salada cultural

Misturando cinema, história e música para ver no que dá.

Matheus Bastos

Jornalista, fotógrafo e midiólogo. Politizando a mídia para não midiatizar a política

O Ministro da Verdade: Factcheck UK e a manipulação de Johnson do debate público

O ato do Partido Conservador faz soar um alerta para a total fluidez da manipulação e mudança sistemática de caracteres, ícones e símbolos no processo de manipulação, que tornam a fabricação da verdade e da mentira facilmente mutáveis, manipuláveis e instáveis. Isso permite desde dominar a política, até deslegitimar o pensamento científico e definir quem está dentro e fora do jogo do poder institucional, ou seja, quais vozes podem ser ouvidas e quais delas devem ser silenciadas.


Factchecking uk.jpg

No primeiro debate para primeiro-ministro do Parlamento Britânico, ocorrido há dois dias na emissora britânica ITV, um fato chamou a atenção. O Partido Conservador, do atual primeiro-ministro, Boris Johnson, mudou o nome, foto, e capa de sua conta de assessoria de imprensa no Twitter para “FactcheckUK”, e de maneira distorcida, começou a checar o debate em tempo real a favor de Johnson e deslegitimando as falas de Jeremy Corbin, candidato do Partido Trabalhista ao cargo.

A escolha do Twitter é óbvia: seu sistema de Trending Topics permite ver as coisas mais comentadas no momento da rede social. Isso permitiu que a estratégia dos Conservadores desse certo: através de uma plataforma que se apresenta como defensora da “verdade” e não de um lado da disputa política, possa assim parecer mais legitima para estabelecer seu ponto de vista, de maneira que soe “neutra” em manipular o debate público.

A estratégia é de uma genialidade malévola, a qual Jack Dorsey, CEO do Twitter, que quer proibir propagandas políticas na plataforma, não conseguiu prever. O problema vai muito além. Tal caso vai na contramão do senso comum sobre qual seriam as melhores práticas políticas nas redes sociais e qual o tratamento específico que deve se dar a questão das fake news. Até então, a maioria das pessoas considerava que a melhor forma de se combater as fake news era através de agências e plataformas de checagem, especializadas e autorizadas por órgãos de certificação para tal serviço.

factcheckUK 2.jpg

Para quem me acompanha, sabe que já havia denunciado as práticas da International Fact-Checking Network (IFCN) da Poynter, pelos serviços prestados principalmente no Brasil e Bolívia, onde aqui começaram suas ações em 2015 e apenas um ano depois Dilma foi impedida, e lá na Bolívia, depois da primeira eleição que participaram acontece um Golpe de Estado. Apenas para que tenhamos noção, a IFCN é uma espécie de think tank submetido ao Instituto Poynter de Estudos de Mídia. A Poynter é proprietária do jornal Tampa Bay Times, e possui parceria com o Centro de Políticas Públicas da Annenberg, da Universidade da Pensilvânia, e com a Fundação John e James Knight. James Knight foi um jornalista e militar que durante a Segunda Guerra Mundial atuou no Escritório de Censura dos Estados Unidos em Londres, projeto para ocultar informações sobre a produção da bomba atômica. Para mais informações, deixarei no final desse artigo um link para minha pesquisa de conclusão de curso onde analisei tal caso.

Só que dessa vez não foi um serviço da IFCN, e sim uma livre apropriação da técnica e estética da plataforma, feita por parte dos Conservadores. Isso faz lembrar uma questão sobre a internet: ela é tal como um ecossistema, com sua própria ecologia. A adaptação, apropriação e liberdade fazem parte de sua natureza. Se alguém quiser mudar seu nome, foto e etc a qualquer momento, a rede permite isso. Mas e se isso for utilizado como arma eleitoral na guerra política, quais serão os limites?

