sandálias magnéticas

Artes plásticas, Literatura e outros vórtices

Michel Peres

Além de escrever para esse blog, o autor alimenta uma página no Twitter e um outro blog no Tumblr, onde brinca de escrever contos. Tem facilidade em conversações que utilizam inteiramente o lado esquerdo do cérebro (ainda imbatível em matéria de goiabas).

Sobre a série "The murmur of the Innocents", de Gottfried Helnwein

O artista Gottfried Helnwein desenvolveu diversos trabalhos em conjunto com Marilyn Manson, Scorpions, Rammstein e David Bowie. Aqui ele retoma um de seus temas preferidos: a criança. A reflexão e a surpresa que os trabalhos de Helnwein proporcionam é uma poderosa afirmação de que a pintura, longe do que muitos pensam, ainda tem muito a oferecer como meio.


01.jpg

Continuando o seu trabalho sobre o tema das misérias da guerra, iniciado em 2007 com "The disasters of War", e já explorado por outros grandes artistas, como Francisco Goya e Jacques Callot, esta série "The Murmur of the Innocents" (2009-2011), de Gottfried Helnwein, parece condensar tudo aquilo que seus antecessores pretenderam exprimir em suas telas, o patético de uma guerra, porém através do olhar e do pesar de um único sujeito: a criança, personagem vital em quase toda obra de Helnwein, desde as Aktions na cidade de Viena às montagens de óperas, como aquele Rosenkavalier de Richard Strauss, apresentada em 2005.

O murmúrio do título, que encerra um desesperado berro, sussurra aquele pedido de socorro ouvido por Vladimir, personagem de Esperando Godot, um apelo dirigido a toda humanidade, inserida em uma situação de amargo e tedioso abandono. Na primeira tela uma garota observa de forma taciturna a luz que irradia de fora. Ela vê o que não vemos, mas, ocultamente, sabemos bem do que se trata. A cena que a constrange pode estar ocorrendo tanto em sua cozinha quanto dentro do aparelho de tv.

02.jpg

Em "The Mumur of the Innocents" a solidão é o background em que toda a tela se desenvolve, onde a única ilusão de companhia que a criança pode encontrar está em seu sono e em seus brinquedos, que ainda assim reluzem o horror que está ocorrendo em algum ponto distante ou bastante próximo. Mudo (ou emudecido) como a criança, o brinquedo de Rei Ayanami, retratado na tela quatro, evidencia essa insegurança: sua cabeça enfaixada e seus olhos cerrados sinalizam como sonhos premonitórios, fazendo do boneco uma hodierna alegoria da guerra, um simbolismo para o horror.

04.jpg

Nascido e criado na Áustria em um período de vácuo artístico, donde toda a arte moderna, taxada de degenerada, havia sido expulsa pelos nazistas e, após a 2ª Guerra Mundial, toda a arte do Reich havia sido banida dos museus e galerias, a experiência artística de Helnwein se deu a partir da grotesca mistura de obras religiosas (como aquelas que representavam martírios de santos cristãos), ruínas de edifícios bombardeados e os recentemente publicados (no início dos anos 1950) quadrinhos de Walt Disney (outra presença constante em suas obras), que surgiram como um mundo sui generis dentre o ambiente de derrota e de repressão do pós-guerra.

Segundo o próprio artista, ele aprendeu mais com Pato Donald (a partir dos desenhos do famoso quadrinista Carl Barks) do que com Leonardo da Vinci, em uma glorificação do popular sobre o erudito.

donaldkatalogkrems.jpg

Em seus primeiros trabalhos, como Lebensunwertes Leben (vida indigna de viver), de 1979, Helnwein se inflama contra as políticas de negação do passado recente praticadas pelo governo austríaco, que procurava ocultar suas ligações com o período hitlerista. Suas obras, vistas a partir desse viés, tornam-se um processo de catarse, em que a violência, em nenhum momento gratuita, faz com que todo sofrimento e brutalidade esquecidos ou negados pareçam jorrar de um grande dique, represados por tal postura de recusa, lembrando-nos a responsabilidade do recordar, por mais doloroso que seja praticá-lo.

Para mais informações sobre a série comentada aqui ou sobre este grande artista, acesse http://www.helnwein.com/


Michel Peres

Além de escrever para esse blog, o autor alimenta uma página no Twitter e um outro blog no Tumblr, onde brinca de escrever contos. Tem facilidade em conversações que utilizam inteiramente o lado esquerdo do cérebro (ainda imbatível em matéria de goiabas)..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/// @destaque, @obvious //Michel Peres