salada cultural

Misturando cinema, história e música para ver no que dá.

Matheus Bastos

Jornalista e fotógrafo. Politizando a mídia para não midiatizar a política

Bem-vindo aos anos 20 - 100 anos de uma época agitada

Por Regina Leal,

Os anos 1920 são uma marca, em comemoração aos 100 anos dessa década é que escrevo essa reflexão. Feliz Ano Novo, direto dos tempos modernos de 2020!


Montagem anos 20.JPG

A vida nos anos de 1920 era de intensa mudança. O longo século XIX se distanciava, as saias das moças encurtavam enquanto costume, o art decor substituiria aos poucos o romantismo dos movimentos da belle époque do começo do século. A era progressiva na América é substituída aos poucos pelas novas disputas nacionais e pela eclosão da Primeira Grande Guerra mundial. O clima era de euforia, de novidades tecnológicas, de empreendedorismo, de casinos e de mudanças nos hábitos políticos e sociais, em um segundo momento, as questões não resolvidas do mundo,como a segregação e o racismos pairaram no ar como um aviso de tempos difíceis coroados no final da década com a famigerada 'crise de 1929', o interessante é notar que tudo isso ocorreu em meio a promessa de novos tempos, também é dessa década a intensificação do direito ao voto por parte das mulheres.

É uma época de revolução! Pelo menos na moda e nos costumes. é fundado no Brasil a nossa versão do Partido Comunista, as mulheres largam os espartilhos incômodos e investem nos cabelos curtos e na atitude moderna. Também data dessa época a explosão do poderio do crime organizado. Os heróis da primeira guerra voltavam para casa com uma grande experiência de guerra e com um sentimento de que não teriam lugar em profissões comuns. A época era propícia, o movimento da temperança fortemente ancorado no conservadorismo feminino e religioso. O argumento dessas mulheres pioneiras e um pouco conservadoras, era que o álcool danificava as famílias, tornava os homens violentos para com suas mulheres. A lógica era proibir para não ter, a realidade foi que se proibiu e aí que teve muita bebida, mas sem fiscalização e feita por negócios clandestinos. Isso fez ligar o setor criminal com o setor de bebidas, um terrível erro de logística, fazendo assim ascender a cultura de tavernas, salões e casinos dirigidos por poderosos locais.

É dessa época o grande clássico do jornalismo: “A Opinião Pública”(1922) de Walter Lippmann. Explica a lógica do que seria a opinião dos políticos e dos jornais, ancorados não na opinião de uma maioria, mas assentada em nichos e certos aspectos culturais específicos que produziriam uma “imagem na cabeça” em forma de esteriótipos das pessoas sobre temas e opiniões. A opinião pública não é o somatório de todas as opiniões possíveis, mas daquelas que alcançam hegemonia e poder de deliberação e influência cultural.

Parece somente mais um livro, mas é a melhor explicação política para as contradições entre liberdade, progresso e conservação na América. Os clubes de jazz pela primeira vez levavam os ritmos negros para rotina dos brancos americanos, com nomes como Billie Holiday, e é nesse meio que floresce um pesado clima de racismo, estimulado por ideias e filmes como “o nascimento de uma nação”. O cinema foi uma força motriz da ideologia dos anos de 1920, salas de cinemas se espalharam e começaram a fazer parte do dia-a-dia de uma cultura que desejava ser moderna(pelo menos em alguns aspectos), os filmes, mesmo ainda dentro da tecnologia do cinema mudo, traziam grande influência junto ao público e nunca antes na história foram tão populares, cada sala de cinema era também um recinto de uma pequena orquestra, que tocavam músicas de acordo com o clima da narrativa, a indústria de Hollywood ganhava dinheiro com estórias românticas e exóticas, sobre viagens ao oriente, ou sobre amores impossíveis. As vanguardas europeias traziam uma renovação em relação a arte renascentista. Agora a forma poderia ser não linear, a modernidade inovava na perspectiva de ângulos e formas geométricas. Isso passou para a arte brasileira em forma do movimento de arte moderna em São Paulo. Em Paris, um grupo de músicos brasileiros que incluía Pixinguinha e Donga, “Os Batutas” alegravam as noites Parisienses com música regional Brasileira.

