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Artes plásticas, Literatura e outros vórtices

Asas e Rodas: o fascínio pela máquina nos livros de J. G. Ballard

por em 31 de jul de 2012 às 11:29

Nos livros “Crash” e “O Império do Sol”, do escritor J. G. Ballard, os veículos assumem um importante papel dentro do enredo, tão atuante quanto o dos próprios protagonistas. Nesta relação entre o homem e a máquina, mais do que novas formas de mobilidade, percebe-se a ascensão novas possibilidades estilísticas.

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A história de vida do escritor James Graham Ballard por si só renderia boas ideias para um romance (o que acabou por ocorrer no semiautobiográfico “O Império do Sol”). J. G. Ballard, como é geralmente chamado, nasceu de pais britânicos, em 1930 na China. Após a invasão japonesa, viveu com sua família dos treze aos dezesseis anos em um campo de concentração controlado pelo exército nipônico. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, foi para a Inglaterra, onde iniciou os cursos de medicina e letras (abandonando os dois), serviu a Força Aérea Real, trabalhou como vendedor de enciclopédias, editor e colaborador em revistas literárias, até quando, em 1960, resolveu se dedicar exclusivamente à literatura, engajando-se como escritor em tempo integral. Construiu, a partir de então, um sólido trabalho como romancista, escritor de contos e, esporadicamente, artista plástico, desenvolvendo algumas instalações. Seus textos possuem uma carga literária tão pessoal e única que, inclusive, existe no Dicionário de Inglês Collins o adjetivo “ballardiano”.

“Crash” (1973) e “O Império do Sol” (1984) são seus dois romances mais conhecidos. Foram levados para as telas de cinema por David Cronenberg e Steven Spielberg (o último livro também rendeu, em 1991, o documentário da BBC "Shanghai Jim"), o que contribuiu para a difusão destas obras, tornando o nome de Ballard mais conhecido perante o grande público.

Os textos destes dois livros possuem aspectos bastante peculiares aos enredos e à escrita de Ballard: uma descrição pormenorizada de paisagens artificiais (imensos aeroportos; entrelaçadas superhighways; aeródromos abandonados; estradas solitárias); uma análise desapaixonada do lado obscuro do ser humano, o que leva a uma reflexão do quão fino é o verniz de civilização que nos encobre; e, chegando à temática deste artigo, um mergulho nas relações do homem com a tecnologia, reverberando em efeitos psicológicos extremos, de maneira a transformar a própria mente dos personagens em um novo campo, passível de ser explorado.

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Mais do que o compartilhamento da memória e das lembranças dos personagens, característico de textos modernistas, o desafio proposto por Ballard ao leitor é uma incursão ao interior das conexões neurais da mente do personagem, de sinapses nervosas que se juntam para formar um espaço incontrolável e delirante, tornando inútil todo esforço para delimitação de sua personalidade.

Em “O Império do Sol” e "Crash", as relações do homem com suas máquinas ocorrem em grande parte do tempo de modo ambíguo, onde a palavra fascínio talvez consiga abarcar esta carga conflitante de sentimentos, devido sua capacidade de comportar extremos de adoração quase religiosa até o horror levantado pela proximidade da morte. A máquina se torna a mídia que permite ao homem percorrer novos horizontes não apenas espaciais, mas físicos e psicológicos. Ballard fala sobre o “casamento da Razão com o Pesadelo”. A razão são nossos avanços tecnológicos e o pesadelo o uso que damos a eles. A ampliação de nossa “paisagem tecnológica” acaba por aventar espaço para a germinação de nossas próprias psicopatias, antes dormentes devido à inexistência de um mecanismo que as permitisse sair de seu estágio límbico.

Em “Crash”, os personagens estão fascinados com a possibilidade erótica dos acidentes automobilísticos, tanto em sua tendência voyeurística (ver ao vivo ou em fotos e vídeos) quanto em seu envolvimento direto em uma colisão. O carro deixa de ser um simples meio de transporte para se converter em um sistema de excitação/erotismo, punição/desejo. Ballard chegou mesmo a organizar, em 1970, uma exposição na New Arts Laboratory intitulada Crashed Cars, onde carros retorcidos por acidentes foram exibidos. No próprio romance, escrito três anos depois, a médica desfila por um pátio de carros acidentados como se percorresse uma galeria de arte.

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Crashed Cars, exposição organizada por Ballard em 1970


O interior do veículo se torna a alcova única para o advento de uma nova categoria sexual, uma subdivisão do masoquismo. A colisão imprime no corpo do acidentado cicatrizes e lesões que relembram partes do carro (o volante sobre o tórax cicatrizado; o painel sobre os joelhos lesionados; os estilhaços de para-brisa sobre o rosto mutilado) e dessa leitura corporal nasce, supostamente, uma nova estética, cujos recursos estão sendo bastante explorados por artistas da cena atual (junto às possibilidades estilísticas da esquizofrenia). Gabrielle, a jovem aleijada de “Crash”, que utiliza seus aparelhos ortopédicos como joias de conquista e excitação, torna-se o arquétipo para o pesadelo fascista de Floria Sigismondi ou o lado negro do glamour em Lady Gaga, assim como Robert Vaughan e o dublê Seagrave são as prováveis fontes de inspiração de Tarantino para o personagem de Kurt Russel em “À Prova de Morte” (2007).

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Beautiful People, de Marilyn Manson. Video por Floria Sigismondi

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Cena do vídeo Paparazzi, de Lady Gaga

Por sua vez, os sentimentos de Jim, personagem central de “O Império do Sol”, para com os aviões, comportam cargas mais amenas e não eróticas. Porém, estes não são simples veículos de passageiros. São máquinas de guerra, Assassination Weapon, como naquela instalação de Ballard. O que acaba por permitir a emersão de conotações mais sinistras, algo como o “retorno do reprimido” de Freud.

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Cena do filme "O Império do Sol", dirigido por Steven Spielberg

Em meio aos horrores da vida de um adolescente na guerra, o avião é potencializado a símbolo de salvação, paz e harmonia. O movimento de seu voo sobre os céus da China acalma Jim, liberando-o, momentaneamente, da dura realidade do campo de prisioneiros e do conflito que se estende além do seu perímetro.

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B-29 Superfortress, um avião militar

Entretanto, estes não são aviões da American Airlines. E as cerimônias de consagração dos kamikazes, os ataques cometidos pelos Mustangs P51 (“Cadillacs do combate aéreo”, como Jim os chama) e o horror nuclear escondido no bojo dos B-29 não deixa que esse dado escape ao leitor. Bombas de um lado e cilindros de ração do outro. Essas máquinas voadoras acabam por assumir a mesma dualidade do Chinook lisérgico descrito por Michael Herr em “Despachos do Front”: (...) um meta-helicóptero coletivo (...) salvador-destruidor, provedor-assassino, mão direita-mão esquerda. Ilustre representante do casamento da Razão com o Pesadelo.

 

Artigo da autoria de Michel Peres.
Além de escrever para esse blog, o autor alimenta uma página no Twitter e um outro blog no Tumblr, onde brinca de escrever contos. Tem facilidade em conversações que utilizam inteiramente o lado esquerdo do cérebro (ainda imbatível em matéria de goiabas)..
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