salada cultural

Misturando cinema, história e música para ver no que dá.

Matheus Bastos

Jornalista, fotógrafo e midiólogo. Politizando a mídia para não midiatizar a política

Profissionais da Crise: guerra híbrida, agências e o golpe na Bolívia

A Bolívia sofre um golpe depois da primeira participação das agências de checagem em suas eleições. Eis que fica a pergunta: seriam as agências internacionais de checagem de fatos realmente veículos que combatem as notícias falsas ou são como a equipe de marqueteiros de “Nossa Marca é a Crise(Our Brand is Crises)? Ou seja, não seria as agências uma forma de Guerra Híbrida, onde dizem defender o profissionalismo, a democracia e a ideia de liberdade, mas vivem na verdade de propagar o caos e a crise nos países?


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De uns anos para cá, filmes sobre processos eleitorais se tornaram populares. Além do filme chileno, No (2012), que retrata o referendo feito para decidir se o país continuaria ou não sob a ditadura de Pinochet, onde o “No” era para sair do regime militar, mais recente, teve o filme “Profissionais da Crise”(2015), estrelado por Sandra Bullock, que retratava uma equipe de marqueteiros americanos que vão a Bolívia para assessorar a campanha do liberal e social-democrata, Pedro Castillo. O filme é um remake narrativo do documentário “Nossa Marca é a Crise(Our Brand Is Crisis)”, de 2005, retratando a intervenção da empresa de marketing político 'Greenberg Carville Shrum', nas eleições de 2002, entre Gonzalo Lozada e Evo Morales, dando a vitória do pleito a Lozada, que como estratégia usava os famosos colares de flor na cor rosa, para passar a ideia de paz e pureza.

O documentário, explora as táticas "sujas" da social-democracia norte-americana em manipular a população com ideias estrangeiradas de liberdade, contra a candidatura de Evo que é mais regional e popular. Já o filme narrativo, é muito mais romanceado, focando nas festinhas dos marqueteiros gringos em território boliviano e mostrando Evo como um populista fanático e Lozada, que teve o nome trocado para Pedro Castillo, como um benevolente social-democrata americano. No final do filme, como na vida real, Lozada ganha as eleições, e por mais que prometesse durante a campanha não acionar o FMI(Fundo Monetário Internacional) para pedir empréstimos, essa é sua primeira ação como presidente, levando o povo as ruas para protestar, e onde a personagem de Sandra Bullock hipocritamente adere aos protestos no final do filme por “arrependimento”.

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Voltando para a realidade de nosso ano de 2019, houve então eleições na Bolívia entre o agora presidente Evo Morales contra Carlos Mesa, que no contexto das eleições de 2002 e do documentário Nossa Marca é a Crise era o vice-presidente de Lozada. Curiosamente, no dia 1° de junho de 2019, o projeto internacional das agências de checagem de fatos, a Internetional Fact-checking Network (IFCN), começou seu projeto de checagem de fatos na Bolívia, o “Bolívia Verifica”, para supostamente combater a “desinformação nas eleições”.

A 'Bolívia Verifica' segue o padrão das agências de checagem brasileiras: não checam a mídia ou as fake news, mas sim a fala de políticos. Em seu site, só existem 19 checagens, e a única sobre Evo diz diretamente que ele mente. As classificadas como verdadeiras, são aquelas que legitimam os agentes do golpe que está em curso na Bolívia, tal como “É verdade, a polícia de Cochabamba se revoltou” ou “Devido a irregularidades, o relatório preliminar da OEA recomenda novas eleições”. A mesma OEA(Organização dos Estados Americanos), que agora apoia a ruptura democrática e a ação dos militares, que assim instalaram o golpe de Estado e sucessivas ações com claras violações aos direitos humanos no país. O diretor do projeto, César dei Castillo, defende que as agências de checagem “também incorporem e adicionem mais efetivamente à mídia(hegemônica), para que a verificação como apoio à qualidade do jornalismo esteja presente, e isso também seria uma garantia de liberdade, porque em vários governos latino-americanos há intenções de afetar a liberdade de imprensa, informação e expressão por todos os meios”. Esses mesmos veículos que são defendidos pelo diretor da agência de checagem, hoje defendem o golpe de Estado contra a estabilidade democrática, que suspendeu, ironicamente, a ordem institucional.

Entre os apoiadores das agências de checagem na Bolívia está o Conselho da União Europeia, o qual o presidente é Jean-Claude Juncker, que está apoiando Boris Johnson a fazer o Brexit e já foi denunciado pelo Luxemburgo Leaks em um escândalo financeiro de evasão fiscal e lavagem de dinheiro de empresas transnacionais. Entre as empresas denunciadas com Juncker no escândalo de evasão de divisas, estão a Volkswagen, a General Electric, a Pepsi, a JP Morgan, a Amazon de Jeff Bezos (aberto apoiador de Trump), a Apple, o banco já falido HSBC e o banco brasileiro Itaú Unibanco S/A.

João Moreira Salles, um dos principais acionistas da família ligada ao banco Itaú, é o principal patrocinador no Brasil da agência de checagem Lupa, hospedada no site da Folha de São Paulo. As agências de checagem brasileira surgiram no Brasil em 2015, checando principalmente os discursos da presidente Dilma e um ano depois a presidente foi deposta. Já durante as eleições de 2018, por mais que se digam as mais qualificadas para combater desinformação e fake news em processos eleitorais, censuraram uma reportagem da esquerda difundida por sites como Brasil 247, Revista Fórum e DCM no contexto do envio do terço do Papa para Lula.

Também é contraditório na primeira eleição nacional ao qual as agências de checagem agiram aqui no Brasil se sagrar vencedor Jair Bolsonaro(candidato associado a apologia a tortura e que já disse várias vezes preferir a ditadura do que a democracia), principal candidato identificado como disseminador fake news durante o processo eleitoral. Não é apenas no Brasil, também nos Estados Unidos, checaram a eleição entre Clinton e Trump e quem acabou ganhando foi Donald Trump; durante o referendo sobre o Brexit em 2016, as agências foram checar desinformações em relação ao pleito e então o Brexit foi aprovado.

Para se ter noção, o próprio James Carville, marketeiro de Lozada em 2002 e que já tinha sido marketeiro de Bill Clinton em 1992, ficando famoso pela frase "siga o dinheiro, estúpido," já criticou as agências de fact-checking por achar que elas na verdade reforçavam as declarações errôneas de Trump em 2016. Talvez por isso no remake narrativo de Nossa Marca é a Crise, Carville aparece como o rival de Sandra Bullock, que por sua vez faz a campanha do personagem que representa Lozada. Então na versão narrativa é Carville quem faz a campanha de Evo(?)

Agora a Bolívia sofre um golpe depois da primeira participação das agências de checagem internacionais em suas eleições. Eis que fica a pergunta: seriam as agências internacionais de checagem de fatos realmente veículos que combatem as notícias falsas ou são como a equipe de marqueteiros de Nossa Marca é a Crise? Ou seja, não seria as agências uma forma de Guerra Híbrida, onde dizem defender o profissionalismo, a democracia e a ideia de liberdade, mas vivem na verdade de propagar o caos e a crise nos países?

Bolivia 6.jpg Manifestantes bolivianos queimam a bandeira do próprio país em protestos


Matheus Bastos

Jornalista, fotógrafo e midiólogo. Politizando a mídia para não midiatizar a política.
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