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Artes plásticas, Literatura e outros vórtices

Michel Peres

Além de escrever para esse blog, o autor alimenta uma página no Twitter e um outro blog no Tumblr, onde brinca de escrever contos. Tem facilidade em conversações que utilizam inteiramente o lado esquerdo do cérebro (ainda imbatível em matéria de goiabas).

O cinema de Wes Anderson e o triunfo do "loser"

Os filmes dirigidos por Wes Anderson possuem características bastante peculiares, tornando-o um dos mais celebrados cineastas da nova geração norte-americana. Para além da enaltecida estética de seus trabalhos, o drama humano liga de maneira comovente seus trabalhos.


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O trabalho de Wes Anderson como diretor de cinema insere-se em uma longa cadeia que podemos classificar como “filmes de diretores”. Assim como as películas de Almodóvar, Godard, Burton e Kurosawa, ou um produto do designer francês Philippe Starck, os filmes de Wes Anderson possuem uma marca característica que os liga ao nome do criador, tornando-os autopromocionais.

Vários aspectos fazem um filme dirigido por Wes Anderson um filme de Wes Anderson: uma estética peculiar (muito centrada em cores primárias e suaves); trilha sonora baseada em bandas dos anos 1960 e 1970; um elenco de atores restrito, rotativo e repetitivo (contando com os irmãos Wilson, Bill Murray, Jason Schwartzman, Anjelica Huston, Kumar Pallana dentre outros); o vestuário "do it yourself” hipster trajado pelos personagens; a imagem como parte essencial da narração da trama. Os pontos abordados a partir de agora neste artigo são características muito comuns e caras às histórias dos filmes de Anderson, e que, muitas vezes, conduzem todo o caráter dramático da narrativa: primeiro, a fragilidade das relações humanas, e, segundo, a vitória dos losers, dos desajustados sociais.

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A trama de “Os Excêntricos Tenenbaums” (2001), filme que tornou o nome de Anderson mais conhecido para o público em geral, se desenvolve totalmente dentro do primeiro ponto definido. Os protagonistas, três irmãos, apesar de obterem sucesso em suas carreiras profissionais, passando, assim, à margem da classificação comum de losers, enfrentam sérios problemas no campo da afetividade. Chas Tenenbaum (Ben Stiller) não consegue perdoar a displicência do ausente pai, levando a agir de maneira superprotetora com os próprios filhos; Richie Tenenbaum (Luke Wilson) sofre devido ao amor que alimenta pela irmã adotada, Margot Tenenbaum (Gwyneth Paltrow), sendo esta afetada pela depressão e um casamento desmoronando.

Em “Viagem a Darjeeling” (2007), co-escrito com Jason Schwartzman e Roman Coppola, um trio de irmãos constitui novamente o núcleo dos protagonistas. Os três buscam, em uma viagem espiritual de trem pela Índia, refortalecer os laços familiares esbatidos pela ação dos anos, ao mesmo tempo que tem de lidar com os sofrimentos particulares a cada um, motivados por um passado recente. Estes dois filmes, “Tenenbaums” e “Darjeeling”, são, talvez, os mais autobiográficos da carreira de Anderson como diretor. Os seus pais se separaram quando ele tinha oito anos, e a convivência com seus irmãos, apesar da proximidade, foi muitas vezes conflituosa, segundo o próprio cineasta.

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Em “Pura Adrenalina” (1996), três amigos, totalmente desmotivados por aquilo que a sociedade consideraria uma “carreira honesta”, dedicam-se à fantasia quase infantil de se tornarem foras-da-lei. Mais do que a concretização de um assalto, ou qualquer outra espécie de contravenção, eles buscam a aprendizagem, a experiência adquirida através da convivência e das situações. Treinar tiro ao alvo no deserto se torna apenas um pretexto para sair da cidade e da influência do opressivo ambiente familiar, viajar pelo país e sonhar com algo diferente.

“A Vida Marinha com Steve Zissou”(2004) traz um Bill Murray em crise de meia-idade, enfrentando o declínio da carreira e a baixa autoestima. Um homem que tardiamente reconhece que todo o sucesso de sua carreira somente foi possível graças à sagacidade e força de sua esposa e à capacidade de sua equipe em lidar com seu comportamento extravagante e egocêntrico. É este reconhecimento, apesar de tardio, que permite Zissou alavancar novamente sua posição como importante oceanógrafo e documentarista, a homenagem de Wes Anderson a Jacques Cousteau.

bill zissou.jpg Still do filme A Vida Marinha com Steve Zissou

Max Fischer, personagem de Jason Schwartzman em “Três é Demais” (1998), é um daydreamer de quinze anos, fracassado em todas as disciplinas básicas existentes no currículo da academia Rushmore, mas extremamente entusiasmado com atividades extracurriculares. Escreve peças de teatro, é editor do jornal da escola, atuante nos clubes de pipa, de francês, de selo & moeda, de caligrafia, de kung-fu, dentre vários outros. Vindo de uma família pobre, a bolsa na academia seria uma oportunidade única para Fischer ascender socialmente. Entretanto, Rushmore é também o local onde ele pode aprimorar suas habilidades e afiar seus desejos, que fazem efetivamente ele ser o que é.

jason fischer.jpg Still do filme Três é Demais

Os personagens destes últimos três filmes são sonhadores. Desajustados em busca de vitórias pequenas e simples, mas preciosas e decisivas. Vitórias que não levam a nada daquilo esperado pela sociedade, mas que são fundamentais para o aprimoramento de seus personalidades.


Michel Peres

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