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$$$: Quero ser a precursora da Lolita !

SandraSalomeSeraphine

Serenamente aguardo-A, é o fogo que a embeleza

Húmus, Raul Brandão: a vila (vida) é um simulacro

Húmus, obra de referência do escritor português Raul Brandão, apresenta uma densidade inquietante. A sua leitura revela-se, inicialmente, absurda, até pelos seus descritivos traços decadentistas, contudo, digna de uma atenta fruição literária.


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Este livro “Húmus” possui um índice com vários capítulos. No primeiro capítulo “A vila” faz uma alusão no inicio, àquilo que nos chega imediatamente ao olhar: "Uma vila encardida – ruas desertas – pátios de lajes soerguidas pelo único esforço da erva – o castelo – restos de muralha que não têm serventia: uma escada encravada nos alvéolos das paredes não conduz a nenhures". O autor diz que nessa vila esquecida pelo tempo, deixada num abandono profundo: “…aqui se enterraram todos os nossos sonhos…”.

A vila dormita em silêncio, somente o narrador escuta “o trabalho persistente do caruncho que rói há séculos na madeira e nas almas”. Remete que são sempre as mesmas coisas, a mesma estagnação, os mesmos gestos: “As paixões dormem, o riso postiço criou, as mãos habituaram-se a fazer todos os dias os mesmos gestos… Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras”. Essa vila tem algumas figuras que aí deambulam enraizadas nos mesmos vícios: “A vida petrifica-se, a vila abjecta cria o mesmo bolor”. “Mora dum lado o espanto, do outro o absurdo”. Lá existe uma igreja, diz que até os santos são corroídos pelo granito salitroso, remetendo para aquela estagnação e corrupção a que a aldeia estava muito exposta: “ o Santo, que de quando em quando sai do torpor e clama: - O inferno, o inferno!”. Afirma que vivemos num mundo de fórmulas a que temos que obedecer. Porém há outro mundo, ou seja, há uma outra vida ao nosso lado mas vamos “até à cova”, ou seja, morremos sem dar por essa outra vida. Acrescenta que a vida na qual temos existência é insignificante e grotesca.

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Todos nós representamos num jogo constante. A mesa de jogo em que nos curvamos serve de peneira aos dias inúteis, ao envelhecimento que nos corrói, à maldade que se nos impregna. É este o quotidiano de todos nós sentados a uma mesa de jogo que é a nossa existência. Confessa que para não vermos o desolador cenário em que estamos inseridos, o narrador criou aquela vila e até o próprio Santo criou o inferno: “A vila é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro”. O narrador serve-se da vila para metaforisar a vida. O narrador pensa que há em cada homem pelo menos dois seres opostos. Por um lado, o homem regrado e metódico por outro, “o doido morto por fazer esgares”. Um exemplo da duplicidade do ser: “Esta velha não é a velha com quem lidamos – é outra. Tem tido um trabalhão para fazer mal, nunca conseguiu fazê-lo. Se se arrisca, há-de contar consigo mesma para se contrariar”.

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O narrador fala do Gabiru, que diz ser o outro ser de si, que é “um homem absurdo”. É uma parte do ser que abomina todavia, é a única parte que lhe interessa. Refere que o Gabiru fala quando ele não está à espera, já quando o narrador o chama, ele não comparece, deixando o narrador irritado: “Às vezes deita-me tinta nos nervos”. O narrador define-o como um “singular filósofo”. Afirma que o Gabiru “é capaz de desejar a morte para ver o que há lá dentro…ao lado da vida constrói outra vida. Sonha, e os seus sonhos são sempre irrealizáveis…”. Além disso conta que o Gabiru passa "meses inteiros ninguém lhe arranca palavra, dias inteiros ouço-o monologar no fundo de mim próprio". O narrador admite gostar da companhia do Gabiru, o seu companheiro psíquico: "Há noites em que não resisto: fecho-me com ele a sete chaves para o ouvir. É o doido que em nós prega e nos deixa aturdidos. Desdenho-o, e sinto-lhe a falta quando o não tenho ao pé de mim”.

O narrador diz que “apesar de lhe ter um amor extraordinário deseja a sua morte”. É este sentimento que sente em relação ao Gabiru. Admite que o seu companheiro psíquico “tem uma vida muito maior que a minha e independente da minha”. Tem a certeza que no caso de desejar a morte do Gabiru, ele morrerá. Aquilo que sustenta a existência do Gabiru é o amor do narrador a ele. O Gabiru prega ao narrador que a vida é inútil, estúpida e incompreensível. Não compreende a vida pois toma-a como incompleta, interroga o porquê de nascer “Então para que nasci? Para ver isto e nunca mais ver isto? Para adivinhar um sonho maior e nunca mais sonhar? Para pressentir o mistério e não desvendar o mistério?”. Considera que “a vida não é senão uma constante absorção na morte”. Faz um discurso conformado com o fim a que está inexoravelmente sujeito – a morte: “Adeus sol, água, árvores, pedra. Para sempre! Para todo o sempre! Tenho-te horror e odeio-te. Interrompes os meus cálculos. És o maior dos absurdos. Ver para não ver, ouvir para não ouvir, viver para morrer!...”

