salada cultural

Misturando cinema, história e música para ver no que dá.

Matheus Bastos

Jornalista, fotógrafo e midiólogo. Politizando a mídia para não midiatizar a política

446 de Niterói: Cidade, Identidade e Cultura

Por Regina Leal,

Hoje, no dia 22 de Novembro, se comemora o aniversário de nossa cidade natal: Niterói. A cidade é a única do país fundada por um nativo brasileiro, ou seja um índio. A data carrega alguns orgulhos, mas também inúmeros desafios. É importante pensar na cidade enquanto um “lócus de memória da nacionalidade Brasileira”. Por isso, este não é um texto apenas sobre Niterói, mas sim sobre o quanto Niterói influenciou na construção de nossa identidade nacional.


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Quando eu era criança, na escola, pediram para fazer um trabalho extra sobre a história de cidade. Eu fiz como uma pequena revista e comecei a copiar e colar tudo que eu via e lia sobre a cidade. As poucas coisas que eu sabia antes, apareceram como um mundo mágico nessa minha pesquisa, pesquisa de uma menina de 10, 11 anos. Estava procurando sobre história do século XVI, mas não sabia que era tão antiga e mágica nossa história. Fui na época na biblioteca Anísio Teixeira, onde passei boa parte da minha infância no Campo de São Bento, estava eu mesmo dentro desse lócus, mas não sabia que aquilo já era uma ultra alteração do que era a cidade originalmente. Mas o que importa era que eu me sentia parte de um local. Que a cidade que parecia feita apenas para nós, niteroienses, que sempre aqui estiveram e que depois de sucessivas ondas, perdeu-se em grande parte o encanto original da cidade, infelizmente. Mas isso tudo também foi resultado de muitas mudanças positivas no sentido de inclusão, em alguns aspectos.

Falar de Niterói não remete apenas ao século XIX, quando a maioria das cidades brasileiras estavam começando. Muito pelo contrário. É no século XIX, que a cidade começa a se abrir e ganha imigrante brancos(italianos, alemães e ingleses), que povoaram as regiões como Santa Rosa, Icaraí e Itacoatiara. É nessa época que a pequena província(de 1834-1984) ainda adjunta com Itaboraí e São Gonçalo ganha contornos mais românticos, como também idealizados e elitizados. A construção de uma classe média que trabalhava nas antigas companhias como a Leopoldina Railway e a Companhia Inglesa de Telégrafo. Assim começou o velho conto de fadas de que Niterói seria o paraíso do IDH(índice de desenvolvimento humano). Mas é nessas condições também que a elite econômica se afasta das raízes indígenas de Niterói.

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Literatura e identidade nacional no século XVI fazem parte já de uma proto-gênese da nossa cidade, pelo menos enquanto ideia. A instauração de um Governo Geral viria muito depois da primeira nau abarcar na costa de 'Porto Seguro'. O primeiro ciclo de literatura nacional seria de uma descrição através de cartas de nativos e do encontro entre os portugueses e eles. Como a famosa descrição de Pero Vaz de Caminha. As primeiras lendas de unificação seriam de Diogo Álvarez(O Caramuru) e Paraguaçu. A utopia de uma igualdade inspirada por uma produção literária sobre esse 'novo mundo'. Também se forma como um sinal da aliança entre empreendimentos privados, Igreja e o Estado para descoberta e colonização e novas extensões. Mesmo com uma História que remonta ao século XVI, o Brasil não tinha uma população independente formada. A maior parte eram de tribos indígenas, como os Tupis e os Guaranis. A população interessada no estilo de comércio de empresa colonial eram apenas dos “lançados” portugueses e haviam poucas mulheres portuguesas. Apesar de toda essa história mais romântica e literária, frutos de cartas e romances, o Brasil era governando em regime de “Governos Gerais e das capitanias hereditárias”. Os problemas nacionais, como a escravidão e a composição populacional, as molas de análises sempre pontuadas, tanto por nós, como também pelos tantos viajantes, desde Hans Staden, Meyer, Jean De Léry.

Por exemplo, o livro " O Guarani", escrito por José de Alencar, foi inspirada na história do fundador da nossa cidade: o Araribóia, batizado no catolicismo como Martim Afonso. A obra foi adaptada por sua vez por Carlos Gomes para uma ópera, que fez parte do primeiro ciclo de explicações sobre o Brasil. No livro há um tom regionalista, que explicaria em grande estilo a visão conservadora mas também regional e original de Jose de Alencar. Apesar de "conservador", esse tipo de descrição foi chamada por Antony Giddens de “liberalismo popular radical”. Com um pouco de anacronismo, seria essa visão onde nativos e pobres não são salvos por uma ideologia estrangeira, mas geram eles mesmo sua própria ideologia, algo de recusa e novo em suas ações, através de conversões épicas e de, claro, muito amaciamento literário e descritivo do verdadeiro cenário da época e principalmente, do que logrou posteriormente para os habitantes originais da cidade. Para José de Alencar, a explicação do nacional passava necessariamente pela mitologia indígena e da formação do tipo nacional ideal. Na visão de José de Alencar, os indígenas forneceriam o material original e especial, o índio para ele seria puro e belo. Na mistura das raças, o guarani é o encontro do homem indígena (Peri), com uma mulher branca(Ceci). E aqui está a questão de identidade nacional esquecida de Niterói: os símbolos que formam os totens da nacionalidade brasileira, são representações da cultura e do fundador de Niterói Araribóia, onde o maior símbolo disso é a Voz do Brasil no rádio que até hoje reproduz o Guarani de Carlos Gomes.

