salada cultural

Misturando cinema, história e música para ver no que dá.

Matheus Bastos

Jornalista e fotógrafo. Politizando a mídia para não midiatizar a política

The Irishman: entre a democracia e o comunismo

Apesar de um filme de máfia, acredito que Irishman é uma metáfora política. Sua trama principal amarra toda a história. E essa trama é sobre as diferenças políticas do Irishman, Robert de Niro, seu melhor amigo Russell Bufalino, Joe Pesci, e seu outro amigo e empregador, o famoso sindicalista Jimmy Hoffa, que é o brilhante Al Pacino.


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Irishman é com certeza um grande filme. A ideia de Scorsese de construir um épico de máfia caiu muito bem com a época. Cada personagem da trama tem sua própria linha narrativa, que vai para frente e para trás na temporalidade do filme. Inclusive a história possui 3 linhas temporais que constantemente se entrelaçam.

Mas não quero rasgar ceda para o filme. Já vi debates na internet falando sobre a obrigatoriedade de o filme ser assistido de uma vez e sobre sua “velocidade”. O ponto é polêmico, já que o filme tem 3:30h de duração. Mas filmes como Senhor dos Anéis e Scarface também. Então veja como quiser. Mas também não vou bancar o crítico técnico do filme. Vou tentar interpretá-lo de maneira breve.

Acredito que Irishman é uma metáfora política. Temos ali a típica trama de máfia, com personagens carismáticos e marcantes, e onde temos o “job guy”, ou seja, o cara que faz o “trabalho duro”. Tipo em GTA. Mas se repararmos, o filme tem uma trama principal que amarra toda a história e a mais marcante. E essa trama é sobre o Irishman, Robert de Niro, seu melhor amigo Russell Bufalino, Joe Pesci, e seu outro amigo e empregador, o famoso sindicalista Jimmy Hoffa, que é o brilhante Al Pacino.

Eles fazem muitas coisas e matam muitas pessoas no filme, com momentos de tiroteio muito realistas. Mas o grande divisor de águas do filme, é que o amigo do Irishman, Bufalino, decide apoiar Kennedy nas eleições de 1960. Já seu outro amigo e principal empregador, Hoffa, como sindicalista, odeia totalmente Kennedy. Essa é uma contradição que temos que estudar ciência política dos Estados Unidos para entender: o Partido Republicano controla os sindicatos patronais, e promovem mobilizações para estimular o povo e assim gostar do governo. Já o Partido Democrata, prefere a linha universitária, e não é muito chegada aos sindicatos, sendo por isso considerados por muitos uma esquerda “neoliberal”.

Para complicar e tornar a trama mais densa, Hoffa apoia a Revolução Cubana e acha que os Estados Unidos não deveria ser contra, pois claro, revolução em armas é um ideal republicano. Para quem já leu sobre o número de mortos da Guerra de Independência e a Guerra Civil americana, acha que qualquer Revolução Socialista é fichinha. Mas seu amigo Bufalino é totalmente contra Cuba, achando que a revolução enterrou os negócios de cassino da máfia, que seria uma forma social-democrata de crime.

Essas diferenças se ressaltam na medida que Hoffa é polêmico, dá esporros em seus funcionários na frente de todos, é preso, dá fortes declarações a mídia e em certo momento é considerado racista por um dos personagens. Isso faz com que seus amigos decidam matá-lo e é isso que acontece, sendo o Irishman que dá cabo ao serviço. Enquanto Bufalino continua sendo seu parceiro por toda a vida.

As mensagens são claras: a máfia está morrendo. Mafiosos querem ser democratas, e não republicanos apoiadores de Trump como pensamos. E por isso decidem matar seu “lado comunista”. Na verdade, essa é a grande mensagem do filme: todos querem ter uma boa vida, uma boa casa, comida, cuidar da família e morrer em paz, e não uma grande revolução performática. E é essa é a essência da nossa sociedade atual: quando os extremistas de direita são anti-establishment como eram os comunistas durante o século XX, de repente a social-democracia e o establishment não parecem tão ruins assim. Será que Scorsese está nos sugerindo matar nosso lado comunista?


Matheus Bastos

Jornalista e fotógrafo. Politizando a mídia para não midiatizar a política.
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