sandálias magnéticas

Artes plásticas, Literatura e outros vórtices

Michel Peres

Além de escrever para esse blog, o autor alimenta uma página no Twitter e um outro blog no Tumblr, onde brinca de escrever contos. Tem facilidade em conversações que utilizam inteiramente o lado esquerdo do cérebro (ainda imbatível em matéria de goiabas).

A arte perdida de "Ah Pook is Here": um projeto impublicável?

"Ah Pook is Here" é um trabalho concebido pelo escritor William Burroughs e o artista Malcolm McNeill na Londres de 1970, abandonado após sete anos, perdido por vinte e cinco anos e então redescoberto e publicado quatro décadas depois de ter sido iniciado. Publicado?


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Quando o artista inglês Malcolm McNeill foi convidado por Graham Keene, então editor da revista Cyclops, para desenvolver uma história em quadrinhos com William Burroughs, ele mal sabia que o empreendimento aí iniciado se estenderia por mais sete anos, tornando-se uma obra precursora das graphic novels, e a uma amizade com o escritor norte-americano, que levaria ao desenvolvimento de várias outras parcerias.

Ah Pook is Here é uma meditação sobre o tempo, o controle, a morte, o medo e a corrupção. Uma obra que envolve o texto de Burroughs e a arte gráfica de McNeill, um influenciando ao outro. Tem sua origem com The Unspeakable Mr. Hart, trabalho paralizado com o fim da publicação Cyclops, mas que aventou a possibilidade de uma obra mais audaciosa, inovadora e maior. Ah Pook is Here.

The Unspeakable Mr.Hart, Cyclops -4, text by William Burroughs; art work by Malcolm McNeill, 1970.jpg

McNeill mudou, então, para os EUA, onde se fixou na cidade de Nova York em 1975, com o objetivo de se dedicar totalmente ao trabalho com Burroughs. No livro Observed While Falling: Bill Burroughs, Ah Pook, and Me, ele conta detalhes do processo de criação artística de Ah Pook is Here e de sua convivência com o tio Bill.

Bill e eu decidimos sobre um completo romance palavra/imagem quase imediatamente. Até o momento ele havia escrito apenas onze páginas de texto - ainda intitulado "The Unspeakable Mr. Hart". Então, após uma visita ao British Museum, nós encomendamos uma cópia do Códice Dresden e o livro começou de verdade. Foi renomeado para "Ah Pook is Here", segundo o Deus Maia da Morte, e boa parte das onze páginas foram descartadas.

DREDEN CODEX - Six pages depicting eclipses (left), multiplication tables and the flood (right).jpg Seis folhas do Códice Dresden, representando eclipses

Burroughs e McNeill traçaram, então, um grotesco paralelo entre o calendário judaico-cristão e a visão temporal dos maias, apresentando como resultado um panorama apocalíptico poucas vezes visto, uma visão distópica que antecendeu em anos as ideias contemporâneas sobre um possível fim do mundo em 31 de dezembro de 2012. O caos instaurado em certas imagens do projeto nos lembra os trechos finais da rotina "Benway", do livro "Almoço Nu", escrito também por William Burroughs.

Imerso no trabalho e no estranho mundo de seu parceiro, McNeill seguiu o conselho de Burroughs, que disse: SAIA E CONSIGA AS IMAGENS. AS IMAGENS TORPES. SE NÃO CONSEGUIR ENCONTRÁ-LAS, ENTÃO AS FAÇA. E SE VOCÊ NÃO CONSEGUIR FAZER IMAGENS TORPES,VOCÊ NÃO É SUFICIENTEMENTE TORPE PARA O TRABALHO.

O artista, assim, visitou a coleção do Museu Gordon de Patologia, onde pôde observar toda forma de deformidade e anomalia física humana; acumulou fotos de policiais, de bombas atômicas e de pessoas mortas; leu textos e matérias sobre grupos revolucionários em plena atividade nos anos de 1970, como o Baader-Meinhoff, na Alemanha, as Brigadas Vermelhas, na Itália, e o Angry One, na Inglaterra. O produto que McNeill atingiu é algo entre Todd McFarlane e Hieronymus Bosch, Boris Vallejo e Pieter Brueghel, o Velho. Um mundo de fantástico terror, onde o pânico borbulha em cada imagem.

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O domínio sobre a sensação de medo e morte presente em Ah Pook is Here, é melhor percebido na história contada por Malcolm McNeill sobre o dia em que dois agentes do FBI apareceram em seu apartamento. Eles estavam batendo de porta em porta para encorajar as pessoas a ficarem atentas a possíveis movimentações nas vizinhanças. O medo e a desconfiança justificavam-se pelas atuais ações do Symbionese Liberation Army, um grupo revolucionário de São Francisco, responsável por sequestros e assaltos a bancos. Dentro do apartamento, os agentes se depararam com parte dos materiais de estudo de McNeill e algumas das imagens desenvolvidas para Ah Pook is Here, quando um deles apontou para a imagem dos vigilantes nas florestas.

books_lost_img2.jpg Vigilantes na floresta - a imagem taxada de "assustadora" pelo FBI

-O que está acontecendo ali - o agente perguntou. -É um tempo no futuro, onde a lei e a ordem foram derrubadas - eu respondi. Ele estudou a imagem por um tempo, então se virou para mim com uma expressão preocupada. -Assustador - ele disse.

Agora, uma rápida cronologia para melhor compreender a extensão deste trabalho:

1970 Malcolm McNeill é apresentado a William Burroughs. Trabalham em The Unspeakable Mr. Hart para a revista londrina Cyclops, que encerra atividade no mesmo ano. Os dois decidem expandir o conceito do projeto para uma obra mais elaborada, Ah Pook is Here;

1971 A Straight Arrow Books, de São Francisco, concorda em publicar o projeto de um romance "palavra/imagem" elaborado a quatro mãos por Burroughs e McNeill;

1974 McNeill sai de Londres, estabelecendo residência em São Francisco, com o objetivo de se dedicar totalmente a Ah Pook is Here;

1975 McNeill muda para Nova York;

1976 A revista Rush publica onze páginas do projeto;

1977 McNeill abandona o projeto devido aos parcos recursos e desinteresse por parte de outras editoras;

1979 A editora Calder publica Ah Pook is Here and Other Texts, que inclui apenas a parte escrita da colaboração, feita por Burroughs;

1990 William Burroughs grava uma leitura do texto Ah Pook is Here no disco Dead City Radio;

1994 Um curta chamado Ah Pook is Here é dirigido por Philip Hunt;

1997 William Burroughs desaparece em sua residência no Kansas;

2008-2009 Exposições apresentando o trabalho gráfico original desenvolvido por McNeill são montadas na Galeria Track 16 , em Santa Mônica, e na Galeria de Artes Salomon, em Nova York;

2012 Dois livros relacionados a Ah Pook is Here serão lançados em novembro pela Fantagraphics Books: Observed While Falling: Bill Burroughs, Ah Pook, and Me e The Lost Art of Ah Pook is Here, que contêm reproduções das pinturas e dos desenhos originais do projeto. Trechos dos dois livros estão disponíveis na internet. A Fantagraphics iria lançar em 2011 Ah Pook is Here por inteiro, "palavra/imagem", tal como pretendido por Burroughs e McNeill, mas, ao que parece, abandonou o intento. Nenhuma outra editora demonstrou interesse até agora.


Michel Peres

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