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Nelson Rodrigues: 100 anos do "anjo pornográfico"

O escritor, dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues possui uma vasta obra literária. Esta estendida e adaptada a peças de teatro, telenovelas, séries e filmes. Um homem que sempre demonstrou, naturalmente, a sua irreverência.


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Antes de mais, devo confessar que o nome Nelson Rodrigues nada me dizia. Em primeiro lugar, porque nunca ouvira falar sobre o mesmo, portanto não fazia a mínima ideia dos meandros envolvidos nesta figura literária. Tratei de pesquisar, então, recorrendo imediatamente à ferramenta mais inevitável: a internet. Apercebi-me que era no teatro que Nelson era uma verdadeira e grande referência. Não digo com isto que não o era em outras formas de reprodução literária, desde contos, crónicas e romances. No ano de 2012, a 23 de agosto, comemorou-se o centenário do seu nascimento.

Em vez de contar toda a sua biografia, prefiro retratá-la através do seu muito prestigioso legado. Deixo aqui uma análise, embora superficial, a uma das suas obras literárias de domínio teatral.

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A peça teatral intitula-se "Vestido de Noiva". É considerada pela crítica uma belíssima e talvez a mais consagrada de Nelson Rodrigues. Sua segunda peça de teatro foi escrita apenas numa semana, durante a madrugada. Escrita no verão de 1943 foi apresentada no inverno daquele ano no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Constitui o mote do processo de modernização do teatro brasileiro. É, por isso, considerada um marco na história da dramaturgia brasileira.

O seu primeiro trabalho para os palcos, a peça "A Mulher sem Pecado", tinha como pretensão conseguir o sucesso obtido por outras produções da época, contudo não obteve simpatia junto do público resultando em fracasso de bilheteira, muito embora esta peça fosse uma considerável obra de valor artístico.

A montagem teatral foi realizada sob a direção do polaco Zbigniew Marian Ziembinski, que chegara ao Brasil cerca de dois anos antes. Experiente encenador, Ziembinski deu forma ao texto de Nelson. O seu rigor na encenação, com a exigência de ensaios constantes, levou a conceção brasileira de teatro a novos patamares. O diretor teatral é caracterizado quase como um ‘pintor da cena’. Despojada da leveza da cena e compondo diálogos incisivos e realistas, a peça apresenta uma grande inovação – o diretor teatral teve em conta o equacionamento dos vários planos propostos por Nelson Rodrigues -, desde logo: a subdivisão do palco, que aparece iluminado de três modos, representando três planos distintos.

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Quanto à estrutura, a representação é dividida em três planos: da alucinação, da memória e da realidade. Há também duas escadas laterais. A peça desenrola-se em três atos, cuja relação não é exatamente cronológica, a não ser no plano da realidade, o qual acompanha a degradação do estado de saúde de Alaíde e a aniquilação consequente dos outros dois planos.

O entendimento do enredo poderá ser um pouco complexo logo de início, até por haver a tal interseção entre os três planos e também por se tratar de uma peça toda ela psicológica. Trata-se de um triângulo amoroso: Alaíde, a protagonista, rouba o namorado da irmã, Lúcia, e casa-se com ele. Lúcia, por sua vez, fica com o marido da irmã, e os dois formam um complô, levando Alaíde à loucura e à morte. Enlouquecida sai para a rua, é atropelada e vai parar de imediato ao hospital, ficando na intermitência entre a vida e a morte. A partir deste momento, a peça reconstitui aquilo que se passa na mente em desagregação da protagonista.

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A peça inicia com sons e ruídos urbanos e de um aparatoso acidente: buzina de automóvel, barulho de derrapagem violenta, vidraças partidas, sirene de ambulância. O cenário é dividido em três planos, que o autor denomina: alucinação, memória e realidade. No plano da realidade, há uma correria desenfreada por parte de jornalistas famintos de bombásticas notícias, enquanto médicos se apressam em salvar o corpo inerte da mulher, jazida numa mesa de operações.

No plano da alucinação, Alaíde procura por uma mulher chamada Madame Clessi, a considera sua heroína, a qual foi assassinada vestida de noiva pelo seu namorado. As duas, finalmente, encontram-se e conversam. Um dos homens que surge em cena – no entender de Alaíde, todos se assemelham a Pedro - acusa Alaíde de assassina. Com o peso desta acusação, Alaíde revela a Madame Clessi que assassinou o marido Pedro com um ferro após uma discussão.