Só no famoso livro e filme inglês 1984, escrito por George Orwell em 1949, vimos um cenário semelhante. Na trama, após uma espécie de “Terceira Guerra Mundial”, os governos entraram em estado de “alerta geral”, dentro de uma paranoia persecutória. A vigilância governamental onipresente, estimula a manipulação da opinião pública e da História. Para isso, criam uma nova língua, a novilíngua, que retira palavras associadas a acontecimentos e sentimentos sociais específicos, e as substitui e acrescenta por outras. A sociedade é organizada pelo partido, “Ingsoc” abreviação de Socialismo inglês(socialismo e não trabalhismo), que é divido entre a elite dirigente e privilegiada, o Partido Interno, e o Grande irmão voltado para a propaganda e emoções das massas, ou Partido Externo. O poder e ações do governo são orquestradas em ministérios: O Ministério da Fartura, que manipula os dados e números para que o governo pareça bom; o Ministério do Amor, que mantém a Justiça e a Segurança Pública, que espiona os costumes e práticas da população; e por último o Ministério da Verdade, que se ocupa em manipular a opinião pública através das notícias, entretenimento, falsificação de documentos, fatos históricos e etc.

Ministério da Verdade.jpg

Porém, a principal atividade do Ministério da Verdade é a repressão dos “crimes” de “duplipensar” e “crime de pensamento”, que são fortemente reprimidos com sequestros e torturas. No caso, esses crimes se resumem a qualquer forma de produção de pensamento e produção intelectual que fuja dos arranjos institucionais e governamentais. Tanto que o protagonista da trama Winston Smith, é fortemente reprimido por se apaixonar por uma colega de trabalho e manter um diário de anotações sobre seus sentimentos por ela. As famosas teletelas são a cereja do bolo. Exploradas recentemente até pela série Black Mirror, são telas similares a televisões instaladas nas casas, que passam notícias e propagandas pró-governo 24h por dia, não podendo nunca ser desligadas, e possuindo câmeras ocultas que espionam a casa das pessoas, lembrando em muito a relação que as pessoas possuem nos dias atuais com os celulares e redes sociais.

teletela.jpg

A forte dramatização e pessimismo literário de Orwell só não permitiu prever a relação de fluidez entre emissor e receptor no processo de dominação: as pessoas querem ser vigiadas e vigiar. É essa a essência da formação do consenso do que é verdade e da manipulação do debate público. O ato do Partido Conservador faz soar um alerta para a total fluidez da manipulação e mudança sistemática de caracteres, ícones e símbolos no processo de manipulação, que tornam a fabricação da verdade e da mentira facilmente mutáveis, manipuláveis e instáveis. Isso permite desde dominar a política, até deslegitimar o pensamento científico e definir quem está dentro e fora do jogo do poder institucional, ou seja, quais vozes podem ser ouvidas e quais delas devem ser silenciadas.

Você pode até pesquisar a verdade e ter intenções sinceras de melhorar a política e a sociedade, mas essa verdade dos fatos é substituída pela verdade dos sentidos, sentimentos e sensações instantâneas e momentâneas. Por isso as pessoas confiam no fact-checking. Dá a sensação de que estamos seguros e alguém vigia verdade para você. Mas se pensarmos de novo, veremos que nenhum veículo brasileiro deu a notícia da manipulação do debate britânico.

conservatives.jpg Internautas britânicos fizeram memes e piadas com o caso

Links úteis:

Notícia do caso:

https://www.independent.co.uk/news/uk/politics/election-debate-tory-fact-check-uk-twitter-boris-johnson-corbyn-a9209816.html

Para saber mais sobre Fake News e Fact-Check:

https://www.academia.edu/39972111/You_are_Fake_news_O_denuncismo_no_jornalismo_brasileiro_e_as_ag%C3%AAncias_de_factchecking_nas_elei%C3%A7%C3%B5es_2018


Matheus Bastos

Jornalista, fotógrafo e midiólogo. Politizando a mídia para não midiatizar a política.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Matheus Bastos