salada cultural

Misturando cinema, história e música para ver no que dá.

Matheus Bastos

Jornalista e fotógrafo. Politizando a mídia para não midiatizar a política

Ataque ao Irã e a Guerra Não-convencional

As lições do livro “Guerras Híbridas – das revoluções coloridas aos golpes” nunca foram tão atuais. Diferente do modelo onde se provoca a instabilidade indireta nos países, conhecido como "revoluções coloridas", a guerra não-convencional pode combinar a deslegitimação com eventuais ataques reais, e é isso que acontece no Irã.


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O Pentágono assumiu a autoria do ataque a míssil a um aeroporto perto de Bagdá, nesta sexta-feira (03/01). Em comunicado oficial, afirmam que o ataque foi para evitar possíveis ataques do Irã no futuro. O ataque levou a morte de Qassen Suleimani, Comandante de uma unidade da Guarda Revolucionaria do Irã, e outros comandantes.

Com o ataque, a tensão dos mercados aumentou com o medo de uma possível retaliação do Irã, e isso já fez aumentar o preço do dólar. Segundo alguns jornais e especialistas, o ataque é uma forma dos Estados Unidos aquecerem os mercados, podem gerar lucros no ramo de petróleo. Mas para outros, o aumento do dólar deve agravar a crise econômica e a recente alta dos preços no Brasil.

Há poucos dias, houve um ataque a Embaixada dos Estados Unidos no Irã, feita por manifestantes, onde Mike Pompeu, secretário de Estado dos Estados Unidos, e Trump acusam o governo do Irã pelos ataques a embaixada. Já o governo do Irã afirma não ter envolvimento com o caso na última quarta-feira (01/01). Abbas Mousavi, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, disse que o país "está enfrentando uma espécie de obscenidade americana e erros repetitivos de cálculo", informação segundo a agência local de notícias iraniana Mehr.

Na verdade, conflitos entre as duas regiões não são recentes, que se arrastam pelo menos desde os anos 50. Na época, o Ira queria estatizar o petróleo do país, pois seus lucros não eram revertidos para a população da nação. Isso gerou um golpe armado por Estados Unidos e Reino Unidos, removendo do cargo o premiê Mohammad Mossadeq. Porém, desde os últimos ataques a embaixadas, canais de televisão e a mídia americana com CBS e Fox, passaram a clamar repetidamente por uma reação dos EUA, e foi o que tivemos.

Andrew Korybko, autor do livro e da ideia de “Guerras Híbridas” já havia previsto essas acontecimentos no livro, “Guerras Híbridas – das revoluções coloridas aos golpes”. Korybko diz:

“O objetivo é provocar a fragmentação estratégica de facto e de jure de um Estado a fim de desestabilizar as Grandes Potências Eurasiáticas (Rússia, China e Irã) e prolongar a supremacia norte-americana no supercontinente. O Estado alvo é fragmentado e neutralizado, com táticas físicas e sociais de "terra arrasada" empregadas para mantê-lo em estado de colapso ou semicolapso por muito tempo após a conclusão da campanha de desestabilização. O resultado é um Buraco Negro geopolítico, cuja intenção é que o campo de atração gravitacional regido pelo caos engula os Estados vizinhos (os verdadeiros alvos, apesar de indiretos, da campanha de desestabilização).”

E continua indicando que…

“A maneira mais eficiente de efetivar a grande estratégia dos Bálcãs Eurasiáticos é através da abordagem indireta das Revoluções Coloridas e da Guerra Não Convencional. Como mencionado na Introdução, a guinada rumo à multipolaridade colocou certas restrições na capacidade de os EUA intervirem diretamente na Eurásia a seu bel-prazer, aumentando assim a atratividade e a necessidade por métodos indiretos. Basta lembrar a teoria introduzida para vislumbrar o padrão: "quanto mais as operações de desestabilização perpetradas pelos EUA se aproximam dos núcleos alvo (Rússia, Irã e China), menor o risco de guerra direta e maiores as chances de que meios indiretos (Revoluções Coloridas e Guerra Não Convencional) sejam aplicados". Logo, ao levar em conta a natureza caótica no código de DNA das Revoluções Coloridas e da Guerra Não Convencional, estas mostram-se as ferramentas indiretas ideais para construir os Bálcãs Eurasiáticos. Nenhuma outra estratégia pode produzir tamanho grau de caos construtivo/criativo/administrado senão essas duas.”

Para Korybko, ataques convencionais as vezes são necessários para gerar pânico na mídia com as notícias e alterar sua cobertura padrão. Menos parecida com a estratégia "colorida" ocorrida em processos eleitorais e movimentos para derrubar governos como no Brasil, a situação de Irã e Estados Unidos é de uma espécie de “guerra não convencional” ou não declarada. O objetivo é simples: estimular a guerra comercial contra a China, reduzindo seu crescimento para o Ocidente, especulando proposital e artificialmente os mercados. Atacar Irã diretamente para indiretamente atacar a China. Através de uma situação de pânico com as notícias iniciais, gerar instabilidade nos mercados. Nos próximos dias, a cobertura que a mídia internacional tentará normalizar o caso, mas se fosse um oficial americano ou um ataque ao território americano, já estaríamos em uma guerra.


Matheus Bastos

Jornalista e fotógrafo. Politizando a mídia para não midiatizar a política.
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