1920 9.jpg

O clima de ódio ao sistema é visto em ideias como “as vinhas da ira” posteriormente, mas o retrato é sobre os EUA no período de 1929. Data dessa época também a formação da “liga das nações” e da “Liga de defesa nacional”, é dessa época a resolução do Tratado de Versalhes(1919) selou a “paz” com a Alemanha. Por isso os anos de 1920 começaram com grande esperança. O ocidente Americano, Francês, Grãn-Bretanha havia triunfado sobre os ideias orientalistas, imperialistas e expansionistas de nações com pensamento mais conservador e revanchista. Ninguém poderia imaginar o tamanho da crise de 1929, ou que na década de 1930 surgiria no mundo uma guerra ainda maior e mais devastadora que a segunda. O clima era como em várias épocas, de “fim da história” de euforia sem limite. A música negra passava a ser escutada por conta também da primeira guerra. Com o regimento dos “Os Harlem Hellfighters”, regimento de soldados negros que tocavam nesse segmento de infantaria, os EUA trariam a música negra para tocar pela primeira vez na Europa.

Charles Chaplin e a forma de entretenimento de variedades, como o teatro Vandeville(como uma espécie de pai do stand up comedy), despontavam como momentos de humanismo e diversão, característicos de um estilo, de uma época. O primeiro filme falado também data do final dessa década, com o nascimento por exemplo de cultura dos desenhos com o “gato félix”. Mas o que explica a euforia do progresso como uma “corrida maluca” terminar com fome, miséria e com a maior crise do sistema capitalista já vista? O que explica isso seria a falta de regulação nos mercados financeiros. Veja a lógica do capitalismo financista, clientelista e corrupto. Vende-se uma ideia de uma marca, de uma empresa, pequenos investidores sem experiência começam a comentar entre si sobre como era fácil lucrar com a bolsa de valores. Como o sistema de crédito era vasto para estimular a economia, muitos títulos eram vendidos acima do que realmente valiam, o resultado disso foi que o sistema bancário criava dívidas que viravam valores e dividendos de empresas fantasmas.

Os anos de 1920 deixaram como lição para conosco que uma era de expansão e grande liberdade enfrentou também, uma grande onda de conservadorismo em resposta, xenofobia e também de intolerância. Por conta dessas diversas contradições e inovações, a marca dos anos de 1920 seriam de uma “geração perdida” por sua mentalidade superficial e romântica, romances como retratada por Scott Fitzgerald em “O Grande Gatbsy” de 1925. Mas eram os anos de 1920, pra que regular? A euforia e o crescimento pareciam sem fim. Como a metáfora do Titanic, o navio “que não naufragaria” e naufragou. Assim faz-se 100 anos de uma época gloriosa, onde erros e certos climas se parecem demais com o contexto atual. A sensação de começo de século, de esperança, construção de identidade é aos poucos substituída pelo rigor dos sectarismos diversos.

A minha pergunta final depois de 100 anos é pensar, será que como alguns pensam a história é cíclica e repetitiva, e vivemos um novo anos de 1920? Se for assim, quando que virá a nossa crise de consciência de tanta especulação, reverse cultural e xenofobia? Será que estamos fadados a repetir os ciclos e erros? Será que o mundo que vive uma onda fortemente conservadora, vai se manter nessa linha até uma nova e grande crise mundial? O que estamos esperando para mudar o mundo? Uma nova guerra mundial? Uma nova crise de 1929? Podemos sempre mudar alguma coisa, o primeiro passo é acreditar na possibilidade de mudança e não apenas insistir que tudo acabou e que é tudo muito novo e contraditório. O que retomo aqui é como esses sentimentos já são antigos. 100 anos atrás tínhamos debates parecidos com o que temos hoje.

1920 3.png


Matheus Bastos

Jornalista e fotógrafo. Politizando a mídia para não midiatizar a política.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Matheus Bastos