Através do plano da memória a cena é reconstituída. Mais tarde, ambas percebem que o assassinato de Pedro não passou de um sonho de Alaíde. O principal símbolo da libertação feminina, para Alaíde, é Madame Clessi, uma prostituta do início do século que havia residido na casa em que então moravam seus pais. Diante a intenção dos pais de queimarem todos os pertences da mulher que haviam ficado no sótão da casa, Alaíde consegue resgatar um diário, ficando a conhecer detalhes da sua trajetória, complementados com recortes de jornais da época encontrados na Biblioteca Nacional.

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Enquanto os médicos tentam desesperadamente salvar Alaíde da morte no plano da realidade, as duas mulheres conversam no plano da alucinação, tentando lembrar-se do dia do casamento de Alaíde, e de duas mulheres que estavam presentes enquanto Alaíde se preparava para a cerimónia: a mulher de véu e uma moça chamada Lúcia. Ambas são, na verdade, a mesma pessoa: a irmã de Alaíde, que reclama o facto de esta lhe ter roubado o namorado.

Segue-se uma série de intercalações entre os planos: no plano da realidade, o trabalho dos médicos para reanimar Alaíde, e dos jornalistas querendo obter informações sobre o trágico atropelamento. Nos planos da alucinação e da memória, a história de Madame Clessi, que namorou um jovem rapaz e a sua morte (Alaíde informa-a: “…um menino de 17 anos matou você. (abstrata) 27 de novembro de 1905…”), funde-se com a de Alaíde no dia do casamento com Pedro. Segue-se a discussão com Lúcia minutos antes da cerimónia, que a acusa violentamente de lhe ter roubado o noivo. O casamento acontece e Alaíde vê-se vítima de uma conspiração entre Lúcia e Pedro, que pretendem matá-la para ficarem, finalmente, juntos.

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No plano da realidade, Alaíde morre na mesa de operações. Paralelamente, Alaíde assiste com Madame Clessi a cenas do seu enterro e da sua discussão com Lúcia momentos antes do atropelamento, quando jura que mesmo morta não a deixaria ficar com Pedro.

No plano da alucinação, Alaíde e Clessi aparecem de costas para a plateia. Os repórteres noticiam a morte de Alaíde e dizem que a irmã chora bastante.

No plano da realidade, Pedro é repelido por Lúcia. Esta diz ter jurado diante do cadáver da irmã não mais se aproximar dele. Lúcia acusa Pedro de ter incutido nela o desejo de que Alaíde morresse; falam de um “crime”, mas sempre entre aspas, o que confere ambiguidade ao termo.

Para o final, cenas sucessivas apresentam saltos cronológicos: uma discussão entre Lúcia e sua mãe; Lúcia volta de uma viagem, “mais gorda e mais corada”; Lúcia prepara-se para o casamento com Pedro. Pede o buquê, e essa é a sua última fala.

Na última didascália, o autor termina referindo, e passo a citar: “Crescendo da música, funeral e festiva. Quando Lúcia pede o bouquet, Alaíde, como um fantasma, avança em direção da irmã, por uma das escadas laterais, numa atitude de quem vai entregar o bouquet. Clessi sobe a outra escada. Uma luz vertical acompanha Alaíde e Clessi. Todos imóveis em pleno gesto. Apaga-se, então, toda a cena, só ficando iluminado, sob uma luz lunar, o túmulo de Alaíde. Crescendo da Marcha Fúnebre. Trevas.”

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Depois de ler a biografia de Nelson Rodrigues apercebi-me que ele se servia de acontecimentos do seu quotidiano para os retratar nas suas peças. Por exemplo, em relação a esta peça: todo o fulgor e sofreguidão amorosos entre as personagens Alaíde, Lúcia e Pedro e também entre Madame Clessi e o seu namorado, podem ser associados aos relatos de crimes passionais e pactos de morte entre casais apaixonados muitos comuns na época, em que Nelson começou a sua carreira jornalística e trabalhava no jornal fundado pelo seu pai Mário Rodrigues.

Houve até uma situação que se passou em concreto com o seu irmão que nomeadamente o abalou: enquanto Nelson no jornal se ocupava da área policial, o seu irmão Roberto era um talentoso desenhista, dedicava-se portanto às ilustrações; em 26 de dezembro de 1929, a primeira página do jornal intitulado “Crítica” trouxe o relato da separação do casal Sylvia Serafim e João Thibau Jr; ilustrada por Roberto e assinada pelo repórter Orestes Barbosa, a matéria provocou uma tragédia; Sylvia, a esposa que se divorciara do marido e cujo nome fora exposto na reportagem invadiu a redação do jornal e prontamente alvejou Roberto com uma arma comprada naquele dia; Nelson acabara por testemunhar o crime e todo o sofrimento do irmão, que viria a morrer dias depois.

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"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino)." - Nelson Rodrigues

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