salada cultural

Misturando cinema, história e música para ver no que dá.

Matheus Bastos

Jornalista e fotógrafo. Politizando a mídia para não midiatizar a política

15 de Novembro ou como Escrevemos a História do Brasil

Por Regina Leal,

– Afinal de contas, o que foi melhor para o Brasil, Monarquia ou República? Hoje foi um dia de relembrar um fator histórico: a proclamação da república, feita por Deodoro da Fonseca e militares já descontentes com a abolição da escravatura, foi um golpe. Mas o nosso Ministro da Educação, Abraham Weintraub, que faz parte de um governo republicano, deu sua opinião de que a monarquia era melhor. Seria mesmo? O debate se instaurou nas redes entre celebração e repúdio ao “golpe”. De que lado estamos aqui?


frei caneca.jpg Reprodução da execução de Frei Caneca

A data de 15 de novembro é marcante como um ponto de virada, era a primeira vez que nos colocaríamos como república. Nas escolas a data é celebrada como o fim da barbárie monárquica e o começo da modernidade. Como também historiadora, quero pensar que para além de escolher algum lado, devemos pensar, por exemplo, na questão do Nordeste. Se teve um primeiro processo de independência e republicano, foi no Nordeste, na chamada: “Revolução dos Padres”, onde Frei Caneca foi morto, mesmo com receio por parte de seus algozes em cometer o sacrilégio contra a igreja, mas fizeram de qualquer maneira.

Confederação.jpg Imagem retrata a Revolução Pernambucana, movimento em resposta a Constituição da Mandioca, que outorgava alqueires específicos de ganho de produção como condição ao voto

Entre muitos debates, é interessante notar que as opiniões se dividem entre ser a favor ou não da celebração. A república foi de fato um golpe militar para impedir que depois da abolição da escravatura(1888), os antigos escravizados virassem cidadãos e eleitores. Fato evidenciado por Mary Del Priori ao mencionar a formação da "guarda negra" que protegia a Princesa Isabel. O clima nas ruas era de intensa contradição. O povo mais pobre começou a ganhar as cidades, e a República foi feita de cima para manter os interesses de antigos senhores de escravos, furiosos com essa "terceira via" monárquica. O que faz com que estudiosos comecem a estudar que através do higienismo e da política de eleições monitoradas e do voto do cabresto, foi diminuída a participação popular e instituída da segregação racial no território nacional. É assim que se forma a resistência dos chamados grupos “liberais” que lutaram contra a monarquia, e que por fim, resolveram apoiar sua remoção. Mas melhorou a situação popular depois disso? Não, o que levou a um forma de saudosismo monárquico, da lógica da troca de favores.

Mas quando pensamos que em 1822, quem declarou a independência do Brasil, fez porque queria manter o Brasil unido enquanto território único, alguns movimentos como a Revolta de Felipe dos Santos, a Inconfidência Mineira e a Revolução Pernambucana seriam fatores a se ponderar sobre o início das ideias republicanas e independentistas.

barbara de alencar.jpg Bárbara de Alencar, heroína nacional vinda do Crato que proclamou a independência republicana

As forças motriz desse progresso vinham das cidades e com a abolição da escravatura, encontraram novos inimigos. Agora o problema deslocava-se das explicações raciais, da “hecatombe social” e eram verticalizadas para uma visão científica. No sertão a colônia de Canudos era vendida aos jornais de São Paulo como “monarquistas fanáticos” que queriam alterar o progresso do litoral e voltar com a monarquia. É assim que começa o discurso difundido em muito no Rio de Janeiro e em São Paulo sobre o “messianismo nordestino”. A primeira Constituição brasileira (outorgada em 1824 que continha o dispositivo do Poder Moderador), gerou conflitos junto a imprensa, que era censurada pela monarquia.

A Confederação do Equador juntou rebeliões no Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba contra centralismo monárquico português em território nordestino. Já em 1817, houve uma proclamação da república feita pelas mãos de uma mulher: Bárbara de Alencar (que é minha parente por linhagem maternal) e também avó do grande escritor e senador pelo Partido Conservador no Rio de Janeiro, o José de Alencar.

O cortiço Cabeça de Porco  Crédito Bilbioteca Nacional do Rio de Janeiro.jpg O cortiço Cabeça de Porco / Crédito: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

Pereira Passos (um Eduardo Paes da época), não pode mais ser considerado normal, e também sua ideia de expulsar os pobres como uma coisa "natural" para a "ordem e o progresso". Mas a pergunta latente é, podemos apoiar a monarquia como fez o Ministro? De forma alguma...

Vamos à História e assim veremos que as divergências e ideias como a abolição da escravatura, república e participação de um povo local dito como verdadeiramente brasileiro é o pano de fundo de todas essas revoltas. Elas têm sua origem no debate sobre a autonomia da esfera política no Brasil. A valorização dos movimentos sociais enquanto lembrança do ideário republicano apenas ganhou força quando a monarquia, pressionada por forças internacionais como a Inglaterra, perdeu seu apoio dos cafeicultores da elite. Assim se deu a formação do Partido Republicano Paulista em 1873, partido ligado ao grupo ultra conservador de São Paulo. Agora eu pergunto, o que fez as oligarquias apoiadoras do governo central do Rio de Janeiro apoiarem com tanta veemência um ideário já tão sedimentado em outra época, antes mesmo da nossa independência. A resposta está na formação e modernização de uma elite de proprietários de terra do sudeste, junto a uma insipiente burguesia cosmopolita que se formava tanto no Rio de Janeiro, quanto em São Paulo. Em 1889, elas já não precisavam da monarquia para nada. Mas diferente do que se pensa, esses republicamos mantiveram o domínio de praticamente todos os aspectos arcaicos antigos da monarquia e aprimoraram alguns outros. É o que o sociólogo Luiz Werneck Vianna compara com a Modernização Conservadora feita de maneira semelhante e também de cima na unificação da Alemanha por Bismarck.

Por isso que os militares que eram nacionalistas, que se alinharam a formação de linhas politicas dentro da própria UDN(a chamada corrente da UDN democrática) e antes,quando ainda eram jovens revolucionários, como o meu bisavô, fundaram em 1932no nordeste o PSD(Partido Social democrático) e o Clube de 3 de Outubro para lembrar a coluna que depôs a república velha. Como também faziam parte Demócrito Rocha, Juaréz Távora. Era o tenentismo.

Na formação desse ideário de rebeldia contra as autoridades também faz parte a Revolta do 18 do Forte de Copacabana, ocorrida por conta de um racha nas forças armada em decorrência da eleição de Arthur Bernardes.

18 do forte.jpg Jovens militares(tenentes) desafiavam a hierarquia da própria estrutura do exército.

Deve-se tomar cuidado com interpretações maniqueístas que passam a sensação de "evolucionismo histórico", e nos ater que há uma briga entre poder centralizado contra a regionalidade e a cultura local. Pois afinal o Partido Republicano, foi fundado em São Paulo, ou seja, no Sudeste. Ou seja, estamos falando de uma nova burguesia que se juntou com as forças mais conservadoras das oligarquias. Uma modernização conservadora, ou o início daquilo que chamamos de populismo no Brasil. Se é para comemorar a democracia e o republicanismo, viva então a verdadeira primeira proclamação da República brasileira: a Revolução Pernambucana!

proclamação da republica.jpg Representação da proclamação da República Velha e seus líderes


Matheus Bastos

Jornalista e fotógrafo. Politizando a mídia para não midiatizar a política.
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