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O narrador acaba por afirmar que morrer afinal é absurdo e estúpido, pois é algo que não compreende. Todavia ninguém o diz alto, apenas para si mesmo. Atesta também que a pessoa adormece no sonho esquecendo-se da vida e que “o nosso maior sonho é não morrer”. Ora, como passa bastante tempo sobre a vida é aí que “nos agarramos com mais saudades à vida”. Aquilo que representa a vida para o narrador: “…é aquela manhã de chuva em que nos molhamos juntos (e ainda me sinto molhado) e se não repete; é o minuto que nos escorre das mãos como fio de água, mas doira-o o sol, e é esse mesmo minuto translúcido que quero tornar a viver, sem a sombra da morte a meu lado. É a essa ninharia que é a vida, a que deito as mãos com desespero”.

Confessa o narrador que “entre mim e mim interpõe-se um muro”. Declara que a sua existência é um drama, diferente de todos os outros, não tem acção nem personagens, apenas “passa-se no silêncio, despercebido, entre mim e mim”. “Eu sou um desconhecido para mim mesmo”, afirma o narrador. Assegura que até no momento de da sua deposição na cova nunca teve um momento a sós consigo mesmo. Só se conhece com “olhos de pasmo e dor”. “Mesmo morto o que eu não quero é morrer…”, menciona isto, desejando que apesar de morrer não caia no esquecimento.

Atesta que somos seres que não sabemos o que queremos, nem em que cremos. Pomo-nos a explicar, a ignorar e a adivinhar tudo. “És um mar de inverno num dia de verão”, referindo-se à nossa constante reclamação sem sentido.

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Considera que a questão suprema prende-se com a existência ou não de Deus: “…porque este é o único problema que me importa e que te importa resolver”. “Se não há Deus, a vida, produto do acaso, é uma mistificação. Aproveitamo-la para satisfazer instintos e paixões…Tudo é permitido”. “Se Deus existe, eu sou um homem, - se Deus não existe, eu sou outro homem completamente diferente”. Clama “preciso de um Deus que me atenda, que me escute, que saiba que sofro e que me veja sofrer, (…) que me salve ou que me condene, (…) que me ampare, preciso de uma inteligência superior à minha e em comunicação com a minha”.

Mais à frente no livro, o narrador enuncia como justificação daquilo ao que se refere anteriormente como ser duplo: “Disperso-me, e por muitos esforços que faça, sinto-me desagregar…Agora não contenho a multidão que constitui a minha alma. Nunca estou só e ouço-os que clamam cada vez mais alto. Sinto fantasmas até à raiz da vida. Minha alma é um tablado onde todos os mortos se digladiam. Ouço-os! Ouço-os! São impulsivos, são seres que actuam e falam como se eu não existisse. Nesses momentos sou apenas um espectador…”.

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Para o narrador a vida está por explorar: “só conhecemos da vida uma pequena parte – a mais insignificante. E o erro provém de que reduzimos a vida espiritual ao mínimo, e a vida material ao máximo”. Declara também que cada um de nós apenas vê um instante da vida. Apesar de tentar definir a vida, afiança que “nem sei o que é a vida”. Acrescenta até que “talvez o mundo não exista, talvez tudo no mundo sejam expressões da minha própria alma”. Diz estar convencido que “nenhum destes seres (humanidade dentro de si) existe”.

O Húmus termina com um grito de revolta contra a imobilidade, contra a tradição que se impõe autoritária, reaccionária, e a favor da revolta da criatividade, do novo: “Ouves o grito? Ouve-lo?... – É preciso matar segunda vez os mortos”

Para concluir, aqui fica uma passagem, que dá conta, a ver do narrador, do processo, da passagem da vida em todos nós: “ Siga a vida seu curso esplêndido. Sabe a sonho e a ferro. È ternura, desgraça e desespero. Leva-nos, arrasta-nos, impele-nos, enche-nos de ilusão, dispersa-nos pelos quatro cantos de globo. Amolga-nos. Levanta-nos. Aturde-nos. Ampara-nos. Encharca-nos no mesmo turbilhão do lodo. Mata-nos. Mas, um momento só que seja, obriga-nos a olhar para o alto, e até ao fim ficamos com os olhos estonteados. Eu creio em Deus”.


SandraSalomeSeraphine

Serenamente aguardo-A, é o fogo que a embeleza.
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