augusto estava certo, e isso é notável nas cenas que vemos Goodwin interagir com Van Doren, onde apesar de saber de toda a farsa, admira fortemente o estilo de vida democrata do intelectual e seu carisma, afinal de contas Richard Goodwin se tornou famoso também por escrever os discursos presidenciais de políticos do Partido Democrata, como Kennedy e Lyndon Johnson (esse responsável pelo golpe militar no Brasil em 1964).

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Sua ambição não o faz ver os rumos que sua investigação está tomando, e quando finalmente decide entregar todo o caso ao Congresso dos Estados Unidos, convocando tanto Herbie para depor (que tira risadas da plateia por ser considerado paranoico e conspiratório) e também convocando Charles Van Doren, que fica no dilema se conta toda a verdade ou não na CPI. Porém, quando decide falar toda a verdade, Goodwin percebe que diferente de Herbie que era escarneado pela comissão por ser judeu e “engraçado”, Charles ao revelar todos os seus erros é elogiado pela sua coragem e compromisso com a verdade, e os fotógrafos começam a disparar. Aí Goodwin que finalmente percebe o que tinha ocorrido perante seus olhos: a CPI do Congresso havia se tornado o próprio Quiz Show, buscando não resolver o caso, mais elogios e destaque político na mídia. Tanto que Charles Van Doren apesar de demitido de Columbia pelo caso, é lembrado hoje por muitos como o “intelectual que teve coragem de expor todo esquema”.

Será que na CPI das Fake News no Brasil, onde já se pensa chamar do youtuber Felipe Netto, Bruno Gagliasso, passando por celebridades e críticos de cinema e onde Eduardo Bolsonaro(amigo de Steve Bannon) comemora a convocação da presidenta nacional do PT, Gleisi Hoffman, como se fosse culpada; não corre o mesmo risco de ser midiatizada e virar nosso Quiz Show?

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Link da matéria Folha: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/3/10/ilustrada/11.html

Link para o filme: https://culturacomlegenda.org/fcl/quiz-show-a-verdade-dos-bastidores-quiz-show-1994/


Matheus Bastos

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