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É que na época da República Velha marca-se o começo da diferença entre os Republicanos Conservadores e os Progressistas. Feliciano Sodré, que representava os Conservadores, onde sua estratégia não era a política ideológica, mas sim amortecer o carácter predatório da centralização em torno da cidade do Rio de Janeiro. Já os Progressistas, como Nilo Peçanha, valorizavam por exemplo a educação da população. Tanto que o colégio público mais tradicional da cidade leva seu nome: Liceu Nilo Peçanha. Nilo foi o primeiro presidente mestiço(ou pardo) do Brasil, e que tentou cursar Direito da Faculdade Nacional(UFRJ), mas logo viu era impossível para alguém como ele enfrentar o elitismo educacional do Rio. Também enfrentou a oposição dos Conservadores, o chamado “grupo de Petrópolis”, que por grande burburinho político, tentaram tirar a capital da nossa cidade. Então ele se mudou para Recife e concluiu o curso de Direito por lá, mas acabou voltando para o Rio e se tornando Presidente. Faziam parte dessa legião dos “fluminenses”: Nilo Peçanha, Alberto Torres, Lopes Trovão, Silva Jardim.

Já em 1922, temos a criação do Partido Comunista (o PCB), criado no bairro de São Domingos em Niterói. A cidade de Niterói passa a ser celeiro cultural e paisagem para diversos elementos, arquétipos, tipos ideais do perfil nacional. Vejamos o exemplo das fotografias de Marc Ferrez e dos românticos de locais como a Ponta da Areia, hoje em dia, reduzido ao atual Caminho Niemeyer. O bairro da Ponta da Areia, que era o cenário de fundo tanto do livro "Lucíola" e também de “A Moreninha”, esse último conhecido pelo senso como primeiro romance brasileiro. Mas pensando que era um cenário conhecidamente romântico por natureza eque abriga até hoje uma forte influência da cultura do pescado, hoje em dia, bem menos.

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Voltado para História, para explicar a fundação de Niterói é necessário pensar o período da História Moderna e as perseguições religiosas na Europa. Os franceses que aqui vieram para Niterói, tentaram implementar a França Antártica, sendo esses expulsos por serem protestantes huguenotes. Só que lembrando, que a cidade já possuía um fundador que era foi Arariboia, que pertencendo a um ramo tupinambá, dos Temiminós, se opunha aos índios da região profunda do Espírito Santo e que eram aliados dos Franceses, os Tamoio. Nicolas Durand de Villegagnon com o projeto da França Antártica, se associou com inimigos históricos dos temiminós de Arariboia. Para entender mais sobre a cidade podem procurar o livro da historiadora Maria Ferreira de Morais "Niterói Poder – A cidade centro político".

Mas é nítido que com o passar dos anos, cada vez mais Niterói se tornou uma cidade turística, dormitório e sem empregos, e esse processo é antigo. Antiga capital do estado fluminense, Niterói foi capital imperial e depois passou a ser um grande local de batalhas políticas. Na República Velha, a política na cidade tomou dianteira, então o “prefeito” de Niterói, era como o “governador” das cidades do entorno de Niterói, e como naquela época, o Rio de Janeiro era capital do país, quem governava o Rio de Janeiro, governava o Brasil, que depois da construção de Brasília se emancipou com a criação do estado da Guanabara. Quando que isso mudou? Quando que a cidade sorriso apenas começou a sorrir para burguesia? Durante a ditadura militar, foi construída a estátua de homenagem a Araraboia, como uma apropriação feita pelo regime do carácter civilista que poderia ter esse personagem. Ajudado por jesuítas, sua tribo encenou uma peça de Anchieta na inauguração da primeira Igreja, o núcleo duro do povoamento era a região de São Lourenço dos Índios. Então a ocupação existência indígena por mais que tenha sido apagada, dizimada, colocada para debaixo de panos e museus, é uma coisa viva e pulsante, pulsante nos milhões de habitantes hoje em dia de tapumes e favelas, que sabem muitas das vezes mais sobre a história local do que um habitante médio, comum das classes abastadas de Icaraí.

Com perdão do desabafo, penso em um trabalho que traduz minha angústia de mudança e desencaixe: “Os Estabelecidos e os Outsiders” de Norbert Elias. Esse livro fala sobre a Inglaterra dos anos de 1950, mas o exemplo é parecido. Quando aconteceu a tragédia do Morro do Bumba em Niterói, os moradores do morro tiveram que se contentar em se mudar para São Gonçalo apos perder tudo que tinham. Mas as portas continuam arregaçadas aos novos ricos e sem ideologia.

Depois da mudança nacional da capital para Brasília, que fez obviamente o Rio de Janeiro virar a capital estadual após 1975, com todos os empregos e serviços indo para lá junto, permanecendo aqui apenas alguns resquícios. A cidade que era conhecida como “cidade dos jornalistas”, hoje é cidade dormitório e intensamente especulada por um comércio de oportunidade que não se mantém e constantemente e abrem falência. A cidade agora é dominada por grupos satelizados, defensoras de discursos de ódio e segurança pública, na máxima do “bandido bom é bandido morto”, reclamam constantemente do governo da cidade, mas são os mais contemplados por suas políticas. Entretanto Niterói ainda é a cidade sorriso, mesmo que esse sorriso esteja meio amarelado nos dias atuais.

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Matheus Bastos

Jornalista, fotógrafo e midiólogo. Politizando a mídia para não midiatizar a política.
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